Da Época


ENTREVISTAS DA SEMANA – POLÍTICA
Um terceiro mandato para Lula?
Em entrevista, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), velho amigo de Lula, afirma que pretende apresentar uma proposta de emenda que daria direito ao presidente lançar um plebiscito. A intenção é consultar a população sobre a possibilidade de uma nova reeleição.(clique aqui)

Podem consultar: É LULA DE NOVO E COM A FORÇA DO POVO!


Opinião

* por Luís Carlos Lins

Querer mais poder, e ainda por cima, apoiado pela opinião pública não seria democrático?
Quem legitimaria um governo se ele fosse anti-popular?
Não estou defendendo a pretensão do terceiro mandato, mas consideremos as seguintes questões:

  1. Qual governo ampliou consideravelmente programas sociais tidos como assistencialistas, mas que pouca gente ousou implementar com tanto alcance e que vem aquecendo economias de pequenos municípios pelo Brasil afora?
  2. Quanto ao crédito. Qual o governo que mais tornou-o acessível aos trabalhadores nos últimos anos?
  3. No último decênio, qual governo fez crescer tanto a massa salarial daqueles que estão no andar de baixo?
  4. Quem conseguiu deslocar tantos da faixa da extrema pobreza para uma vida mais digna?
  5. Qual gestão vendeu melhor o País no exterior?
  6. Quem expandiu mais o alcance das universidades federais no Brasil, e ainda por cima, pelo interior?
  7. Desde quando a Polícia Federal prendia tanto picareta de colarinho branco? O povão sonhava com isso!
  8. Quando se viu um Presidente da República entrar em pala fita, favela e prometer que iria mudar aquela realidade e cumprir!? Brasília Teimosa é testemunha!
  9. Quanto a desigualdade regional o que se vê é o Norte e o Nordeste com elevada auto-estima. Ambas as regiões vivem seu melhor momento histórico!
  10. E ainda tem mais! Quem privatiza melhor? Lula ou Fernando Henrique?
  11. Quantos Presidentes conseguem contentar ricos e pobres ao mesmo tempo? Quanto a classe média, ela não elege, não forma mais tanta opinião e não tem força política para golpes de Estado.
  12. De quebra realizamos um PanAmericano(com vaias e tudo!) e emplacamos uma copa para 2014.
  13. Getúlio não aguentou e suicidou-se. E agora respondam, existiu um Presidente “na história deste País” mais hábil politicamente do que o atual!? Nem o Quarto Poder pôde com ele, e por isso, convive.

O Presidente Lula não é o melhor dos sonhos e o Brasil continua uma Belíndia. Mas sua força não está basicamente nele e sim, nos seus adversários que são medíocres e não gozam de confiança junto ao eleitorado brasileiro.

Enquanto o povo não enxergar nada melhor no horizonte, podem consultar que vão dizer: É LULA DE NOVO E COM A FORÇA DO POVO!

*Luís Carlos Lins é militante do MTC e membro da executiva do Fórum Pela Ética na Política

Quando falam em Liberdade de Imprensa, pensam em Liberdade de Empresa


O país que vendeu seu nome à TV
por Renato Janine Ribeiro(filósofo)

Adolescentes, que gostam de olhar o mapa do mundo ou de navegar na rede, talvez já tenham visto Tuvalu, um arquipélago da Oceania. Pois este país vendeu sua terminação na Internet (que é .tv) para uma companhia da Califórnia. Valor: 300 mil dólares. É claro que, se a desinência fosse .tu ou .tl, duas possibilidades bem razoáveis, não valeria grande coisa. (Outro micro-país, Nauru, vendeu algumas terminações para agências de notícias. Em inglês, nu se pronuncia como new, novidade – o que é menos interessante, claro, do que seu significado em português. Mas já rende um dinheirinho).

O pequeno país, que só tem dez mil habitantes, agora pode pagar a filiação às Nações Unidas. Para Tuvalu é essencial participar dos foros internacionais, porque está tão perto do nível do mar que o efeito-estufa poderá acabar com sua existência física nas próximas décadas.

O episódio é significativo. Um país está a ponto de sumir do mapa. Para sobreviver, vende seu domínio na Internet. Sorte sua, que tenha esse trunfo. Mas o que isso nos ensina sobre as relações entre poder e TV? Um Estado nacional, embora mínimo, vale menos que um endereço na Internet. Mais um sacrifício do Estado nacional à mídia!

Faz tempo, estive em São Marinho, pequena república incrustada na Itália. Li quais eram as principais receitas do micro-país (há uma associação européia dos micro-países, incluindo Andorra, Mônaco, Liechtenstein e talvez o Vaticano). A primeira era o turismo. Mas duas outras eram curiosas. Uma era a venda de selos para filatelistas. E a terceira era um pagamento que a Itália fazia à República para que esta não tivesse televisão – a fim de evitar a concorrência desleal de uma TV em italiano fora do controle italiano.

Quem freqüenta bancas de jornal, aqui, já viu selos bonitos à venda. Uns deles são de Manama, uma cidade de Bahrein, no Golfo Pérsico. É uma filial de país emitindo selos. Vi alguns de quadros impressionistas, com mulheres nuas. Jogada genial, porque atrai tanto pela nudez feminina, quanto pelas artes plásticas. Mas é óbvio que num país muçulmano, em que muitas mulheres usam véu, esses selos não circulam. São emitidos só para exportação. (Por isso as federações de filatelistas negam que sejam selos: não passam de figurinhas coloridas). O exemplo mostra que a soberania, simulada, pode servir para alguns trocados.

São Marinho vivia de não ter TV. Tuvalu sobrevive de não ser, mais, TV. A televisão não aceita concorrência. Nem de países! Fiquei chocado, no começo da década de 90, quando li o seguinte conto: no futuro, as seleções que disputariam a Copa do Mundo e as Olimpíadas seriam de empresas, e não de países. Mas essa previsão já se realizou, com a Nike comprando a seleção brasileira de futebol – e engolimos isso.

O que resta aos micro-Estados é apenas o manejo de símbolos nacionais esvaziados: emitir selos que não circularão, ter um domínio na Internet que não usarão, poder ter uma TV que não existirá. Os símbolos nacionais só rendem ao serem vendidos.

Por que falei disso? Gabriel Priolli e eu discutimos, nas últimas semanas, como controlar a TV. Concordamos que o Estado não é bom para isso. Desconfiamos de um governo que tutele nossas escolhas. Mas o poder de Estado, pelo menos, é eleito. Já as TVs, quando falam em liberdade de imprensa, na verdade pensam em liberdade de empresa. E a força desta prevalece sobre o próprio poder eleito. Como poderemos nós, cidadãos, limitar o poder da telinha? Eis a questão. Mas para ela ainda não há resposta.

Opinião


Lula e o movimento social

ImageCesar Sanson*
Clique aqui para ouvir(4’49” / 1,10 Mb)

Lula, egresso das lutas sociais deu as costas para o movimento social. A Reforma Agrária, depositária de toda uma simbologia histórica da luta social brasileira encontra-se travada. Os últimos conflitos no campo revelam a distância e a indiferença do governo para com o movimento social. A marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul e o caso Syngenta no Paraná, para ficar em dois exemplos, demonstram a desfaçatez para com essa agenda social histórica. Hoje, Lula está muito mais acercado e submetido à agenda dos ruralistas do que a agenda MST.

1,7 mil trabalhadores rurais marcham no sul desde o dia 12 de setembro. O objetivo é a desapropriação da fazenda Coqueiros. O projeto de desapropriação se encontra na mesa do presidente, porém não mereceu até o momento nenhuma palavra de Lula. No Paraná, a associação do capital transnacional Syngenta com o latifúndio, fez mais uma vítima, o trabalhador rural Valmir Mota. Tampouco, o governo se manifestou. A face violenta e truculenta do latifúndio não mereceu uma palavra do governo. Lula calou-se.

A auto-confiança dos ruralistas é tanta que passaram a defender abertamente no Congresso, a tese de relaxamento da legislação sobre trabalho escravo. Até mesmo um aliado histórico do governo Lula, o movimento sindical sofre revés. O governo voltou a pautar o tema da Reforma Previdenciária e da Lei de Greve dos Servidores Federais. Uma possível reforma dessas legislações significará mais perda para os trabalhadores.

Enquanto o movimento social é tratado com indiferença e até mesmo certo desprezo pelo governo Lula, o capital está satisfeito. O investidor Armíno Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), afirma de forma entusiasmada que o Brasil está passando por uma “revolução capitalista”. O capital multinacional pensa da mesma forma. Emílio Botin, presidente mundial do banco Santander disse que “o Brasil é um país fantástico, com bancos fantásticos, empresários fantásticos” e arrematou, “o mundo ainda não descobriu o Brasil”.

Na recente reunião com os empresários, Lula colheu elogios. Um dos presentes ao encontro no Palácio do Planalto conta que os depoimentos dos empresários sobre a economia no governo Lula foram tão enfaticamente positivos que mais pareciam “testemunhos” dados num templo.

O fato incontestável é que os bancos nunca ganharam tanto. Apenas no governo Lula o lucro líquido semestral dos cinco grandes bancos brasileiros cresceu 132,5%. O mesmo vale para as empresas que viram a sua remessa de lucros para as matrizes triplicarem nos últimos anos.

A ‘revolução capitalista’ brasileira é obra de um presidente operário e não de um burguês, como Fernando Henrique Cardoso, tampouco de um oligarca como Sarney, de um conservador mineiro como Tancredo ou de um chefe militar tipo Geisel.

Surpreendentemente quem faz a ‘revolução capitalista’ no Brasil é um governo eleito pelos movimentos sociais. E ainda mais irônico, o governo que faz a alegria dos mais ricos, também é adorado pelos mais pobres. E mais ainda. O governo conseguiu neutralizar o movimento social, em parte cooptou-o e deixou-o a deriva.

(*) Pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutorando de Ciencias Sociais na UFPR. Esta análise foi feita em um trabalho conjunto com a equipe do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).