O MEMORIAL DA MEDICINA EM PERNAMBUCO


O TEMPLO DA PERNAMBUCANIDADE MÉDICA

Gilson Edmar Gonçalves e Silva*, Raul Manhães de Castro** e Maria de Fátima Militão***

O atual Memorial da Medicina é considerado o templo da história da Medicina pernambucana. Foi concebido e edificado para ser a sede da primeira Faculdade de Medicina em nosso Estado, criada poucos anos antes por Dr. Otávio de Freitas (1871- 1949). O projeto foi de autoria do arquiteto italiano Giacomo Palumbo. O término da obra se deu em 27 de março de 1927, sua inauguração data de 21 de abril do mesmo ano. Na época, seus espaços foram adequados a uma escola médica. Sua função histórica e sua bela arquitetura do início do século XX, motivou seu tombamento como um patrimônio pernambucano. A edificação é um dos raros exemplares significativos da arquitetura neocolonial na cidade do Recife. A construção possui um pátio interno, similar aos claustros dos conventos e mosteiros, apresenta galerias circundantes no térreo e no primeiro pavimento. Os seus salões espaçosos circundam o edifício e tem amplas janelas para o exterior. No grande saguão, destaca-se uma magnífica escadaria. Na retaguarda do Memorial, também tombado, por ser um exemplo de um estilo arquitetural modernista, localiza-se outra edificação de menor porte, a qual abrigou o Serviço de Verificação de Óbitos e, onde hoje funciona a sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil-PE.

Após a passagem da Faculdade de Medicina para a Cidade Universitária, o prédio foi cedido ao Exército que instalou nele o Colégio Militar. A obstinação do Dr. Fernando Figueira (1919-2003) acarretou a devolução da edificação histórica pelo o Exército à UFPE, tendo o referido professor instalado no local a Academia Pernambucana de Medicina, por ele criada e atualmente presidida pelo Prof. Dr. Hildo Cirne de Azevedo Filho, um dos grandes neurocirurgiões brasileiros com projeção mundial. Em seguida, outras entidades médicas também foram ocupando seus espaços, para que o prédio viesse a cumprir seu papel histórico de berço da medicina pernambucana. Além da Academia Pernambucana de Medicina, com papel destacado de propagar o saber médico, tem considerável relevância no Memorial o Museu da Medicina, a Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores, a Sociedade de Pesquisa e Estudos da Terceira Idade, o Instituto Pernambucano de História da Medicina, a Sociedade dos ex-alunos da Faculdade de Medicina e a Academia de Artes e Letras de Pernambuco. Durante algum tempo, boa parte das dependências foi cedida à COVEST, que se encontra em fase de transferência para outro local.

Na gestão do Dr. Luiz Barreto na Coordenação do Memorial da Medicina, aquele espaço cultural ganhou vida, com numerosas reuniões científicas e com a ampliação do Museu, criação do Dr. Leduar de Assis Rocha e consolidado por Dr. José Falcão, Presidente do Instituto da História da Medicina. As primeiras imagens que se destacam quando se visita uma cidade, são os seus prédios ou as construções que de alguma forma representem ou trazem em suas características pistas sobre a história da localidade visitada e de seus habitantes. O Memorial, esse patrimônio histórico arquitetônico, representa parte substantiva da história da cidade do Recife, do estado de Pernambuco e do Brasil. Assim, há no prédio um enorme e extraordinário acervo museológico, com cerca de 5000 peças e é frequentemente visitado por seus admiradores, provenientes de todo País. Outrossim, vale a pena informar que um valioso acervo ainda se encontra no Centro de Ciências da Saúde (CCS), que sucedeu à Faculdade de Medicina, após a reforma universitária. Sob a Direção do Dr. Gilson Edmar Gonçalves no CCS, houve uma rigorosa triagem de documentos e peças que contribuiram para completar a nossa história médica. Por conseguinte, esse material deve voltar à sua origem, o Memorial da Medicina. Entre eles está o bureau do primeiro Diretor da Faculdade de Medicina do Recife, o Prof. Dr. Otávio de Freitas.

O Memorial da Medicina, uma instituição da Universidade Federal de Pernambuco, há alguns anos, passou para sua tutela da Pró-Reitoria de Extensão. Desde o reitorado anterior houve início a reuniões, com o objetivo de regularizar o funcionamento das entidades lá abrigadas. Neste reitorado as reuniões foram bem produtivas, numa tentativa de conciliar os interesses e respeitando as determinações legais. Contudo, não havíamos ainda chegado a um acordo final, quando fomos surpreendidos por um ofício do Pró-Reitor de Extensão nos cobrando um aluguel pelas áreas, acompanhado da ameaça de despejo, caso não fosse pago num prazo estipulado. Evidentemente, ambos o aluguel e a ameaça de despejo foram decisões unilaterais, em desacordo total com as reuniões anteriores, cujas decisões se faziam sempre de modo consensual. É muito relevante esclarecer que o pagamento pelo espaço ocupado não necessariamente deva ser apenas como aluguel, pois as Instituições que ocupam o Memorial não têm características comerciais. São Associações Acadêmicas, que podem retribuir com atividades científicas de ensino e pesquisa, direcionadas para a Faculdade de Medicina da UFPE, atendendo, assim, às exigências legais. Poderíamos, como exemplo, oferecer atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão sobre a história da Medicina pernambucana e brasileira. O Museu da Medicina já é campo de prática do Curso de Museologia da nossa UFPE. Assim, vem sendo exercido também o papel transdisciplinar, em consonância com a missão da Universidade. Nas várias reuniões ocorridas, pleiteamos que a Reitoria da UFPE promovesse uma reforma restauradora no prédio, além de adaptá-lo para ser local de eventos científicos de pequeno e médio porte. Estas medidas poderiam atrair recursos para manutenção e investimentos, atendendo às necessidades financeiras solicitadas. Ainda não obtivemos resposta até o momento. O Memorial da Medicina poderia, deste modo, e doravante, melhor cumprir seu papel de guardião da história da medicina pernambucana, cuja nobre missão os Médicos, as Entidades Médicas e a Sociedade não deixarão que seja interrompida, nem profanada.

A história consagra a importância dos médicos pernambucanos no País. Pernambuco foi, é, e continuará a ser uma fonte muito importante de ilustres médicos, a começar pelo Barão de Goiana, Dr. Jose Correia Picanço (1745-1823). Este é o verdadeiro fundador das escolas médicas no Brasil. Este pernambucano, nascido na vila de Goiana, formou-se doutor em Medicina na Universidade de Paris, tornando-se lente da Universidade de Coimbra. É importante citar aqui novamente o Dr. Jose Otavio de Freitas, foi o fundador da nossa centenária Faculdade de Medicina. Ele que também criou o “Jornal de Medicina de Pernambuco”, em 1925, o Instituto Pernambucano de História da Medicina, em 1926; construiu o Dispensário de Tuberculose, inaugurando-o em 1937; presidiu a Liga de Higiene Mental de Pernambuco (1946-1947); e foi um dos fundadores da Sociedade de Higiene de Pernambuco, em 1947. Todos sabem por exemplo o papel fundamental no Brasil de médicos pernambucanos como Nelson Chaves, Josué de Castro, Naide Teodósio, Bertoldo Kruse, Malaquias Batista no que concerne a problemática da fome no Brasil e no mundo. Há também outros eminentes médicos que fizeram história em Pernambuco, constituintes de uma lista infindável que por óbvias razões não enumeraremos aqui. Assim, a preservação de monumentos histórico-culturais da medicina no Estado significa a manutenção da própria memória sociocultural do nosso estado e do Brasil.

A sociedade pernambucana, entre ela nós médicos de Pernambuco, estaremos todos juntos e vigilantes na luta pela preservação deste patrimônio, berço da nossa respeitada Medicina, reconhecida no Brasil e no Exterior. O Memorial da Medicina é templo sagrado de todos os Médicos de Pernambuco. Sim! O Memorial da Medicina é o templo da pernambucanidade médica!

*Gilson Edmar Gonçalves e Silva, médico, Prof. da UFPE, membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

**Raul Manhães de Castro, médico, Professor da UFPE e membro da Academia Pernambucana de Ciências.

***Maria de Fátima Militão, médica, Profa. da UFPE, membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

Informe APC/SBPC-PE 05

ANO 01 – NÚMERO 05 – SETEMBRO A DEZEMBRO DE 2021

ISSN 2764-0310

EDITORES

José Antônio Aleixo da Silva, Professor Titular da DCFL/UFRPE

Alex Sandro Gomes, Professor Associado do CIN/UFPE

EDGAR MORIN | PENSADOR DA EDUCAÇÃO


Organização do Trabalho Pedagógico – Pensadores da Educação – Edgar Morin

imagem do educador

1921 – …

“A escola, em sua singularidade, contém em si

a presença da sociedade como um todo.”

No lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, Edgar Morin propõe o conceito de complexidade. Ela é a ideia-chave de O Método, a obra principal do sociólogo, que se compõe de seis volumes, publicados a partir de 1977. O pensamento complexo, segundo Morin, tem como fundamento formulações surgidas no campo das ciências exatas e naturais, como as teorias da informação e dos sistemas e a cibernética, que evidenciaram a necessidade de superar as fronteiras entre as disciplinas.

Em sua defesa da religação dos saberes, Morin tocou numa inquietação disseminada nos dias atuais, quando a tecnologia permite um acesso inédito às informações. Por isso, em 1999 a ONU – Organização das Nações Unidas – solicitou para que ele sistematizasse um conjunto de reflexões que servissem como ponto de partida para se repensar a educação do próximo milênio. Assim nasceu o texto Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro.

A lista proposta por Morin começa com o estudo do próprio conhecimento. O segundo ponto é a pertinência dos conteúdos, para que levem a “apreender problemas globais e fundamentais”. Em seguida, vem o estudo da condição humana, entendida como unidade complexa da natureza dos indivíduos. Ensinar a identidade terrena é o quarto ponto e refere-se a abordar as relações humanas de um ponto de vista global. O tópico seguinte é enfrentar as incertezas com base nos aportes recentes das ciências. O aprendizado da compreensão, sexto item, pede uma reforma de mentalidades para superar males como o racismo. Finalmente, uma ética global, baseada na consciência do ser humano como indivíduo e parte da sociedade e da espécie.

Texto do Prof. Dr. Raul Manhães de Castro

2022: ENTRE A FICÇÃO CIENTÍFICA E A FOME


 terça-feira, 11 janeiro 2022

Apesar do poder de transformação da ciência, ela ainda se põe incrivelmente a serviço dos detentores do capital

O enredo do filme “Não olhe para cima” tem total aderência com o momento atual que vivemos. Então vejamos: ao invés de negar o fim iminente da espécie humana por um meteoro que se aproxima, estamos a discutir e buscar por vida fora do planeta enquanto se encerram as nossas possibilidades por aqui.

Embora a ciência tenha todo o poder para lutar contra esta tendência de aniquilação (“Olhe para o clima”, “Olhe para a pandemia”, “Olhe para a superbactéria”), ela ainda se põe incrivelmente a serviço dos detentores do capital, quando deixa de investigar por novos antibióticos ou de apontar por novos modos de produção e distribuição de renda. É óbvio que o incentivo à miséria e fome afeta a todos – a concentração de renda não é sustentável – uma vez que tudo é interligado: um vírus circula todo o planeta em questão de dias. E a covid mostrou que o dinheiro não significa imunidade. E da forma com que ele é investido pode gerar “apartheid vacinal” que retorna para todos sob forma de novas variantes.

Embora essa forma servil da ciência para com o mercado seja danosa, há uma série de outros efeitos colaterais: para garantir insumos, há a necessidade de apropriação de novas divisas, o que impede com que se tenha um envolvimento global na busca por soluções – nem todo mundo pode fazer ciência.

Explico melhor, o negacionismo científico (com corte de recursos e desinvestimento em educação) conta muito dos planos para o futuro de cada nação: este processo é uma carta consentida de escravidão em que se tem a clara postura de ser e de se manter fornecedor de mão de obra e matéria prima barata às custas da vida de seu povo; que busca restos de madeira para queimar em substituição ao inacessível gás de cozinha, que come pés de galinha quando possível e que deixa de acreditar na educação por ter de garantir a próxima refeição nas ruas.

E é isso o que deseja o liberalismo: manter pobres e escravos os povos que perdem toda a assistência do Estado para que os ricos usufruam de suas posses. E o planeta já percebeu o quão danoso é o comportamento humano. Embora a espécie humana tenha surgido apenas no último segundo do último dia do primeiro ano de sua existência, o planeta Terra já sabe como proceder: mudando o clima, alterando as estações, derretendo o permafrost…. Ele sabe que tudo isso é necessário para se livrar desta gripe insana chamada espécie humana.

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag CiênciaNordestina.

Leia o texto anterior: Esperançar

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

STUART ANGEL JONES


Stuart Angel, assassinado e desaparecido há 49 anos

Militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), Stuart Angel Jones foi preso aos 25 anos, em 14 de junho de 1971 no Grajaú, Rio de Janeiro, por agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa), para onde foi levado. Tinha um encontro marcado com o capitão Carlos Lamarca, mas conseguiu preservar o companheiro nos interrogatórios. Submetido a prolongadas sessões de tortura, foi por fim amarrado à traseira de um jipe e arrastado pelo pátio do quartel. A cada parada do jipe, os agentes levavam a boca do estudante ao cano de descarga e o forçavam a respirar os gases do escapamento. Morreu asfixiado e intoxicado por monóxido de carbono.

A Aeronáutica jamais reconheceu a morte de Stuart Angel, dado como “desaparecido” até hoje. Seu corpo teria sido transportado num helicóptero militar até a área da Restinga da Marambaia, para ser lançado ao mar. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade passou a investigar a hipótese de o militante ter sido enterrado próximo à pista do aeroporto do Galeão.

As buscas pela verdade acerca de Stuart Angel Jones constituem um capítulo à parte na história da resistência à ditadura. A estilista Zuzu Angel, mãe de Stuart, denunciou o seu desaparecimento ao governo dos Estados Unidos (ele era filho de pai norte-americano e tinha dupla cidadania) e passou os últimos cinco anos de sua vida exigindo uma resposta do regime. Ela morreu em 1976 num acidente de automóvel provocado por agentes da repressão. Dias antes, Zuzu deixara com vários amigos cartas denunciando que estava marcada para morrer. Um desses amigos, Chico Buarque, iria compor em sua homenagem a belíssima e triste canção “Angélica”: “Quem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho / ‘só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar’.”

A mulher de Stuart, Sônia Maria de Moraes Angel Jones, foi torturada e morta em São Paulo dois anos depois, em 1973. Enterrada como indigente, seu corpo só seria identificado 18 anos mais tarde pela família, que pode então dar-lhe sepultura digna.

A partir de 1978, o Comitê Brasileiro pela Anistia entra publicamente na busca pelo paradeiro de Stuart Angel Jones. O Centro Sérgio Buarque de Holanda de documentação histórica e política possui em seu acervo fotos e cartazes usados na campanha, assim como uma edição do jornal Em Tempo que, em janeiro de 1979, já denunciava que o regime havia assassinado e “sumido” com 251 brasileiros.

Este texto é um trabalho do Memorial da Democracia, o museu virtual do Instituto Lula e da Fundação Perseu Abramo, dedicado às lutas democráticas do povo brasileiro. Nas páginas do museu você encontra um trecho do filme “Zuzu”, de Sérgio Rezende, e a canção “Angélica”, ambos dedicados à luta da mãe de Stuart para encontrar seu filho.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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