O GRANDE GEÓGRAFO MILTON SANTOS


GLOBALIZAÇÃO

O legado de Milton Santos: um novo mundo possível surgirá das periferias

Mayara Paixão

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 03 de Maio de 2019 às 05:35

Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977
Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977 – Foto: Reprodução/Site Milton Santos

Milton Santos (1926 – 2001) é reconhecido mundialmente como um dos maiores geógrafos brasileiros. Dedicou a vida a analisar sua época. Crítico feroz do modelo de relações internacionais que se fortalecia nas décadas de 1980 e 1990, acreditava ser possível e necessário pensar em outra forma de globalização.

O professor, de origem baiana, é responsável por desenvolver novas compreensões de conceitos como espaço geográfico, lugar, paisagem e região. Defendeu que o uso de um território é político e deve ser estudado para entender as sociedades. Deu atenção especial para a economia urbana dos países tidos como “subdesenvolvidos” e acredita que, uma vez unidos, os povos darão novo sentido à humanidade.

Para Milton, era preciso questionar os consensos já estabelecidos. Questionar, aliás, era a sua principal característica segundo conta Nina Santos, sua neta.

“Seu legado não é restrito a um conceito ou a uma questão social, ele é extremamente amplo. Acho que a principal herança de Milton Santos é justamente ressaltar a importância do questionar, do pensar diferente, de defender o seu ponto de vista mesmo que contra uma maioria que questiona a sua posição.”

Neste 3 de maio de 2019, ele completaria 93 anos. Milton Santos possui uma obra com mais de 40 livros publicados e, ao longo de sua carreira, recebeu o título de Doutor Honoris Causa em 20 universidades nacionais e internacionais.

Milton Santos recebendo o título Honoris Causa na Universidad de Barcelona, em 1996 (Foto: Reprodução/Site Milton Santos)

Da Chapada Diamantina para o mundo

Milton Santos nasceu em Brotas do Macaúbas (BA), na Chapada Diamantina, filho de uma família de professores primários. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e fez doutorado em geografia na universidade francesa de Strasbourg.

Além de professor universitário, o geógrafo também trabalhou como jornalista em periódicos como o diário “A Tarde”, o mais antigo da Bahia e um dos mais antigos do país. Milton teve dois filhos e quatro netos, tendo conhecido apenas dois em vida.

O geógrafo rompeu barreiras não apenas pelos pensamentos fora da curva, mas por ser um homem negro inserido em uma intelectualidade predominantemente branca. “Lembro de um episódio que contava em que foi barrado na portaria da USP, em um final de semana, e impedido de entrar porque o porteiro, também negro, duvidava que ele fosse efetivamente professor daquela instituição”, recorda-se a neta, Nina Santos.

O preconceito racial presente em seu cotidiano foi um tema que, apesar de não ter sido central, também permeou a obra de Milton Santos. Em uma de suas poucas palestras disponíveis em vídeo, ele afirmou que “a luta dos negros só pode ter eficácia se forem envolvidos todos os brasileiros: Não cabe só aos negros fazer essa luta. Ela tem que ser feita sobretudo por todos.”

O exílio na França

A partir do golpe de 1964, o contexto da ditadura civil-militar forçou ao exílio muitos dos intelectuais brasileiros. Milton Santos chegou a ser preso por sua atuação política e militância. Logo depois, partiu para o exílio na França. O baiano trabalhou como professor convidado em importantes universidades francesas, como as de Toulouse, Bordeaux e Sorbonne.

É neste cenário que a então jovem estudante de geografia Maria Adélia Souza conhece o professor em 1965. Na época, ela cursava o mestrado em Paris com o também renomado intelectual brasileiro Celso Furtado, amigo de Milton Santos. Em uma das reuniões de sua orientação acadêmica, conheceu o geógrafo.

“Foram duas horas da maior aula de economia e geografia que tive em minha vida, e já estou com 80 anos. Foi assim que eu conheci Milton”, conta.

O que Maria Adélia não imaginava era que naquele encontro começaria uma amizade e parceria acadêmica que durariam até os últimos dias da vida de Milton Santos. A geógrafa, hoje professora titular de Geografia Humana da USP, assistiu de perto a mudança que o baiano proporcionou nos estudos da geografia.

“Milton, sem dúvida, foi o refundador da geografia contemporânea”, defende a amiga e professora Maria Adélia Souza (Foto: Arquivo Pessoal)

Milton Santos também fez um grande esforço para romper a bolha da academia e levar suas ideias até quem ele tentava retratar: o povo brasileiro.

Por uma outra globalização (2000) é o primeiro livro que ele fala ‘Adélia, eu vou escrever um livro fácil para quem não for geógrafo entender, qualquer cara do povo entender’. Eu disse ‘Milton, você acha que alguém vai entender a mais-valia mundial, a convergência dos momentos, a unicidade técnica do planeta?’ Eu disse ‘ninguém entende isso, Milton’.”

Ao que parece, as pessoas entenderam. Sua obra e seu legado se tornam conhecidos em todo o mundo. Em 1994, Milton ganhou o maior prêmio da geografia mundial, o prêmio Vautrin Lud, consagrando-se como o único geógrafo brasileiro e latino-americano a consegui-lo até hoje.

Para Maria Adélia, o amigo foi mais do que um grande geógrafo: “Milton se tornou mais do que um geógrafo, ele se tornou um pensador do Brasil. A obra dele fundamenta uma perspectiva libertária para a humanidade. Por isso que Milton Santos foi genial.”

Um novo mundo possível

Em 1977, Milton Santos retorna do exílio e se torna reconhecido como um pesquisador engajado, enquanto leciona na Universidade de São Paulo (USP).

Quase duas décadas passadas da sua volta ao Brasil, no ano de 1995, o país assiste à posse do governo de Fernando Henrique Cardoso. Tem início a implementação de um pacote de medidas neoliberais. Empresas estatais foram privatizadas e o capital estrangeiro entrava com liberdade no país.

Foi nesse período que o cineasta Silvio Tendler, atualmente com 69 anos, conheceu o professor Milton Santos. “A minha surpresa foi conhecer um dos homens mais brilhantes da minha vida. Tudo o que ele fazia era com um sorriso muito irônico, sarcástico. Era uma pessoa ao mesmo tempo muito dura e muito doce, capaz de falar as coisas mais duras do mundo com um sorriso nos lábios”, recorda-se.

Talvez a análise mais crítica e reconhecida mundialmente feita pelo geógrafo tenha sido sobre a globalização. Aquela era também a época em que o conceito passou a aparecer com maior frequência no debate público e entre os movimentos populares.

Silvio Tendler, por exemplo, ficou encantado com a possibilidade das barreiras da distância supostamente rompidas: a possibilidade de viajar, a baixa no preço dos produtos vindos de fora. Uma breve conversa com Milton Santos mudou a visão do jovem cineasta:

“Eu estava um pouco seduzido por esses processos. Conversei sobre isso com Milton Santos e ele era extremamente crítico. Eu falei ‘mas professor, por que o senhor está fazendo essa crítica se as pessoas estão extremamente seduzidas por essa possibilidade?’, aí ele falou: ‘É muito simples. Porque não vai ter para todo mundo.’”

As palavras marcaram a memória de Tendler. No ano 2000, ele voltou a procurar o amigo Milton Santos. Uma pequena entrevista que deveria durar dez minutos rendeu um material de duas horas, que daria origem ao documentário Encontro com Milton Santos: O Mundo Global Visto do Lado de Cá, lançado no ano de 2006 e premiado em diversos festivais de cinema.  

O filme retrata a análise de Milton Santos sobre o processo de globalização. Para o geógrafo, das periferias globais sairia a possibilidade de uma nova relação entre os países do globo, com mais igualdade e menos injustiça entre os povos. A cultura popular e a crescente capacidade de se comunicar impulsionada pelas novas tecnologias da informação dariam resultados.

Segundo Tendler, o documentário, mesmo mais de uma década depois de lançado, permanece atual. “É um filme que não envelhece pela atualidade das coisas que Milton Santos fala e pelas bobagens que se fazem no mundo”, opina.

3 ANOS SEM MARIELLE FRANCO. QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?


CASO MARIELLE


CASO MARIELLE

Marielle Franco recebe homenagens na Itália e Suíça três anos após assassinato

Divulgação/Globo
Imagem: Divulgação/Globo

Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça

14/03/2021 05h50

Com o passar do tempo, o nome de Marielle Franco ganha cada vez mais força fora do Brasil. Exatos três anos após o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018, Marielle é lembrada na Itália, onde dará nome ao terraço de uma biblioteca, e na Suíça, que terá mais um ato em sua memória. Três anos já se passaram, mas os mandantes do crime ainda não foram identificados.null

A RFI conversou com a professora Ana Luiza Oliveira de Souza, fundadora da Casa do Brasil em Florença, instituição que promove a língua portuguesa e a cultura brasileira na região da Toscana. Foi a Casa do Brasil que pediu à prefeitura local que o nome de Marielle Franco fosse dado a algum lugar da cidade.

“Nós mandamos uma carta para a Prefeitura de Florença junto com o sindicato aqui da cidade, o CGIL de Florença. Entramos em contato com esse sindicato porque sabíamos da ligação que eles tinham com o Brasil. Era março de 2019. Naquela ocasião, a prefeitura buscava nomes de mulheres para poder nomear praças, ruas e outros lugares da cidade”, diz Ana Luiza, explicando como tudo começou.

Dois anos depois daquele pedido, um espaço dedicado a Marielle, que já é homenageada com um jardim em Paris, na França, será inaugurado em Florença, na Itália.null

“É um espaço maravilhoso. O terraço que terá o nome da Marielle Franco é o da biblioteca delle Oblate, uma biblioteca municipal. Florença tem várias bibliotecas e as mais importantes são a Nacional e a Municipal. E essa tem seu terraço com uma vista magnífica para a cúpula da Catedral de Florença, Santa Maria del Fiore, a cúpula de Brunelleschi. É um símbolo mesmo ter o nome de uma brasileira que lutava pelos direitos humanos, ter o nome de Marielle Franco no terraço da Biblioteca delle Oblate, que é um símbolo da cidade”.

A professora conta que há sempre pelo terraço muitos jovens lendo, tomando café. “É muito, muito bonito e muito simbólico como espaço para ser doado ao nome de Marielle Franco”.

A inauguração do espaço, com direito a placa com o nome da vereadora, seguido pelas datas de nascimento e morte e a inscrição “ativista pelos direitos humanos”, em italiano, irá ocorrer nesta segunda-feira (15), às 11h pelo horário local. Representantes da cidade de Florença, da Casa do Brasil e do sindicato, assim como a cônsul honorária do Brasil em Florença, devem estar presentes.null

Quem mandou matar Marielle?

Já na Suíça, é um ato em frente à ONU que vai marcar os três anos do assassinato da vereadora. A ativista pelos direitos humanos Angela Wiebusch de Faria, que representa o comitê Internacional Lula Livre de Genebra.

“O comitê vai realizar um ato simbólico em memória de Marielle Franco, que foi assassinada brutalmente três anos atrás na cidade do Rio de Janeiro. Esse ato tem um significado muito grande para manter viva a memória e o legado dela”, explicou Angela Wiebusch de Faria à RFI.

“Nós estaremos hoje [domingo], às 15h, em frente à ONU, na Praça das Nações Unidas, nosso tradicional ponto de manifestações e de encontros. Seguimos na denúncia e pedindo justiça por Marielle, porque até o momento esse crime não foi elucidado. Quem mandou matar Marielle? Seguimos com Marielle Presente”, diz.

Por já ser a quarta manifestação realizada em Genebra desde 2018, quando Marielle foi morta no Brasil, a RFI perguntou à ativista por que ela considera importante esse tipo de mobilização.null

“Foi um crime político que chocou o mundo. Então, enquanto não houver justiça por Marielle, nós não vamos parar de nos manifestar. Essa é a nossa mensagem. Essse crime também está sendo, em nível internacional, acompanhado por uma relatora especial da ONU. Ainda está impune, mas deve ser esclarecido o mais rápido possível para se fazer justiça para a família e pela memória em si de Marielle”, afirma.

Fonte: UOL