COMO A IGREJA PROTESTANTE AJUDA A CORRIGIR INJUSTIÇAS SOCIAIS HISTÓRICAS| PASTOR ARIOVALDO RAMOS


COMO A IGREJA PROTESTANTE AJUDA A CORRIGIR INJUSTIÇAS SOCIAIS HISTÓRICAS?

A BANCADA EVANGÉLICA NO CONGRESSO NACIONAL | PASTOR ARIOVALDO RAMOS


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PASTOR ARIOVALDO RAMOS SOBRE A BANCADA EVANGÉLICA NO CONGRESSO NACIONAL

PRIMEIRA VÍTIMA DE HOMOFOBIA NO BRASIL


O índio executado a tiro de canhão tido como ‘primeiro mártir da homofobia no Brasil’

  • Edison Veiga
  • De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
Tibira do Maranhão, detalhe da tela de Miguel Galindo
Legenda da foto,A execução de Tibira do Maranhão trata-se do primeiro caso documentado de morte por homofobia no Brasil

Em 1614, um índio tupinambá foi executado, com a anuência de religiosos da Igreja Católica em missão no Brasil, por conta de sua orientação sexual. Conhecido como Tibira do Maranhão — tibira é um termo utilizado por indígenas para se referir a um homossexual —, seu caso é o primeiro registro de morte por homofobia no Brasil. Ativistas LGBT querem que o personagem seja reconhecido como mártir e fazem campanha para divulgar a história.

A história de Tibira do Maranhão foi resgatada pelo sociólogo e antropólogo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia e fundador da organização não-governamental Grupo Gay da Bahia. Seis anos atrás ele publicou um livreto chamado São Tibira do Maranhão — Índio Gay Mártir, com o relato da execução do personagem histórico e uma contextualização do caso.

Desde então, ele vem lutando para dar mais visibilidade ao episódio. Ganhou apoio de um religioso de uma denominação cristã independente, o arcebispo primaz da Santa Igreja Celta do Brasil, que diz reconhecer o martírio e a santidade do indígena. Grupos de luta por direitos dos homossexuais divulgam a importância de sua memória.

No início do próximo ano, Mott pretende encaminhar à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) um pedido para que a Igreja Católica “peça publicamente perdão” pela execução de Tibira e instaure o início de um processo de canonização.

“Estamos dispostos ainda a mobilizar outras igrejas para reconhecê-lo logo como um santo, independentemente do Vaticano”, afirma o antropólogo à BBC News Brasil. Mott defende que Tibira seja reconhecido como “o primeiro mártir da homofobia no Brasil” e busca revestir sua história de simbolismo, em alusão aos crimes de homofobia ainda hoje praticados no país.

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Quem esteve por trás da condenação de Tibira — segundo Mott, uma “execução arbitrária e sem autorização do papa nem da Inquisição” — foi o religioso e entomólogo francês Yves d’Évreux (1577-1632), frade capuchinho que integrou expedição francesa ao Brasil Colônia.

E a documentação detalhada, no caso, é o relato do próprio religioso, publicada em livro intitulado História das Coisas Mais Memoráveis Acontecidas no Maranhão nos Anos de 1613-1614.

A execução

Tibira do Maranhão, em ilustração
Legenda da foto,’Tibira’ é um termo utilizado por indígenas para se referir a um homossexual

No seu livreto, Mott atenta que a narrativa do frade escancara “a visão altamente etnocêntrica e o preconceito da moral cristã contra a sodomia, além de sua ardilosa tentativa de justificar eticamente a pena de morte contra o infeliz selvagem pecador”.

“Um pobre índio (sodomita), bruto mais cavalo do que homem, fugiu para o mato por ouvir dizer que os franceses o procuravam e aos seu semelhantes para matá-los e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do Evangelho, da candura, da pureza, e da clareza da religião Católica Apostólica Romana”, relatou d’Évreux.

“Apenas foi apanhado, amarraram-no e trouxeram-no com segurança ao forte de São Luís, donde deitaram-lhe ferros aos pés; vigiaram-no bem até que chegassem os chefes principais de outras aldeias para assistirem ao seu processo e proferirem sua sentença e sua morte, como fizeram afinal. Não esperou o prisioneiro pelo princípio do processo e ele mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse: ‘Estou morto, e bem o mereço, porém desejo que igual fim tenham os meus cúmplices’.”

O antropólogo pontua que outros relatos da época corroboram a ideia de como os europeus se chocaram com a “diversidade sexual e lascívia exacerbada dos ameríndios”. Em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, o empresário, agricultor e historiador português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) escreveu que “são os tupinambá tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam. Não contentes em andarem tão encarniçados na luxúria naturalmente cometida, são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não tem por afronta”.

Afirmou ainda que “o que se serve de macho se tem por valente e contam esta bestialidade por proeza” e “nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas”.

Quando os capuchinhos franceses chegaram ao Brasil, portanto, já estava consolidada essa imagem de que era preciso “purificar a terra de suas maldades”. Catequizados pelos religiosos, os próprios indígenas se tornaram aliados nesta missão. D’Évreux relata que após ser sentenciado, Tibira teve o direito de pedir para ser batizado — o argumento era que, se ele aceitasse, “apesar de sua má vida passada, iria direto para o Céu apenas se sua alma se desprendesse do corpo”.

O frade conta que, temendo uma repercussão negativa, como se estivesse endossando a execução, resolveram que não seria conveniente que ele próprio o batizasse. Assim, instruiu o carrasco para que o fizesse, “antes de ir ao suplício sem as cerimônias da Igreja”.

Aqui há um simbolismo que não passa incólume aos olhos dos pesquisadores. No batismo cristão, Tibira foi chamado de Dimas. De acordo com a hagiografia, São Dimas é considerado o “bom ladrão”. Foi um dos homens crucificados ao lado de Cristo que, arrependido de seus erros em vida, recebeu a promessa de que ainda naquele dia estaria no Paraíso.

O historiador Sérgio Muricy e o antropólogo Luiz Mott com tela de São Tibira do Maranhão
Legenda da foto,A história de Tibira do Maranhão foi resgatada pelo sociólogo e antropólogo Luiz Mott (dir.)

Para o Grupo Gay da Bahia, reside neste fato o principal argumento que permitiria qualificá-lo como santo mártir: assim como o “bom ladrão” foi posteriormente reconhecido como santo, o mesmo deveria ocorrer com o indígena brasileiro.

“Recebeu o batismo com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principais selvagens, depois do que um dos principais, chamado Caruatapirã, lhe disse estas palavras: ‘Tens agora ocasião de estares consolado e de não te afligires, pois presentemente és filho de Deus pelo batismo que recebeste (…) com permissão dos padres. Morres por teus crimes, aprovamos tua morte e eu mesmo quero pôr fogo no canhão para que saibam e vejam os franceses que detestamos as sujeiras que cometeste. Mas repara na bondade de Deus e dos padres para contigo, expelindo Jurupari para longe de ti por meio do batismo, de maneira que apenas tua alma saia do corpo vá direto para o Céu ver Tupã e viver com os Caraíbas que o cercam. Quando Tupã mandar alguém tomar teu corpo, se quiseres ter no Céu os cabelos compridos e o corpo de mulher antes do que o de um homem, pede a Tupã que dê o corpo de mulher e ressuscitará mulher, e lá no Céu ficarás ao lado das mulheres e não dos homens’.”, escreveu o frade. Na mitologia indígena, Jurupari é o próprio mal — seria o equivalente ao demônio do cristianismo.

Na sequência, em seu relato, D’Évreux apressou-se a corrigir essa interpretação feita por Caruatapirã do evangelho cristão. “Desculpareis este pobre selvagem, não cristão e nem catecúmeno, falando da ressurreição. Ele nos ouviu ensinar que em um dia ressuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em que estava para ocupar o seu corpo, acrescentando o que pensou ser indiferente à ressurreição, isto é que, uma alma recebe um corpo de homem ou de uma mulher, no que se enganou”, pontuou.

Tibira foi levado a um canhão instalado na muralha do forte de São Luís. Amarram-no pela cintura à boca da arma. Quando lançaram fogo, “em presença de todos os principais, dos selvagens e dos franceses (…), imediatamente a bala dividiu o corpo em duas porções, caindo uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais foi encontrada”, registrou o frade.

Mott atenta para o fato de que não há notícia no Brasil de nenhum outro condenado que tivesse sido executado assim, na boca de um canhão.

São Tibira

Imagem de São Tibira do Maranhão, conforme capa de livreto publicado por Luiz Mott
Legenda da foto,Mott pretende encaminhar à CNBB um pedido para que a Igreja Católica ‘peça publicamente perdão’ pela execução de Tibira e instaure um processo de canonização

A iniciativa do antropólogo ecoa em outras entidades de defesa dos direitos dos homossexuais. “[A eventual canonização de Tibira] seria muito importante. Quem se doa a uma causa, a uma luta, vira mártir, não importa se é hétero, gay ou lésbica, travesti ou transexual, binário ou não binário”, diz à BBC News Brasil ativista Agripino Magalhães, da ONG Aliança LGBT+. “O que importa é que ele foi morto, deu a vida em prol de um sentido maior.”

“Venho da base da Igreja Católica e graças a Deus sempre fui respeitado lá. Sempre me dediquei a pastorais sociais e a própria Igreja Católica muitas vezes fala que ser santo não tem a ver com sexualidade”, completa Magalhães.

Arcebispo primaz da Santa Igreja Celta do Brasil, o historiador Sérgio Muricy — cujo nome religioso é dom Bernardo da Ressurreição — é o primeiro religioso a reconhecer a santidade de Tibira.

“Fiquei impressionado com a narrativa histórica e a força exemplificadora da homofobia no período colonial no Brasil”, comenta ele, à BBC News Brasil. “O índio Tibira chegou a ser supliciado, o que me chamou a atenção, de forma cruel e sem direito de defesa, sendo assassinado, motivado por sua orientação sexual.”

Como ele mesmo explica, sua denominação religiosa segue a “linha católica”. “Nessas igrejas, em condições especiais, você pode atribuir santidade sem precisar de milagres. Temos dezenas de santos e santas que foram canonizados pelo seu heroísmo em defender a fé apostólica e católica. A Igreja pode proclamar um santo pelo martírio (…) sem precisar da comprovação de milagres. São santos pelo testemunho de defesa da fé”, argumenta ele.

Capa do livro de Yves d'Évreux
Legenda da foto,O religioso francês Yves d’Évreux (1577-1632) relatou o caso em seu livro

“O índio Tibira foi martirizado em uma boca de canhão. Não se tem notícias de nenhum martírio com esta crueldade na história do Brasil. Um martírio sem processo judicial, sem julgamento. Proclamar São Tibira do Maranhão, que foi martirizado pela sua orientação sexual, é fazer esta reparação histórica, criar um símbolo de resistência para a comunidade LGBT+ e proporcional às igrejas cristãs”, acredita Muricy.

“Muitas já estão revendo e corrigindo ou apagando seus preconceitos com os gays. A oportunidade de acolhimento a todos os cristãos independe de sua orientação sexual. Pelo relato que descreve o suplício de São Tibira, ele foi batizado pelos seus algozes antes de morrer. Então ele morreu cristão, reunindo as condições necessárias para sua canonização ou proclamação de santidade.”

O arcebispo diz que no “cristianismo celta, que foi católico e ortodoxo” há a “liberdade de instituir devoções particulares”. “Eu institui minha devoção ao índio Tibira pelo martírio, suplício por sua sexualidade e exemplo para o combate à homofobia”, ressalta. “Pretendo propor à minha igreja que São Tibira seja proclamado e reconhecido como santo mártir, dispensando processo de canonização. Somos uma igreja inclusiva, acolhemos todo ser humano, independente da orientação sexual.”

“Realizamos casamentos homoafetivos e ordenamos mulheres para todos os graus da ordem sacerdotal. Se temos santos protetores de praticamente todas as profissões e situações, por que não podemos ter um santo que proteja a comunidade LGBT+, historicamente perseguida até os dias atuais na maior parte dos países? Negar a possibilidade de colocar no altar São Tibira do Maranhão é homofobia estrutural”, defende.

Em abril, ele solicitou ao artista plástico Miguel Galindo que produzisse uma imagem sacra de Tibira. Segundo Muricy, trata-se de um artista com experiência em produzir quadros que retratam santos. “Conversei com ele sobre as características de São Tibira e não foi surpresa para mim o resultado, pois já sabia da capacidade artística dele. Ficou bom e expressivo”, comenta.

“Ele me mandou a história do santo e eu fiz minha criação em óleo sobre tela”, conta à reportagem Galindo. Muricy adquiriu a tela original. Mott encomendou também uma reprodução. “Trata-se da primeira tela devocional de São Tibira do Maranhão”, define Muricy.

Canonização

O arcebispo da Igreja Celta acredita que solicitar ao Vaticano que analise a canonização de Tibira é “uma positiva provocação para ajudar na sensibilização de acolhimento” da comunidade LGBT. Para ele, a Igreja Católica “precisa evoluir no processo de respeito a todos os seres humanos, independentemente da orientação sexual”.

Procurado pela BBC News Brasil, o arcebispo de Natal, dom Jaime Vieira Rocha, presidente da Comissão Especial para a Causa dos Santos da CNBB, afirma que não há “nenhum conhecimento oficial sobre processos” referentes a Tibira do Maranhão.

Ele explica que a Igreja costuma ouvir “o pedido de fiéis leigos” em relação à canonização de santos. Um exemplo recente é o caso do papa João Paulo 2º (1920-2005), canonizado em 2014. “Logo após sua morte o povo aclamava: ‘santo subito'”, recorda.

Rocha explica que costumam ser várias as etapas para que alguém seja reconhecido como santo. “O caminho para a canonização passa por etapas. Normalmente, se torna um ‘servo de Deus’ com a abertura do procedimento. Se ele apresentar as virtudes heroicas necessárias, é proclamado ‘venerável’, sem dias festivos ou igrejas em sua homenagem, mas pode ter rezas e materiais impressos em seu nome. Caso se prove um milagre por sua graça, pode ser beatificado, então ser venerado pela diocese local. A canonização acontece com a comprovação de um segundo milagre”, explica.

“Ao se tornar santo, é inserido no calendário universal da Igreja e pode ser venerado em todo o mundo”, ressalta o religioso. Atualmente existem em andamento 52 processos de beatificação de figuras brasileiras — que já tramitam no Vaticano. Em âmbito local, há ainda 16 veneráveis e 68 servos de Deus.

O arcebispo de Natal lembra ainda que há uma possibilidade de alguém ser declarado santo sem precisar passar por todo esse processo de comprovação de milagres. É a chamada canonização equipolente.

“O papa pode elevar um candidato à dignidade de santo sem a necessidade de comprovação de milagres, desde que três requisitos sejam cumpridos: a prova da antiguidade e constrância do culto ou devoção popular ao candidato a santo, o fato histórico de sua fé católica e de suas virtudes, e a fama de milagres por ele intermediados”, frisa.

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ESCRAVOS DA RELIGIÃO NO BRASIL


Como viviam as pessoas escravizadas pela Igreja no Brasil

  • Edison Veiga
  • De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

14 maio 2021

As grandes instituições religiosas do Brasil colonial e imperial tiveram negros escravizados — e muitos. Pesquisas recentes apontam para um número de escravos muito acima da média do que havia nas grandes propriedades rurais, práticas de incentivo à procriação para aumentar a quantidade de mão de obra e até mesmo uma tabela de preços para quem quisesse comprar a alforria — com critérios específicos para precificar cada ser humano.

Os escravizados mantidos por mosteiros e conventos também eram obrigados a professar a fé católica, participando de missas, momentos de orações e recebendo os sacramentos.

Os que se rebelavam quanto à conversão costumavam ser punidos com castigos “de forma exemplar” ou seja, com intensidade suficiente para convencer os demais a não repetir gestos de desobediência.

De quebra, a luta pela aquisição de liberdade — ou seja, a compra de uma carta de alforria — costumava ser mais difícil para um escravo de ordem religiosa do que para alguém que estivesse sob o jugo de um senhor leigo.

Por outro lado, a libertação dos escravizados por mosteiros e conventos ocorreu 17 anos antes da assinatura da Lei Áurea, em 1871

“Escravos da religião”

Autor do recém-lançado livro Escravos da Religião (Ed. Appris), pesquisador na Universidade Federal Fluminense (UFF) e idealizador do podcast Atlântico Negro, o historiador Vitor Hugo Monteiro Franco revira arquivos da Ordem de São Bento desde 2014.

O material foi tema de sua iniciação científica, de sua monografia de conclusão de curso, de seu mestrado e, agora, está sendo esmiuçado em seu doutorado.

“Uma das principais descobertas foi o próprio termo ‘escravos da religião'”, conta ele.

“Não foi um termo que eu criei. É o termo na época que encontrei em livro de batismos. Foi um choque para mim.”

Na ocasião, ele estava analisando os registros dos nascidos no século 19 em propriedade rural mantida pelos beneditinos na Baixada Fluminense, a Fazenda São Bento de Iguassú.

“Na hora de qualificar os pais, o monge não os qualificava como ‘escravos da Ordem de São Bento’, mas sim como ‘escravos da religião’.”

Para o pesquisador, residia aí uma diferença fundamental entre o modo de vida dos escravos mantidos por instituições religiosas: o fato de o senhor não ser uma pessoa, mas sim uma entidade.

“Parece simples, mas não é. A situação geral da escravidão no Brasil é de escravos privados, de senhores leigos. No caso dos ‘da religião’, eles não pertenciam a um monge específico, eram de propriedade coletiva. E isso teve repercussões na vida dessas pessoas para sempre, porque influenciava na forma, no dia a dia deles”, diz o historiador.

Franco ressalta que o cotidiano desses negros escravizados estava “regulado” pelos hábitos religiosos do catolicismo e da vida monástica.

“Por mais que a sede dos religiosos estivesse no centro do Rio e a fazenda na Baixada Fluminense, sempre havia um monge cuidando de lá. Era o chamado padre fazendeiro”, contextualiza.

“Ele fazia o trabalho espiritual: batizava as pessoas, casava-as, sepultava-as. Os beneditinos eram um tipo de senhor que conhece muito bem sua escravaria, anotando tudo em muitos detalhes.”

“Os monges conheciam cada momento, cada fase da vida dos seus escravizados. Por mais que as propriedades fossem enormes, eles tinham o controle administrativo sobre aquelas pessoas, ao contrário dos senhores leigos, que muitas vezes tinham um contato muito pequeno com os escravizados”, compara.

“Isso dava (aos religiosos) um poder muito grande. Ser ‘escravo da religião’ significava ter sua vida controlada por uma instituição religiosa”, acrescentou Monteiro Franco.

Escravos participam da festa de Santa Rosália. “Fête de Ste. Rosalie, Patrone des nègres”. Gravura contida na obra “Voyage pittoresque dans le Bresil”, de Johann Moritz Rugendas e M. de Golbery, 1835.
Legenda da foto,Em 1871, somente os beneditinos tinham um total de 4 mil escravizados

E não era um rebanho pequeno para ser controlado. De acordo com as pesquisas de Franco, quando os religiosos emanciparam seus escravos, em 1871, somente os beneditinos tinham um total de 4 mil escravizados.

“Eram três as principais ordens religiosas escravistas do Brasil: os jesuítas, os beneditinos e os carmelitas. Em menor escala, os franciscanos também”, elenca.

A primazia da Companhia de Jesus foi até o século 18. Em 1759, contudo, os jesuítas foram expulsos do Brasil.

E aí os beneditinos assumiram essa posição. Durante o século 19, período analisado pela pesquisa de Franco, a Fazenda de Iguassú costumava ter um número constante de cerca de 130 escravos.

“Destoava muito das outras fazendas da região, em que havia em média 10 escravos por senhor”, afirma o pesquisador.

Mas essa propriedade não era a maior das beneditinas. Em Jacarepaguá, a fazenda dos religiosos tinha mais de 300 escravos. Em Campos dos Goitacazes, 700.

“E essas são só as três maiores propriedades dos monges de São Bento”, diz Franco. “É muita gente. Era a principal ordem escravista do Brasil. Eu nem considero a Ordem de São Bento uma grande proprietária [de escravos]. Era uma megaproprietária, estava acima dos grandes proprietários, era a elite da elite.”

Incentivo à gravidez

Uma maneira de garantir a abundância de mão de obra escrava era o incentivo que os monges davam para que as escravizadas tivessem muitos filhos.

“As mulheres que procriavam pelo menos seis filhos conseguiam privilégios, tais como não realizarem trabalhos ‘penosos'”, conta o historiador Robson Pedrosa Costa, autor do livro Os Escravos do Santo (Editora UFPE) e professor no Instituto Federal de Pernambuco e na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A partir de 1866, os benefícios às mães de pelo menos seis filhos passaram a ser a liberdade gratuita — desde que elas “estivessem devidamente casadas”, pontua o historiador.

Mapa que situa a propriedade dos beneditinos na Baixada Fluminense
Legenda da foto,Mapa que situa a propriedade dos beneditinos na Baixada Fluminense

Para os monges senhores de escravos, religião era uma coisa, negócios eram outra. Pelo menos é o que fica claro em outro achado do historiador Monteiro Franco: nos registros de batismo, a maior parte das crianças era registrada como sendo filho de mãe solteira.

Havia uma razão econômica para isso. “Até pouco tempo atrás se acreditava que as ordens religiosas de maneira geral incentivavam o casamento por causa do valor cristão do matrimônio e também para um fator de incentivo da reprodução da comunidade escrava, do ponto de vista senhorial”, pontua o pesquisador. “Mas o que encontrei foi a maior parte das mulheres como mães solteiras.”

Segundo ele, isso não significa que essas mulheres não tivessem relacionamento estável ou que vivessem na promiscuidade.

A questão chave estava na propriedade da criança que nasceria dessa gravidez. Em caso de mãe e pai sacramentalmente unidos, poderia haver alguma discussão se o filho pertenceria ao senhor da mãe ou do pai.

Então, os beneditinos preferiam não oficializar relações estáveis quando as mulheres de sua fazenda tinham homens de fazendas vizinhas.

Quando ambos eram da mesma propriedade, aí sim, o sacramento do matrimônio era concedido.

Tais condutas fizeram com que os beneditinos conseguissem manter um grande número de escravos no século 19, mesmo com a dificuldade, para os latifundiários escravocratas, decorrentes da Lei Eusébio de Queirós — que, a partir de 1850, proibiu o tráfico negreiro.

“Estas instituições [religiosas] construíram, ao longo dos séculos, grandes corporações, muito semelhantes a grandes empresas pautadas em um complexo sistema organizacional”, afirma Costa.

“No caso dos beneditinos, foi possível entender que a instituição foi capaz de construir um sistema de gestão eficiente e duradouro, que garantiu o fornecimento de escravos para as suas propriedades sem recorrerem ao tráfico.”

“Claro que eles compraram escravos no século 19, mas foram poucos”, completa o professor.

A estratégia consistia em incentivar a procriação e a tentativa de manutenção das famílias. “Eles evitavam ao máximo vender seus escravizados, principalmente a separação de famílias, uma instituição sagrada para os monges. Apenas os cativos considerados ‘incorrigíveis’ deveriam ser vendidos. Mas eles foram poucos. As famílias escravizadas eram extensas e duradouras. Isso garantia a perpetuação do quantitativo de escravos”, explica Costa.

Alforrias

Prática relativamente comum entre escravizados no Brasil, a compra da liberdade era mais difícil para um “escravo da religião”. Enquanto no caso daquele que servia a um senhor leigo bastava convencê-lo — com acordos e, muitas vezes, um valor em dinheiro — no caso dos monges era preciso passar por um processo formal.

Capa de 'Escravos da Religião', livro de Vitor Hugo Monteiro Franco
Legenda da foto,O historiador Vitor Hugo Monteiro Franco revira arquivos da Ordem de São Bento desde 2014 – foi assim que encontrou o termo “escravos da religião”

Aquele que pleiteava a alforria precisava fazer uma petição aos religiosos. Não havia negociação direta. “Estamos falando de uma propriedade institucional”, lembra o historiador Franco. “Não era simples. Os monges liam a petição e colocavam para votação, usando favas pretas para marcar as negativas e favas brancas para sinalizar positivo.”

A partir da década de 1850, a Ordem de São Bento criou uma tabela de preços para casos de alforria. Pelo documento, o preço dos escravizados variava conforme saúde, idade e sexo.

“O valor ia aumentando de acordo com a idade até a fase mais produtiva. A partir da adolescência, eles passam a entender que um homem pleno de saúde vale mais do que uma mulher”, explica Franco.

“Esse documento mostra com todas as letras qual a posição de um senhor de escravos: transformar as pessoas em commodities”, define ele.

Violência e trabalho

Embora haja uma corrente que acredite que a escravidão impetrada por religiosos fosse mais branda do que a conduzida por senhores leigos, pelos valores cristãos supostamente respeitados, Franco não compactua com essa ideia. Primeiramente porque é enfático ao dizer que a privação da liberdade a que um escravo está sujeito já é, por si só, uma grande violência.

Além disso, ele encontrou registros que atestam atos de crueldade. “Tem um caso, em um fazenda de Cabo Frio, também dos beneditinos, em que dois monges foram presos depois de matarem, de tanto espancar, um escravizado. Isso no século 18”, conta ele. “Olha o nível da violência.”

Ele também se deparou com relatos de fugas em que o escravo, uma vez capturado, era submetido a um “castigo exemplar”. O mesmo acontecia para quem não demonstrasse seguir a fé católica.

“Há um registro de uma visitação realizada por um monge (encarregado de vistoriar os trabalhos do padre fazendeiro), que dizia que era bom que o mesmo não descuidasse do espiritual dos escravos, para ver se eles estavam seguindo os preceitos do cristianismo”, aponta Franco.

“E, verificando que não estivessem seguindo, que fossem punidos exemplarmente. Se não se redimissem, que fossem vendidos.”

Mas em que trabalhavam os “escravos da religião”?

Boa parte deles fazia um trabalho semelhante a qualquer outro escravo de propriedades rurais. As instituições religiosas tinham muitas terras e nelas cultivavam cana de açúcar e outros insumos valiosos para a economia da época. Quem fazia esse trabalho era a mão de obra escrava.

No caso dos religiosos, contudo, havia também muitos escravos com trabalhos especializados. Carpinteiros, ferreiros, oleiros, sapateiros, boticários, enfermeiros. “Além daqueles que serviam os monges no claustro: botavam a comida na mesa, tocavam o sino da capela, seguravam o livro na hora da missa, e por aí vai”, diz o historiador Franco.

Nesse sentido, a Ordem de São Bento investiu em capacitação. Como eles tinham grandes propriedades com necessidades específicas, passaram a treinar os escravos que pareciam mais aptos a trabalhos específicos. “Para eles, era melhor fazer isso do que pagar um sujeito livre para desempenhar esses papéis”, afirma.

Esses que tinham ofícios especializados não eram inimputáveis a sofrerem castigos. “Encontrei um registro de um monge que se dedicava a ensinar ferraria a escravos. E ele era tão violento que acabou sendo deslocado de posição”, exemplifica Franco.

Desempenhar essas funções especiais, por outro lado, conferia prestígio dentro da comunidade escrava. E muitos desses profissionais acabavam conseguindo fazer trabalhos “por fora” e, assim, juntar dinheiro para, no futuro, comprar a alforria.

Abolição prematura

As ordens religiosas libertaram seus escravos ao longo de 1871, ou seja, 17 anos antes da Lei Áurea. A primeira instituição a fazer isso foi a Ordem de São Bento. Aos poucos, os beneditinos foram seguidos pelos demais religiosos.

Segundo os pesquisadores, esse movimento era resultado de um embate da Igreja Católica com o Estado.

“Havia uma relação de tensão entre Estado e as ordens religiosas”, pontua Franco. “Estava ocorrendo um embate político em que cada vez mais a classe política e outros setores da elite brasileira acreditavam que os religiosos tinham propriedades demais, escravizados demais e eram improdutivos. Por outro lado, o Estado via a chance de se apropriar das propriedades dos religiosos.”

Ao libertar os escravos na mesma época da promulgação da Lei do Ventre Livre, as instituições católicas geraram uma comoção nacional.

“A abolição não significa simplesmente a questão humanitária por trás da liberdade do indivíduo, mas também uma questão de ordem econômica sobre aqueles que você teria de estar empregando”, afirma o historiador Philippe Arthur dos Reis, pesquisador na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“O custo de manutenção desses indivíduos, em geral era muito mais dispendioso ter os escravos do que importar pessoas de fora e pagar salário”, acrescenta.

O historiador Costa lembra que desde a Independência, em 1822, “várias vozes começaram a sugerir que as ordens religiosas eram instituições inúteis e péssimas administradoras de seus bens”.

“Quando os debates sobre a abolição se acirraram a partir de 1865, novamente as ordens, consideradas grandes escravistas, foram colocadas na berlinda. Uma lei de 1869 instituiu que as instituições religiosas deveriam libertar todos os seus escravos em um prazo de 10 anos. Até lá, poderiam libertá-los ou criar contratos de prestação de serviço por tempo determinado”, detalha o historiador.

“Prevendo uma maior intervenção do Estado e do Parlamento, a Ordem de São Bento do Brasil já havia se antecipado, decretando a liberdade de todo as crianças nascidas a partir do dia 3 de maio de 1866”, diz ele.

Essa medida teve impacto nas autoridades. O imperador Dom Pedro Segundo (1825-1891) presenteou o então abade geral com uma caixa de ouro cravejada de diamantes. Já o deputado Tavares Bastos (1839-1875), voz abolicionista, declarou que o gesto era “um ato generoso e solene” — e que deveria ser seguido pelas demais instituições religiosas.

Em 1871 veio a libertação total dos “escravos da religião”.