Opinião


Lula e o movimento social

ImageCesar Sanson*
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Lula, egresso das lutas sociais deu as costas para o movimento social. A Reforma Agrária, depositária de toda uma simbologia histórica da luta social brasileira encontra-se travada. Os últimos conflitos no campo revelam a distância e a indiferença do governo para com o movimento social. A marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul e o caso Syngenta no Paraná, para ficar em dois exemplos, demonstram a desfaçatez para com essa agenda social histórica. Hoje, Lula está muito mais acercado e submetido à agenda dos ruralistas do que a agenda MST.

1,7 mil trabalhadores rurais marcham no sul desde o dia 12 de setembro. O objetivo é a desapropriação da fazenda Coqueiros. O projeto de desapropriação se encontra na mesa do presidente, porém não mereceu até o momento nenhuma palavra de Lula. No Paraná, a associação do capital transnacional Syngenta com o latifúndio, fez mais uma vítima, o trabalhador rural Valmir Mota. Tampouco, o governo se manifestou. A face violenta e truculenta do latifúndio não mereceu uma palavra do governo. Lula calou-se.

A auto-confiança dos ruralistas é tanta que passaram a defender abertamente no Congresso, a tese de relaxamento da legislação sobre trabalho escravo. Até mesmo um aliado histórico do governo Lula, o movimento sindical sofre revés. O governo voltou a pautar o tema da Reforma Previdenciária e da Lei de Greve dos Servidores Federais. Uma possível reforma dessas legislações significará mais perda para os trabalhadores.

Enquanto o movimento social é tratado com indiferença e até mesmo certo desprezo pelo governo Lula, o capital está satisfeito. O investidor Armíno Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), afirma de forma entusiasmada que o Brasil está passando por uma “revolução capitalista”. O capital multinacional pensa da mesma forma. Emílio Botin, presidente mundial do banco Santander disse que “o Brasil é um país fantástico, com bancos fantásticos, empresários fantásticos” e arrematou, “o mundo ainda não descobriu o Brasil”.

Na recente reunião com os empresários, Lula colheu elogios. Um dos presentes ao encontro no Palácio do Planalto conta que os depoimentos dos empresários sobre a economia no governo Lula foram tão enfaticamente positivos que mais pareciam “testemunhos” dados num templo.

O fato incontestável é que os bancos nunca ganharam tanto. Apenas no governo Lula o lucro líquido semestral dos cinco grandes bancos brasileiros cresceu 132,5%. O mesmo vale para as empresas que viram a sua remessa de lucros para as matrizes triplicarem nos últimos anos.

A ‘revolução capitalista’ brasileira é obra de um presidente operário e não de um burguês, como Fernando Henrique Cardoso, tampouco de um oligarca como Sarney, de um conservador mineiro como Tancredo ou de um chefe militar tipo Geisel.

Surpreendentemente quem faz a ‘revolução capitalista’ no Brasil é um governo eleito pelos movimentos sociais. E ainda mais irônico, o governo que faz a alegria dos mais ricos, também é adorado pelos mais pobres. E mais ainda. O governo conseguiu neutralizar o movimento social, em parte cooptou-o e deixou-o a deriva.

(*) Pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutorando de Ciencias Sociais na UFPR. Esta análise foi feita em um trabalho conjunto com a equipe do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Olha aí, senadores!?


Em 15 dias Grupo de Combate ao Trabalho Escravo liberta quase 90 pessoas

ImageClique aqui para ouvir(1’44” / 410 Kb) – Após 15 dias de retorno ao trabalho, o Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), libertou um total de 88 trabalhadores mantidos em situação de escravidão. Foram resgatadas 45 pessoas no estado do Maranhão, 23 no Pará e 20 em Mato Grosso.

As atividades do Grupo Móvel foram interrompidas durante quase um mês, depois que uma ação realizada, que na ocasião liberou 1800 trabalhadores na fazenda Pará Pastoril Agrícola (Pagrisa), no Pará, no dia 2 de julho, foi questionada pelos donos do local e por parlamentares ligados à bancada ruralista no congresso.

A caracterização de trabalho escravo que guia as ações do Grupo Móvel, se dá pelo uso de trabalho forçado, a servidão por dívida, condições degradantes de trabalho e jornada exaustiva acima de dez horas. Os ruralistas no entanto, consideram o conceito exagerado.

Apesar do esforço do MTE, o combate ao trabalho escravo ainda é pouco no país. Existem apenas oito unidades do Grupo Móvel no Brasil. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), das aproximadamente 200 denúncias de trabalho escravo feitas anualmente, menos da metade são averiguadas.

A Comissão afirma ainda que a impunidade é o fator responsável pela perpetuação do trabalho escravo. O código penal brasileiro estabelece pena de dois a oito anos de prisão para a prática de trabalho escravo. No entanto, nunca um fazendeiro foi preso devido à prática do crime.

De São Paulo, da Radioagência NP, Juliano Domingues.

Mídia Golpista?


Jornalismo fajuto




O Paulo Henrique Amorim costuma dizer que o Jornalismo brasileiro é, antes de tudo, ruim. É fraco. É um produto de baixa qualidade.

Recebi em casa, sem pedir, um exemplar da Revista da Semana, da editora Abril.

É a capa previsível: Lula de bermuda estrelada, sem fazer nada, enquanto o mundo acaba e a manchete pergunta: “A crise vai passar longe? Lula diz que o Brasil está imune, mas não é o que os economistas pensam”.

A data da publicação: 27 de agosto. Portanto, mais de dois meses se passaram. E aí? Acabou o mundo? Acabou o Brasil? O Brasil não só não acabou como os próprios tucanos falam em “revolução capitalista”. Ou seja, a distância entre a capa da revista e a realidade é absurda.

Vou lá dentro, ver quem são os economistas aos quais se refere o título na capa.

1. Luiz Carlos “No Limite da Irresponsabilidade” Mendonça de Barros, segundo o qual “Mantega (o ministro de Lula) é um ignorante sobre a crise financeira.”

2. Leda Paulani, da USP: “Ao optar por uma política de juros altos, o Brasil atrai capital de curto prazo. E quando há problemas lá fora, esse dinheiro sai rapidamente daqui.”

Ou seja, a revista ouviu DUAS opiniões de economistas, sendo uma delas a de um tucano que quer ver o circo pegar fogo. Ouviu duas pessoas, sendo uma delas um tucano da oposição, e afirmou na capa que “não é o que pensam os economistas.”

Poderia ter dito: “Não é o que pensam alguns economistas”.

Ou melhor, ainda: “Lula diz que o Brasil está imune, mas não é o que pensam dois economistas, um deles porta-voz do PSDB.”

É ou não é jornalismo fajuto?

A revista foi para o lixo.

Opinião


Criminalização da pobreza


Escrito por Léo Lince do Correio da Cidadania

Em matéria de Sérgio Cabral, eu prefiro o original. O pai do governador, que na juventude foi boxeador no subúrbio de Quintino, sabe que a favela não é fábrica de marginais. Pelo contrário, doutor em samba e freqüentador de rodas de bamba, ele deve partilhar a opinião de Zé Kéti: “o morro não tem vez e o que ele fez já foi demais, mas quando derem vez ao morro toda cidade vai cantar”.

O governador, tudo indica, não saiu ao pai. E, como diz o avesso do ditado popular, quem não sai aos seus, degenera. É o que se deduz das palavras terríveis saídas de sua boca, preconceituosas e reveladoras de uma escolha política assustadora. Se o rapaz não fosse governador, o problema seria apenas dele. No entanto, como ele é o titular da principal alavanca do poder político em nossa infeliz província, tal disposição de ânimo é um risco para todos nós.

O governador Cabral Filho, por certo, não é um idiota. Ele sabe o que está fazendo. Cita números errados, lê as estatísticas que lhe convêm, usa de maneira intempestiva o trabalho polêmico dos dois pesquisadores americanos, mas é tudo calculado. Mesmo quando recua de declarações infamantes (pegou mal em muitos setores da sociedade), não se afasta da linha escolhida. Trabalha com pesquisas de opinião que lhe revelam a onda de desespero que a violência cotidiana espalha em nossa população. É um surfista da violência.

O bombardeio ao Complexo do Alemão, a matança na Comunidade da Coréia, em Senador Câmara, além da truculência diária que alimenta o clima de medo na cidade, são passos de uma escalada. Ao apoiar o aborto como política de segurança e dizer que a mãe de favela é fábrica de marginais, o governador coloca os pobres na linha de tiro de sua política. Humilhados e ofendidos, eles agora são apontados como responsáveis pela violência de que são vítimas.

Os barões do crime organizado, os grandes traficantes de drogas e armas, fora da linha de tiro, estão absolutamente tranqüilos. Eles, e os que lhes prestam serviços no aparato contaminado da política, aguardam o rescaldo da batalha para recompor o varejo do negócio. Qualquer governo sério e polícia inteligente começariam por tal ponto o combate efetivo ao narcotráfico e ao crime organizado.

No entanto, é mais fácil combater os tiranetes na ponta do varejo. São múltiplas as vantagens. Rende popularidade e não compromete a malha de cumplicidades que espalha seus tentáculos nos mais variados aparatos do poder. Ademais, cumpre uma função política geral. O modelo econômico de exclusão social, causa poderosa da violência nos grandes centros urbanos, tem na repressão truculenta a sua contrapartida natural e necessária.

Ao ostentar a truculência como se fora firmeza, o governador recebe aplausos daquela parcela cada vez mais atemorizada com a espiral de violência e, por outro lado, o apoio dos pontos fortes que se beneficiam com o modelo econômico injusto. Daí a sua condição de pregador e praticante ativo da política aterrorizante de criminalização da pobreza.

Léo Lince é sociólogo.