O POVOAMENTO DA AMÉRICA


pedra
Povoamento das Américas: um debate sem fim

O cenário

Milênios antes do período geológico e climático atual, o clima da Terra era mais frio. Grandes geleiras estendiam-se imediatamente ao norte das regiões hoje ditas temperadas do hemisfério norte; na maior parte das regiões intertropicais, embora o clima não fosse tão frio, imperavam climas geralmente mais secos que os de hoje. Como as águas ficavam retidas sob a forma de gelo nas zonas polares, o nível dos oceanos era cerca de 100m mais baixo. Assim, podia-se transitar a pé por uma passagem de terra entre a Sibéria e o Alasca na região da Beríngia. Com as precipitações, as geleiras aumentavam, bloqueando essa passagem. Os períodos em que a travessia podia ser feita eram, portanto, bastante restritos.

A probabilidade de que alguma leva de imigrantes tenha vindo pelo mar há mais de dez mil anos, quando as técnicas de navegação eram muito precárias, é remotíssima. A propósito, o povoamento das ilhas do Pacífico é comprovadamente muito mais recente.

Infelizmente, as regiões através das quais os imigrantes asiáticos alcançaram a América do Norte estão hoje sob as águas geladas do Ártico ou foram em algum momento ocupadas por geleiras. Os mais antigos locais de habitação da Beríngia e do Alasca encontram-se, portanto, submersos ou foram destruídos pelo gelo. Os sítios identificados pelos arqueólogos localizam-se mais ao sul e não correspondem às regiões habitadas pelas primeiras gerações de colonos.

Os indícios

Vestígios inquestionáveis da presença humana entre 12 e 11.500 anos atrás foram encontrados em abrigos ou, mais raramente, a céu aberto, na Califórnia e México (América do Norte) e no Chile central, no Peru e nas regiões Central e Nordeste do Brasil (América do Sul). Os sítios que permitem essa afirmação categórica contêm instrumentos de pedra lascada feitos com matéria-prima de boa qualidade trazida de fora da região. Muitos desses objetos, produzidos por meio de golpes certeiros, são complexos demais para terem sido feitos por fenômenos naturais. Foram datados a partir do carvão de fogueiras e, por estar associados a artefatos, pode-se inferir que resultem de ação humana. Muitas vezes os sítios apresentam ainda vestígios alimentares característicos.

O estudo das condições de deposição do sedimento (a terra dentro da qual se encontram os vestígios) permite verificar que não houve perturbações tardias capazes de misturar objetos recentes e antigos. A partir de onze mil anos atrás, aparecem também esqueletos, particularmente numerosos nas imediações de Lagoa Santa, Minas Gerais: Lapa Vermelha, Cerca Grande e Santana do Riacho.

Há vários sítios, no Brasil inclusive, com indícios de uma ocupação possivelmente mais antiga. Infelizmente, todos apresentam algum problema que impede de se chegar a uma conclusão definitiva. Vários parecem conter instrumentos de pedra, mas estes são feitos a partir de rochas do próprio local ou podem ter sido trazidos por fenômenos naturais. São tão toscos que o lascamento rudimentar pode ter resultado de um choque acidental: pedaços de blocos do teto, ao cair uns sobre os outros durante milênios, acabam se lascando espontaneamente. Restos de carvão e pedras queimadas podem ter sido produzidos por ação de raios. Embora, em outros casos, instrumentos e fogueiras pareçam inquestionáveis, há indícios de que as camadas sedimentares foram perturbadas e de que os vestígios arqueológicos podem ter-se infiltrado a partir de uma camada sedimentar mais recente.

Não há por que recusar a priori a possibilidade de uma presença humana mais antiga na América, mas os indícios propostos devem ser meticulosamente avaliados. Muitas vezes os arqueólogos acabam interpretando os dados disponíveis de modo divergente, fazendo com que o público não saiba em quem acreditar. Nos últimos anos, foi divulgada na imprensa a existência de sítios que comprovariam a presença do homem no Brasil há dezenas e até centenas de milhares de anos. É preciso que se saiba que os especialistas estão longe de alcançar unanimidade em torno desse assunto. De qualquer modo, se havia gente no sul dos Estados Unidos a 11,5 mil anos atrás e no Chile a 12.500 anos atrás, deduz-se que seus antepassados tenham chegado ao norte do continente — a milhares de quilômetros de lá — muito tempo antes.

A única possível conclusão é, quaisquer que sejam os trabalhos relacionados as Antigüidades, das mais distintas áreas do conhecimento, eles fornecem hipóteses reflexivas e de comparação que permitem levar mais longe a análise, e isto em todos os setores da ciência, contribuindo para um conhecimento mais profundo da história humana.

Os atores

Quem eram os primeiros imigrantes? Nada podemos dizer a respeito de possíveis indígenas anteriores a doze ou onze mil anos atrás. Verifica-se, no entanto, a partir desse instante a presença de populações muito diferentes tanto dos atuais asiáticos como dos índios modernos. Só a partir de aproximadamente oito mil anos atrás é que aparecem vestígios de homens com traços asiáticos, ditos “mongolizados”, já bastante parecidos com os indígenas atuais.

Estudos muito recentes sugerem que os primeiros habitantes das Américas (autores da cultura Clóvis nos Estados Unidos e de outras culturas da mesma época na América do Sul) descendiam de uma população não mongolizada da Ásia central. Parte dessa população teria migrado para o sul, chegando à Austrália, enquanto outra parte teria viajado para o norte, penetrando as Américas. Pode-se, assim, explicar a semelhança entre o chamado Homem de Lagoa Santa e as populações aborígines da Austrália, embora tenhamos certeza de que não houve navegação entre esses dois continentes. Na região de origem, esses primitivos Homo sapiens teriam sido substituídos por populações mongolizadas, que, por sua vez, produziram novas ondas migratórias em direção às Américas.

Essa hipótese, ainda em discussão, sugere que quatro ondas migratórias principais vindas da Ásia penetraram as Américas (os esquimós são representantes da última delas), sendo que pelo menos duas teriam alcançado a América do Sul.

Podemos chegar a um julgamento definitivo?

Enquanto a arqueologia fornece provas definitivas da presença humana na América entre 12,5 e 11 mil anos atrás, lingüistas e estudiosos de ADN mitocondrial acreditam que a diversificação biológica e lingüística que se verifica no continente permite supor um período de tempo maior, da ordem de vinte a trinta mil anos. Os arqueólogos não devem descartar essa possibilidade, mas o fato de os primeiros colonizadores terem sido provavelmente pouco numerosos faz com que sejam remotas as chances de identificação de seus vestígios. Caso alguns dos sítios polêmicos mencionados anteriormente sejam de fato marcas da sua presença, isso significaria que seus habitantes trabalhavam a pedra de modo muito grosseiro se levarmos em conta a habilidade de populações contemporâneas de outras partes do mundo. Mas essa hipótese é plausível, já que, sobretudo em meio tropical, a madeira pode ter sido muito mais utilizada do que a pedra.

Os cientistas devem, portanto, continuar buscando indícios dos primeiros americanos e discutir sua validade caso a caso. O papel da controvérsia na arqueologia, que não está no domínio das ciências experimentais, é essencial. Os “advogados do diabo” são necessários para obrigar os que defendem a existência de sítios supostamente pleistocênicos na América a controlar suas informações, refinar seus argumentos e comprovar suas asserções. Mas nem sempre é fácil manter as discussões sobre esse tema — o mais polêmico da arqueologia americana hoje — nos limites da elegância desejável.

In: Ciência Hoje, vol.25, nº149, maio 1999

André Prous

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/Museu de História Natural,

Universidade Federal de Minas Gerais

Pesquisador do CNPq responsável pela Missão Arqueológica Franco-Brasileira de Minas Gerais