CONFUCIONISMO



confucionismo, junto com o budismo, o xintoísmo, o taoísmo e outras religiões nativas, foi um dos grandes elementos formadores da tradicional cultura do leste asiático. Hoje vamos focar no confucionismo: um dos maiores sistemas filosóficos milenares da China! Leia mais logo abaixo.

Estátua de Confúcio

FUNDAMENTOS DO CONFUCIONISMO

As ideias pregadas no Confucionismo são bastante diferentes das encontradas nas religiões tradicionais do Ocidente. Na filosofia de Confúcio não há um Deus, uma unidade criadora e muito menos templos ou igrejas.

Sua doutrina fundamenta-se na busca pelo Tao, a harmonia da vida e do mundo. Para atingir o Tao, o Confucionismo coloca a família como base de uma sociedade em que todos os seres humanos vivem em harmonia. Esta família começa nos governantes, que devem amar o povo como verdadeiros pais, e termina nos súditos, que têm o dever de serem obedientes e humildes como filhos.

Ideograma que representa a ideia geral do confucionismo
Símbolo do confucionismo

Outra das características presentes no Confucionismo é o culto aos antepassados. Para Confúcio, os seres humanos são formados por quatro dimensões:

  1. O Eu
  2. A Comunidade
  3. A Natureza
  4. O Céu

Além disso, prega que os seres humanos têm que possuir cinco virtudes essenciais, que são:

  1. Amar o próximo
  2. Ser justo
  3. Ter comportamento adequado
  4. Ter consciência da vontade dos céus
  5. Cultivar a sabedoria e a sinceridade

O Confucionismo tem como objetivo fomentar a ordem do universo através do ordenamento das relações sociais. Segundo o Confucionismo, se as relações sociais estiverem equilibradas, o universo estará equilibrado e todos os seres viverão felizes e em harmonia. Nesse sentido, o Confucionismo procura disciplinar todo tipo de relação social: a relação entre pai e filho, entre irmãos mais velhos e irmãos mais novos, entre cônjuges, entre governantes e governados, entre antepassados e descendentes, entre patrões e empregados, entre superiores e subalternos, entre amigos, entre professores e alunos e entre o céu (a divindade máxima) e os demais seres do universo.

À exceção da relação entre amigos, todas as demais relações seriam fundamentadas no princípio da hierarquia, onde um dos elementos seria superior e outro elemento seria inferior. Por exemplo, o pai seria superior ao filho, o marido seria superior à esposa, o filho mais velho seria superior ao filho mais novo, o governante seria superior ao governado, o antepassado seria superior ao descendente e o céu seria superior a todos. Entre amigos, a relação seria de igualdade. Dentro da relação confuciana ideal, o elemento superior deve se preocupar em garantir o bem-estar do elemento inferior e este, em troca, deve obedecer e respeitar o elemento superior.

QUEM FOI CONFÚCIO?

Representação de Confúcio em pintura
Representação de Confúcio

Confúcio (palavra latinizada derivada do termo chinês para “mestre Kong”) nasceu em 551 a.C., na cidade de Tsou (atual cidade de Qufu), no Estado de Lu (atual província chinesa de Shandong). Confúcio exerceu diversas profissões ao longo de sua vida, como pastor de animais e bibliotecário. Viajou por diversos reinos chineses e, ao longo da vida, foi formulando ideias sobre como deveriam se comportar as pessoas para que houvesse harmonia em suas vidas e na sociedade. Procurou aconselhar os governantes dos diversos reinos chineses. Reuniu cinco livros clássicos do pensamento chinês (Documentos ou Shu chingRitos ou Li chingVersos ou Shih chingMutações ou I ching e Anais da primavera e outono ou Chun-chiu) e os oficializou como material de estudo de seus discípulos. Esses discípulos continuaram difundindo as ideias de Confúcio após a morte deste em 479 a.C.

Após a morte de Confúcio, seus seguidores reuniram os pensamentos do seu mestre no Lún Yu, título que costuma ser traduzido como “Analectos” ou “Diálogos”. O mais famoso dos seguidores de Confúcio foi Mêncio, que nasceu em 370 a.C. Assim como Confúcio, Mêncio viajou pela China procurando orientar os governantes sobre a melhor maneira de governar. As suas conversas com os reis chineses ficaram registradas no livro que levou seu nome e que se tornou um dos quatro livros introdutórios ao pensamento confuciano, junto com os AnalectosO grande aprendizado e A doutrina do significado (ou A doutrina do meio).

A HISTÓRIA DO CONFUCIONISMO

Não só aceito, mas também instrumentalizado como ferramenta de soft power, o confucionismo é bem visto na China contemporânea
Atualmente o confucionismo é aceito pelo Governo Chinês

O confucionismo é uma religião que se originou na China no século VI a.C., a partir da doutrina pregada pelo filósofo Confúcio.

Por volta de 200 a.C., o Estado chinês havia emergido de uma federação livre de estados feudais do período dos Reinos Combatentes para o império unificado com o domínio patrimonial. O confucionismo emergiu para dominar as outras escolas filosóficas que se desenvolveram nos férteis levantes sociais da China pré-imperial, como o taoísmo, o moisismo e o legalismo, todos os quais haviam criticado o confucionismo (c. 400-c. 200 a.C.). Um dos discípulos de Confúcio, Mêncio, (c. 372-c. 289 a.C.) desenvolveu uma versão mais idealista do confucionismo, enquanto Xunzi (Hsün Tzu, c.313-c.238 a.C.) argumentou que todas as inclinações são moldadas pela linguagem adquirida e outras formas sociais.

No século III a.C., com o advento da dinastia Han, o Confucionismo tornou-se a religião oficial do governo, chegando à posição de uma ortodoxia oficial e sendo matéria básica para a formação e a seleção dos funcionários públicos, os chamados mandarins. Através da influência da cultura chinesa no leste asiático, a ideologia confucionista se espalhou pelos países da região, como o Japão, a Coreia e o Vietnã.

Quando a dinastia Han caiu, o Confucionismo caiu com ele e ficou adormecido por quase 400 anos (220-618 d.C.), enquanto o budismo chinês e o taoísmo ofereciam novas visões. A China foi novamente unificada pela dinastia Tang (618-906). Durante a dinastia Song (Sung) (960–1279), o neoconfucionismo floresceu – interpretando a doutrina confucionista clássica de uma forma que abordava questões budistas e taoístas. No século XII, o filósofo Zhu Xi comentou os quatro livros confucianos e se tornou o principal nome da escola neoconfucionista. Na dinastia Ming (1368–1644), Wang Yangming, outro relevante pensador confucionista trouxe inovação quando afirmou que a mente projeta li (princípio) nas coisas, em vez de apenas observar li externo.

Em 1912, com a proclamação da República da China por Sun-Yat-Sen, o país abandonou a doutrina confucionista como religião oficial do Estado chinês. Após a ascensão do maoismo com a Revolução Chinesa de 1949, os intelectuais chineses do século XX responsabilizaram o confucionismo pelo atraso científico e político da China, após os conflitos desastrosos com a tecnologia militar ocidental no início da era moderna. Não bastassem as oposições dos governos modernos ao confucionismo, ainda ocorreu uma avassaladora influência da cultura ocidental sobre a China no século XX. O confucionismo declinou novamente, durante esse período. Entretanto, após a morte de Mao Tsé-Tung, o Partido Comunista Chinês, hoje sob a liderança do presidente Xi Jinping, aceita mais variações de pensamento e abdicou parcialmente da radicalização ideológica no campo social. Desse modo, o confucionismo é visto como um patrimônio histórico e cultural da China.

A decadência do comunismo no mundo após a queda do muro de Berlim (em 1989) gerou a necessidade de uma nova referência cultural para a China comunista. O confucionismo parece preencher essa necessidade chinesa de referência espiritual. Ao mesmo tempo, o surgimento da China como potência mundial do século XXI fomentou o aumento do interesse dos países do mundo pela cultura chinesa. E, consequentemente, um aumento de interesse pelo confucionismo, um dos pilares da cultura chinesa.

Inclusive, hoje, a China tem diversos Institutos Confúcio ao redor de todo o planeta. O nome, claramente, homenageia o filósofo tradicionalista e indica que seu pensamento não mais é rejeitado. O Instituto Confúcio é uma organização governamental que promove a cultura chinesa através do ensino do mandarim. Os materiais não focam só no ensino da língua; têm notas culturais em todos os capítulos. E, além disso, o Instituto patrocina grandes eventos mundiais, como o Festival das Lanternas.

ORTODOXIA CONFUCIONISTA

Estátua de Confúcio
Estátua de Confúcio

A civilização chinesa não tinha profecia religiosa, nem uma poderosa classe social do sacerdócio. Aceitando que havia um imperador, ele era o sumo sacerdote da religião do Estado e o governante supremo. O confucionismo tolerava a existência simultânea de muitos cultos populares e não fazia nenhum esforço para organizá-los como parte de uma doutrina religiosa, enquanto ainda assim restringia as ambições políticas de seus sacerdotes. Em vez disso, ensinou ajuste ao mundo.

Isso forma um contraste agudo com a Europa medieval, onde a Igreja freqüentemente era capaz de sobrepor sua vontade sobre as dos governantes seculares, e onde a mesma religião singular era a religião dos governantes, da nobreza e do povo comum.

De acordo com o confucionismo, a adoração de grandes divindades era assunto do Estado, a adoração ancestral é exigida de todos e uma multidão de cultos populares é tolerável. O confucionismo tolerava a magia e o misticismo, desde que fossem ferramentas úteis para manter a estabilidade política. Outra qualidade notável era evitar tanto o êxtase irracional quanto a excitação, bem como a contemplação mística e a especulação metafísica.

Para encerrar o post, o vídeo abaixo sintetiza muito bem e de forma clara o confucionismo:https://www.youtube.com/embed/tUhGRh4vdb8?feature=oembed

O que achou do confucionismo? Que tal continuar se aprofundando na China e dar uma passada por lá? A China Vistos te auxilia do início ao fim! Entre em contato conosco e aproveite nossos serviços!

Por Rafael Queiroz Alves

Fontes: A Religião da China – Confucionismo e Taoísmo, Os analectos, WikiBooks, Estadão, Info Escola

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1° NO MUNDO, ENSINO CHINÊS CHEGA AO BRASIL


Ensino chinês chega ao Brasil com mandarim, inglês e até 10h de aulas

Primeira Escola Chinesa Internacional foi aberta no Rio de Janeiro com investimento de empresários e do governo da China

Agência Estado
Estudantes de escola chinesa em Pequim; modelo educacional chega ao Brasil

Estudantes de escola chinesa em Pequim; modelo educacional chega ao BrasilREUTERS

Um dos maiores produtores mundiais de vacinas, principal parceiro comercial do Brasil e líder em Ciências e Educação, a China chegou à rede educacional brasileira. Foi aberta no Rio a primeira Escola Chinesa Internacional, criada com o financiamento de empresários chineses que vivem no País e com apoio do governo chinês. O objetivo, segundo o site da escola recém-inaugurada, é proporcionar ensino de referência internacional. O modelo será o da educação básica chinesa, em ambiente trilíngue: mandarim, português e inglês.

escola já investiu R$ 3 milhões em tecnologia. Tem tablets e quadros-negros digitais e um robô que conversa em mandarim com os alunos, corrigindo sua pronúncia. O plano é abrir, ainda este ano, uma filial em São Paulo — onde a comunidade chinesa é muito maior.

Os chineses sentiam falta de uma escola que garantisse a educação integral de seus filhos no País, com ensino de mandarim e acesso a universidades chinesas. A China é o maior parceiro comercial do Brasil há mais de dez anos. Cerca de 300 mil chineses vivem no País.

Dezenas de empresas chinesas têm filiais no Brasil, sobretudo no Rio e em São Paulo. Além do mandarim, a escola mantém o currículo chinês, que é muito mais avançado em Matemática do que o brasileiro, por exemplo. Também preza os ensinamentos do filósofo Confúcio (551 A.C./479 A.C.), entre outros aspectos da cultura e tradição chinesas. Os alunos aprendem ópera e até culinária da China. A ginástica laboral – uma tradição nas escolas e empresas chinesas – também está presente.

“Muitos de nós, chineses, viemos para o Brasil já adultos; crescemos e estudamos na China”, afirma o empresário Zheng Xiamao, um dos investidores da escola. “Mas nossos filhos nasceram aqui, e percebemos que eles perderam um pouco da identidade, das raízes chinesas. Às vezes não tínhamos nem tempo de ensinar o mandarim.”

Chineses que vivem no Brasil contam que precisaram mandar os filhos de volta à China, ainda pequenos, para garantir que aprendessem a língua e tivessem garantido o acesso às universidades chinesas. Com o currículo brasileiro, é praticamente impossível ingressar no ensino superior no país asiático.

“No Brasil e em outros lugares do mundo existem escolas alemãs, britânicas, americanas. Por que não chinesa?”, questionou Xiamao. “Elaboramos então esse projeto de termos uma escola 100% chinesa.”

Cultura local

Mas a cultura brasileira também está presente. Os alunos têm aula de jongo, por exemplo, onde aprendem a dança brasileira de origem africana, típica de comunidades negras. Em uma aula acompanhada pelo Estadão, crianças chinesas tentavam aprender a dançar e a tocar os tambores típicos do ritmo ao lado de brasileirinhos levemente mais cadenciados.https://d-20884987514059160578.ampproject.net/2105210438003/frame.html

As aulas de História e Geografia, claro, também seguem o currículo nacional – uma exigência do Ministério da Educação.

A China, atualmente, lidera o ranking mundial de educação, o Pisa, nas três categorias: Leitura, Ciência e Matemática. Está à frente de todos os países escandinavos, tradicionalmente muito bem colocados. O aluno formado nessa escola terá acesso não só a universidades da China como também a instituições dos Estados Unidos e da Europa.

Dos cerca de 50 alunos já matriculados, 60% são brasileiros, 30% são chineses e 10%, de outras nacionalidades – há alunos americanos e italianos, por exemplo. “A maioria dos nossos alunos é brasileira”, atesta a diretora da escola, Yuan Aiping, que vive há 23 anos no Brasil. “E fico muito feliz de ver como os brasileiros abraçaram a ideia e reconheceram a nossa educação como de alto nível. A troca cultural certamente será imensa. Queremos um aluno globalizado.”

Entre os brasileiros que já matricularam seus filhos na escola estão os deputados federais Clarissa Garotinho e Pedro Paulo Carvalho, que atualmente é secretário de Fazenda e Planejamento da prefeitura do Rio.

“A comunidade chinesa trazia as famílias, mas, depois de alguns poucos anos, tinham de mandar os filhos de volta se quisessem que eles cursassem uma universidade chinesa; são sistemas educacionais muito diferentes”, conta o cônsul da China no Rio de Janeiro, Li Yang. “Mas se estendermos a educação chinesa a outros países, essas crianças podem ter a mesma educação que teriam na China e quando voltarem não terão problemas.”

A primeira dificuldade, claro, é a língua. Mas, mesmo sendo um sistema trilíngue (e o mandarim é escrito em ideogramas), a experiência da escola mostra que as crianças absorvem conhecimento muito rápido.

Entre os menores, na pré-escola, não há propriamente aula de idioma. Mas eles são assistidos por três professoras nativas: uma chinesa, uma brasileira e uma americana. Cada uma delas só se dirige às crianças em sua língua natal. Funciona: as crianças passam de uma língua para outra com grande naturalidade. “Os pequenos se adaptaram muito rápido, muito mais rápido do que imaginávamos”, conta a coordenadora pedagógica Josilene Germânia.

Outro obstáculo

A Matemática também é um grande obstáculo. Segundo Yang, a Matemática ensinada no 2.º ano de educação básica na China equivale ao que é ensinado no 5.º ou no 6.º ano em outros países. “Mas a nossa escola é aberta também para as crianças locais, não apenas às chinesas”, lembra o cônsul. “Assim, elas poderão ter acesso a uma educação de alta qualidade, trilíngue, além de conhecer a cultura chinesa.”

Os alunos passam de oito a dez horas na escola, o que pode parecer um pouco excessivo para alguns brasileiros. A mensalidade também varia de R$ 4 mil a R$ 8 mil dependendo da idade da criança e do número de horas que ela fica no colégio.

‘Cidadão global’

Vicente, filho da deputada federal Clarissa Garotinho (PROS-RJ), completou 6 anos na semana passada. Na hora do bolo, ele não se contentou em cantar parabéns apenas em português. “Ele fez questão de cantar também em mandarim”, conta a mãe, orgulhosa.

O neto dos ex-governadores do Rio Anthony e Rosinha Garotinho é aluno da Escola Chinesa Internacional desde o início do período letivo deste ano. É um dos brasileiros mais avançados em mandarim. Ele já se apresenta na língua asiática, dizendo seu nome e idade com a entonação correta, para deleite dos professores chineses.

“Queríamos um colégio internacional, para formar um cidadão global”, conta Clarissa. “Aí vimos que a China é o primeiro lugar do mundo no ranking de educação e toda a parte de tecnologia e matemática também é muito forte. No caso do Brasil, as relações comerciais são cada vez mais próximas; enfim, achamos que seria um ganho cultural muito grande.”

As mesmas razões nortearam a decisão do atual secretário de Fazenda e Planejamento do Rio, Pedro Paulo, na hora de matricular os dois filhos, Matteo, de 8 anos, e Lucca, de 6, na escola chinesa. “O colégio tem tudo o que a gente estava buscando”, diz o secretário. “Ninguém tem dúvidas de que o ensino chinês é o melhor do mundo. Tem a questão da tecnologia, do contato com outras culturas, do ensino do inglês e do mandarim, que é a segunda língua mais falada do mundo e rapidamente será a primeira.”

Sem falar na matemática. Matteo já é considerado uma promessa na matéria e é ensinado pessoalmente por um professor chinês. “Sempre percebi essa aptidão dos meninos pelo cálculo”, conta Paulo. “Por fim, a escola tem convênio com nove universidades chinesas, fora as americanas, formação que dará a eles grande vantagem.

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CHINA NA AMÉRICA ANTES DE COLOMBO


Descoberta das Américas: como a China poderia chegado ao continente sete décadas antes de Colombo

  • Vinícius Mendes
  • De São Paulo para a BBC News Brasil
Navio chinês no mar, com serra atrás
Legenda da foto,A possibilidade de que os chineses tenham chegado à America sempre ficou às margens nos livros de história

“Quando Cristóvão Colombo se lançou à travessia dos grandes espaços vazios a oeste da Ecúmena (área habitável da Terra), havia aceitado o desafio das lendas. (….) O mundo era o Mar Mediterrâneo com suas costas ambíguas: Europa, África, Ásia. Os navegantes portugueses asseguravam que os ventos do oeste traziam cadáveres estranhos e às vezes arrastavam troncos curiosamente talhados, mas ninguém suspeitava que o mundo seria, logo, assombrosamente acrescido por uma vasta terra nova”. É assim que o uruguaio Eduardo Galeano começa seu clássico As Veias Abertas da América Latina, livro publicado em 1971 que narra a história da região e seu lugar no mundo.

O escritor, assim como toda a historiografia ocidental, parte da primeira viagem do navegador genovês — entre o porto de Palos, na região da Andaluzia, na Espanha, e a ‘Isla de Guanahaní’ (atual Bahamas), onde sua frota desembarcou na manhã do dia 12 de outubro de 1492 — para contar sobre o primeiro encontro entre aqueles que já habitavam as ilhas do Caribe e exploradores vindos de outras partes do planeta.

O encontro é narrado a partir de Colombo em coletâneas respeitadas, como na História da América Latina organizada pelo historiador britânico Leslie Bethell ou nos volumes de Historia de la Conquista, escritos pelo americano William Prescott na primeira metade do século 18. Com isso, possibilidades alternativas — como a de que os vikings da Groelândia teriam assentado colônias no litoral do Canadá ou de que a “grande terra, fértil e de clima delicioso” supostamente encontrada (e descrita) por um capitão fenício do outro lado do oceano por volta de 500 a. C. era a América — ficaram sempre às margens.

Aquele contato inédito marcaria o início de toda a história da invasão europeia e da posterior colonização dos territórios e povos existentes deste lado do globo e seria também o marco inaugural de uma narrativa hegemônica até hoje em torno de uma “descoberta da América” pela Europa.PUBLICIDADEhttps://d5b7226280d4287e41acb71b50e027bc.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

ilustração de navio chines
Legenda da foto,China foi tecnologicamente mais avançada que a Europa durante séculos

A ‘descoberta’ chinesa

Há quase duas décadas, no entanto, uma história alternativa da “descoberta” das Américas se espalhou: a de que, ao contrário do consenso historiográfico, frotas encabeçadas por dois almirantes chineses, Zhou Man e Hong Bao, haviam navegado da África até a foz do Rio Orenoco, na atual Venezuela, descendo depois por toda a costa do continente até o do Estreito de Magalhães, ao sul da América do Sul, ainda no ano de 1421 — portanto, 71 anos antes da viagem de Cristóvão Colombo. Eles tinham sido treinados e eram liderados pelo grande navegador chinês daquela época: o eunuco muçulmano Zheng He.

Agora, essas figuras históricas estão sendo evocadas pela alta cúpula do governo chinês, para reafirmar as pretensões globais da potência asiática.

A tese da “descoberta” chinesa, cujas versões já existiam antes, ficou famosa por meio de dois best-sellers escritos pelo ex-comandante da Marinha britânica Gavin Menzies no começo dos anos 2000: 1421: o ano em que a China descobriu o mundo (Bertrand, 2006) e Who Discovered America? The Untold History of the Peopling of the Americas (“Quem descobriu a América? A história oculta da ocupação das Américas”, sem tradução).

Apesar da tese ser fortemente criticada por alguns historiadores pelo trato pouco ortodoxo com as provas históricas, a discussão permanece em aberto entre especialistas do mundo todo. Alguns deles afirmam hoje que, ainda que os chineses não tenham, de fato, navegado pela costa americana antes de Colombo, é possível dizer que eles reuniam meios para fazê-lo.

“Tecnologicamente falando, a China tinha condições de chegar às Américas ou outras terras, e até não podemos descartar que isso tenha acontecido. Muitos navegadores podem ter chegado nelas e morrido no regresso ou sequer ter feito registros das descobertas. No entanto, a questão é que a tecnologia sozinha não responde essa pergunta”, explica Rita Feodrippe, pesquisadora da Escola Naval de Guerra e estudiosa da marinha chinesa.

“Os europeus saíram para explorar o Atlântico porque o Mediterrâneo estava fechado e eles precisavam encontrar novos mercados. A China, ao contrário, tinha um comércio terrestre muito bem estabelecido com a África, com o que hoje chamamos o Oriente Médio e mesmo com a Europa. Como já havia um relativo sucesso comercial, econômico, cultural e migratório, não haveria necessidade de buscar novas terras — mesmo com a tecnologia disponível”, completa.

Marinheiros chineses a bordo de navio
Legenda da foto,Hoje a China tenta ampliar sua influência no mundo através de investimentos em infraestrutura

Para Vitor Ido, pesquisador do South Centre, em Genebra, na Suíça, a reação à possibilidade de Colombo não ter sido o primeiro a navegar pelo continente americano também diz muito sobre a hegemonia da narrativa europeia. “Quais são as razões que parecem tornar até inconcebível para a maioria de nós o reconhecimento de que a China poderia ter uma superioridade tecnológica em relação aos europeus naquele período? Essa pergunta mostra nossa maneira de pensar a história”, questiona ele.

O livro polêmico de Gavin Menzies

Menzies, que morreu há cinco meses ainda em meio às críticas dos historiadores, sustentava que, no começo do século 15, por volta de 1403, o imperador chinês Yongle (terceiro da Dinastia Ming) deu a Zheng He a missão de executar a maior volta ao redor do globo que já fora feita até então. O objetivo era ir “até o fim do mundo coletar tributos dos bárbaros espalhados pelo mar”.

Ele deveria treinar navegadores para saírem pelos oceanos enquanto, em paralelo, centenas de ba chuan, navios de dimensões nunca vistas, eram construídos pelo império. Foram eles que, nos anos seguintes, empreenderam seis viagens pelo planeta travando contatos com povos distintos e alcançando terras cujas existências eram desconhecidas. O único lugar ausente do trajeto foi a Europa. As navegações teriam continuado se, em 1424, Zhu Di não tivesse morrido, interrompendo o projeto de expansão e o contato com outras civilizações — uma sétima viagem aconteceria em 1433, depois da sua morte, e uma oitava frota chegou a partir depois, mas sem alcançar mar aberto.

Menzies diz no livro que, ao longo das outras viagens daquele mesmo período, almirantes liderados por Zheng He também pisaram no que hoje é a Austrália — 350 anos antes da expedição britânica liderada pelo capitão James Cook, que chegou à praia de Kamay Botany Bay (hoje um parque nacional em Sydney) em abril de 1770.

Como a maioria dos mapas originais chineses foram destruídos por oficiais do império anos após a morte de Zhu Di, os que restaram apresentam apenas viagens menores feitas à Índia e às outras ilhas do Sudeste Asiático, por exemplo. Os desenhos referentes aos anos de 1421 e 1423 — quando os barcos de Zheng He teriam ido mais longe — podem ser acessados agora, de acordo com Menzies, apenas por meio de reproduções, como uma encontrada por ele. Feita pelo cartógrafo veneziano Zuane Pizzigano, a reprodução mostra as ilhas de Guadalupe e de Cuba, as costas americanas, a Austrália e até a Antártica — e que provavelmente foi usada pelo próprio Colombo para chegar às Antilhas, diz Menzies.

Décadas depois, em 1512, o cartógrafo turco Piri Reis projetou o mapa-mundi incluindo não apenas as Américas, mas detalhando o terreno da Patagônia, ao sul do continente. Ele só foi possível, segundo Menzies, pelas informações obtidas décadas antes pelos chineses e já espalhadas pelos territórios da Ásia.

Nessas viagens ausentes dos registros originais, os navios liderados por Zheng He teriam cruzado o Cabo da Boa Esperança antes de Bartolomeu Dias, passado por Cabo Verde, na África, pelas ilhas dos Açores, hoje território português, pelas Bahamas (Caribe) e pelas Malvinas. Ele teria inclusive estabelecido algumas colônias onde hoje são a Austrália, a Nova Zelândia, a Califórnia, a ilha de Porto Rico (EUA) e o México — para onde teria levado os primeiros cavalos. Além disso, supostamente essas colônias foram pioneiras no cultivo de galinhas na América do Sul e na criação de um comércio de diamantes encontrados na Amazônia com o restante do mundo.

Os livros do ex-comandante naval são questionados principalmente pela fragilidade metodológica. “As conclusões extraordinárias do autor são validadas apenas por suas experiências pessoais e pelo relato que ele traz de sua luta para chegar a elas. Esse método é o que torna possível atrair tantos leitores que, de outra maneira, jamais abririam um livro de 500 páginas cujo assunto são os empreendimentos marítimos chineses e a exploração europeia”, diz Robert Finlay, professor emérito de História Mundial da Universidade de Arkansas, nos EUA.

Há ainda críticas às provas utilizadas por ele: em uma extensa análise da obra de Gavin Menzies, o historiador e oficial da Marinha portuguesa, José Manuel Malhão Pereira, e o professor Jin Guoping, especialista em relações lusitanas na China, apontam incoerências que vão das correntes de ventos às coordenadas astronômicas usadas pelos almirantes chineses, passando por erros graves de análise cartográfica — o mapa de Piri Reis, por exemplo, descreve ilhas da África, não do Caribe. Segundo eles, o autor dos best-sellers não apenas tentou “enganar os leitores” como deturpou diversas provas históricas para construir sua argumentação.

Mas há reações ainda menos amistosas, como a de um professor de Cingapura que, na ocasião da “Exibição 1421”, organizada na marina da cidade-Estado em 2005 pelo próprio Menzies a convite do governo local, chamou o livro de “lixo”.

Um mapa antigo

A tese de que os chineses chegaram às Américas antes de Colombo, no entanto, nunca morreu: em 2006, um advogado chinês chamado Liu Gang afirmou à imprensa internacional que tinha encontrado um objeto que a comprovava: um mapa com os cinco continentes do planeta feito em 1763, mas com uma anotação no verso dizendo ser uma reprodução de outro mapa de 1418. O mapa foi comprado por um valor irrisório em uma livraria de Xangai anos antes e Gang dizia que passara aquele tempo estudando a cartografia com outros especialistas. Ele chegou a uma conclusão parecida como a de Menzies: “A informação contida no mapa pode mudar a história”, disse Gang.

Em 2014, outra evidência das descobertas marítimas chinesas surgiu: durante uma expedição à remota ilha de Elcho, na Austrália, uma equipe de arqueólogos do país encontrou uma moeda da Dinastia Qing prensada entre os anos 1735 e 1795. À época, Mike Owen, chefe do trabalho de escavação, chegou a dizer que o objeto aumentava os já fortes indícios de que chineses haviam feito contato com aborígenes da região antes de Cook.

Para Júlia Rosa, que fez mestrado em Estudos Chineses Contemporâneos na Universidade de Renmin, em Pequim, e é cofundadora da plataforma Shūmiàn, a grande questão desse debate também gira em torno das possibilidades chinesas no período.

“Por um lado, a dinastia estava envolvida em projetos de expansão e de exploração de novos mercados para comércio e, por outro, tinha tecnologia para isso, já que a literatura afirma que os navios chineses daquela época eram melhores que os italianos. Assim, se eles soubessem que poderia haver uma terra desconhecida do outro lado do mundo, é possível que teriam tentado alcançá-la”, explica.

“Além disso, há certo consenso de que a China era mais avançada do que a Europa tecnologicamente até o século 14 aproximadamente”, completa.

Rita Feodrippe argumenta que, de fato, a indústria naval da China era uma das mais avançadas do mundo até antes do século 15. “Há muitas fontes históricas que mostram que a China chegou ao século 15 com programas e políticas específicas para seu desenvolvimento naval a nível local, isto é, queria navegar pelo oceano Pacífico e fazer trocas comerciais com os povos do Sudeste Asiático”, explica ela.

Marinheiro chinês
Legenda da foto,Nome de Zheng He foi resgato no momento em que a China busca criar a maior Armada do mundo

O ‘retorno’ de Zheng He

Há três anos, o nome de Zheng He voltou a sair da boca de um governante chinês: foi durante o discurso de abertura do atual presidente, Xi Jinping, no primeiro Belt and Road Forum (BRF) — evento em que delegados de mais de uma centena de países se reuniram em Pequim em 2017 para discutir projetos de infraestrutura financiados pela China pelo mundo.

Na ocasião, Xi Jinping afirmou que Zheng He foi um dos “pioneiros chineses que entraram para a história não como conquistadores, com navios de guerra, armas ou espadas. Ao contrário, eles são lembrados como emissários amigáveis em caravanas de camelos e navegando em navios repletos de tesouros. De geração a geração, esses viajantes das rotas da seda construíram uma ponte para a paz e cooperação entre o Ocidente e o Oriente”.

Segundo Júlia Rosa, a menção do presidente chinês não foi trivial: em um contexto de disputa geopolítica e de reafirmação no cenário global, com a construção de portos e estradas em países da África, da Ásia e da América Latina, o navegador do século 15 coloca uma das dinastias mais gloriosas da história da China em diálogo com as pretensões atuais do Partido Comunista — que governa o país desde a metade do século 20.

“Como na dinastia Ming havia uma participação intensa da China para além do seu território, não necessariamente em conflitos bélicos, mas em trocas comerciais com seus vizinhos. Zheng He é alçado como a figura que ilustra as pretensões da China de hoje: se engajar com outras populações por meio de trocas positivas, de ganhos mútuos, de comércio pacífico”, explica.

“Assim, Zheng He é um exemplo usado para dizer que a China já realiza esse tipo de contato com outros povos há muito tempo”, completa Rosa.

Vitor Ido, do South Centre, conta que a retomada de símbolos nacionais, como Zheng He, também faz parte de outra ambição chinesa. “O país tem feito isso também com Confúcio, por meio do Instituto Confúcio, para expandir o chamamos de soft power, mesmo que o governo tenha uma interpretação muito específica do confucionismo, assim como da história do Zheng He. Esse processo todo, de qualquer forma, me parece muito importante na China contemporânea”.

Para Rita Feodrippe, o navegador chinês é o símbolo perfeito de um país que, nas geopolítica atual, enxerga no mar o principal caminho para seu desenvolvimento econômico.

“Desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, houve uma ressignificação do mar. Eles não queriam depender de empresas de navegação ou usar rotas marítimas que são controladas financeiramente por potências ocidentais e, para isso, desenvolvem toda uma indústria naval e seu entorno para garantir o principal: importar e exportar muito e da forma mais barata possível. A associação com Zheng He está aí: era um chefe naval que liderava embarcações com capacidade para levar grandes mercadorias, mas não exércitos, para outros lugares do mundo”, analisa.