PRIMEIRA VÍTIMA DE HOMOFOBIA NO BRASIL


O índio executado a tiro de canhão tido como ‘primeiro mártir da homofobia no Brasil’

  • Edison Veiga
  • De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
Tibira do Maranhão, detalhe da tela de Miguel Galindo
Legenda da foto,A execução de Tibira do Maranhão trata-se do primeiro caso documentado de morte por homofobia no Brasil

Em 1614, um índio tupinambá foi executado, com a anuência de religiosos da Igreja Católica em missão no Brasil, por conta de sua orientação sexual. Conhecido como Tibira do Maranhão — tibira é um termo utilizado por indígenas para se referir a um homossexual —, seu caso é o primeiro registro de morte por homofobia no Brasil. Ativistas LGBT querem que o personagem seja reconhecido como mártir e fazem campanha para divulgar a história.

A história de Tibira do Maranhão foi resgatada pelo sociólogo e antropólogo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia e fundador da organização não-governamental Grupo Gay da Bahia. Seis anos atrás ele publicou um livreto chamado São Tibira do Maranhão — Índio Gay Mártir, com o relato da execução do personagem histórico e uma contextualização do caso.

Desde então, ele vem lutando para dar mais visibilidade ao episódio. Ganhou apoio de um religioso de uma denominação cristã independente, o arcebispo primaz da Santa Igreja Celta do Brasil, que diz reconhecer o martírio e a santidade do indígena. Grupos de luta por direitos dos homossexuais divulgam a importância de sua memória.

No início do próximo ano, Mott pretende encaminhar à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) um pedido para que a Igreja Católica “peça publicamente perdão” pela execução de Tibira e instaure o início de um processo de canonização.

“Estamos dispostos ainda a mobilizar outras igrejas para reconhecê-lo logo como um santo, independentemente do Vaticano”, afirma o antropólogo à BBC News Brasil. Mott defende que Tibira seja reconhecido como “o primeiro mártir da homofobia no Brasil” e busca revestir sua história de simbolismo, em alusão aos crimes de homofobia ainda hoje praticados no país.

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Quem esteve por trás da condenação de Tibira — segundo Mott, uma “execução arbitrária e sem autorização do papa nem da Inquisição” — foi o religioso e entomólogo francês Yves d’Évreux (1577-1632), frade capuchinho que integrou expedição francesa ao Brasil Colônia.

E a documentação detalhada, no caso, é o relato do próprio religioso, publicada em livro intitulado História das Coisas Mais Memoráveis Acontecidas no Maranhão nos Anos de 1613-1614.

A execução

Tibira do Maranhão, em ilustração
Legenda da foto,’Tibira’ é um termo utilizado por indígenas para se referir a um homossexual

No seu livreto, Mott atenta que a narrativa do frade escancara “a visão altamente etnocêntrica e o preconceito da moral cristã contra a sodomia, além de sua ardilosa tentativa de justificar eticamente a pena de morte contra o infeliz selvagem pecador”.

“Um pobre índio (sodomita), bruto mais cavalo do que homem, fugiu para o mato por ouvir dizer que os franceses o procuravam e aos seu semelhantes para matá-los e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do Evangelho, da candura, da pureza, e da clareza da religião Católica Apostólica Romana”, relatou d’Évreux.

“Apenas foi apanhado, amarraram-no e trouxeram-no com segurança ao forte de São Luís, donde deitaram-lhe ferros aos pés; vigiaram-no bem até que chegassem os chefes principais de outras aldeias para assistirem ao seu processo e proferirem sua sentença e sua morte, como fizeram afinal. Não esperou o prisioneiro pelo princípio do processo e ele mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse: ‘Estou morto, e bem o mereço, porém desejo que igual fim tenham os meus cúmplices’.”

O antropólogo pontua que outros relatos da época corroboram a ideia de como os europeus se chocaram com a “diversidade sexual e lascívia exacerbada dos ameríndios”. Em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, o empresário, agricultor e historiador português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) escreveu que “são os tupinambá tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam. Não contentes em andarem tão encarniçados na luxúria naturalmente cometida, são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não tem por afronta”.

Afirmou ainda que “o que se serve de macho se tem por valente e contam esta bestialidade por proeza” e “nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas”.

Quando os capuchinhos franceses chegaram ao Brasil, portanto, já estava consolidada essa imagem de que era preciso “purificar a terra de suas maldades”. Catequizados pelos religiosos, os próprios indígenas se tornaram aliados nesta missão. D’Évreux relata que após ser sentenciado, Tibira teve o direito de pedir para ser batizado — o argumento era que, se ele aceitasse, “apesar de sua má vida passada, iria direto para o Céu apenas se sua alma se desprendesse do corpo”.

O frade conta que, temendo uma repercussão negativa, como se estivesse endossando a execução, resolveram que não seria conveniente que ele próprio o batizasse. Assim, instruiu o carrasco para que o fizesse, “antes de ir ao suplício sem as cerimônias da Igreja”.

Aqui há um simbolismo que não passa incólume aos olhos dos pesquisadores. No batismo cristão, Tibira foi chamado de Dimas. De acordo com a hagiografia, São Dimas é considerado o “bom ladrão”. Foi um dos homens crucificados ao lado de Cristo que, arrependido de seus erros em vida, recebeu a promessa de que ainda naquele dia estaria no Paraíso.

O historiador Sérgio Muricy e o antropólogo Luiz Mott com tela de São Tibira do Maranhão
Legenda da foto,A história de Tibira do Maranhão foi resgatada pelo sociólogo e antropólogo Luiz Mott (dir.)

Para o Grupo Gay da Bahia, reside neste fato o principal argumento que permitiria qualificá-lo como santo mártir: assim como o “bom ladrão” foi posteriormente reconhecido como santo, o mesmo deveria ocorrer com o indígena brasileiro.

“Recebeu o batismo com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principais selvagens, depois do que um dos principais, chamado Caruatapirã, lhe disse estas palavras: ‘Tens agora ocasião de estares consolado e de não te afligires, pois presentemente és filho de Deus pelo batismo que recebeste (…) com permissão dos padres. Morres por teus crimes, aprovamos tua morte e eu mesmo quero pôr fogo no canhão para que saibam e vejam os franceses que detestamos as sujeiras que cometeste. Mas repara na bondade de Deus e dos padres para contigo, expelindo Jurupari para longe de ti por meio do batismo, de maneira que apenas tua alma saia do corpo vá direto para o Céu ver Tupã e viver com os Caraíbas que o cercam. Quando Tupã mandar alguém tomar teu corpo, se quiseres ter no Céu os cabelos compridos e o corpo de mulher antes do que o de um homem, pede a Tupã que dê o corpo de mulher e ressuscitará mulher, e lá no Céu ficarás ao lado das mulheres e não dos homens’.”, escreveu o frade. Na mitologia indígena, Jurupari é o próprio mal — seria o equivalente ao demônio do cristianismo.

Na sequência, em seu relato, D’Évreux apressou-se a corrigir essa interpretação feita por Caruatapirã do evangelho cristão. “Desculpareis este pobre selvagem, não cristão e nem catecúmeno, falando da ressurreição. Ele nos ouviu ensinar que em um dia ressuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em que estava para ocupar o seu corpo, acrescentando o que pensou ser indiferente à ressurreição, isto é que, uma alma recebe um corpo de homem ou de uma mulher, no que se enganou”, pontuou.

Tibira foi levado a um canhão instalado na muralha do forte de São Luís. Amarram-no pela cintura à boca da arma. Quando lançaram fogo, “em presença de todos os principais, dos selvagens e dos franceses (…), imediatamente a bala dividiu o corpo em duas porções, caindo uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais foi encontrada”, registrou o frade.

Mott atenta para o fato de que não há notícia no Brasil de nenhum outro condenado que tivesse sido executado assim, na boca de um canhão.

São Tibira

Imagem de São Tibira do Maranhão, conforme capa de livreto publicado por Luiz Mott
Legenda da foto,Mott pretende encaminhar à CNBB um pedido para que a Igreja Católica ‘peça publicamente perdão’ pela execução de Tibira e instaure um processo de canonização

A iniciativa do antropólogo ecoa em outras entidades de defesa dos direitos dos homossexuais. “[A eventual canonização de Tibira] seria muito importante. Quem se doa a uma causa, a uma luta, vira mártir, não importa se é hétero, gay ou lésbica, travesti ou transexual, binário ou não binário”, diz à BBC News Brasil ativista Agripino Magalhães, da ONG Aliança LGBT+. “O que importa é que ele foi morto, deu a vida em prol de um sentido maior.”

“Venho da base da Igreja Católica e graças a Deus sempre fui respeitado lá. Sempre me dediquei a pastorais sociais e a própria Igreja Católica muitas vezes fala que ser santo não tem a ver com sexualidade”, completa Magalhães.

Arcebispo primaz da Santa Igreja Celta do Brasil, o historiador Sérgio Muricy — cujo nome religioso é dom Bernardo da Ressurreição — é o primeiro religioso a reconhecer a santidade de Tibira.

“Fiquei impressionado com a narrativa histórica e a força exemplificadora da homofobia no período colonial no Brasil”, comenta ele, à BBC News Brasil. “O índio Tibira chegou a ser supliciado, o que me chamou a atenção, de forma cruel e sem direito de defesa, sendo assassinado, motivado por sua orientação sexual.”

Como ele mesmo explica, sua denominação religiosa segue a “linha católica”. “Nessas igrejas, em condições especiais, você pode atribuir santidade sem precisar de milagres. Temos dezenas de santos e santas que foram canonizados pelo seu heroísmo em defender a fé apostólica e católica. A Igreja pode proclamar um santo pelo martírio (…) sem precisar da comprovação de milagres. São santos pelo testemunho de defesa da fé”, argumenta ele.

Capa do livro de Yves d'Évreux
Legenda da foto,O religioso francês Yves d’Évreux (1577-1632) relatou o caso em seu livro

“O índio Tibira foi martirizado em uma boca de canhão. Não se tem notícias de nenhum martírio com esta crueldade na história do Brasil. Um martírio sem processo judicial, sem julgamento. Proclamar São Tibira do Maranhão, que foi martirizado pela sua orientação sexual, é fazer esta reparação histórica, criar um símbolo de resistência para a comunidade LGBT+ e proporcional às igrejas cristãs”, acredita Muricy.

“Muitas já estão revendo e corrigindo ou apagando seus preconceitos com os gays. A oportunidade de acolhimento a todos os cristãos independe de sua orientação sexual. Pelo relato que descreve o suplício de São Tibira, ele foi batizado pelos seus algozes antes de morrer. Então ele morreu cristão, reunindo as condições necessárias para sua canonização ou proclamação de santidade.”

O arcebispo diz que no “cristianismo celta, que foi católico e ortodoxo” há a “liberdade de instituir devoções particulares”. “Eu institui minha devoção ao índio Tibira pelo martírio, suplício por sua sexualidade e exemplo para o combate à homofobia”, ressalta. “Pretendo propor à minha igreja que São Tibira seja proclamado e reconhecido como santo mártir, dispensando processo de canonização. Somos uma igreja inclusiva, acolhemos todo ser humano, independente da orientação sexual.”

“Realizamos casamentos homoafetivos e ordenamos mulheres para todos os graus da ordem sacerdotal. Se temos santos protetores de praticamente todas as profissões e situações, por que não podemos ter um santo que proteja a comunidade LGBT+, historicamente perseguida até os dias atuais na maior parte dos países? Negar a possibilidade de colocar no altar São Tibira do Maranhão é homofobia estrutural”, defende.

Em abril, ele solicitou ao artista plástico Miguel Galindo que produzisse uma imagem sacra de Tibira. Segundo Muricy, trata-se de um artista com experiência em produzir quadros que retratam santos. “Conversei com ele sobre as características de São Tibira e não foi surpresa para mim o resultado, pois já sabia da capacidade artística dele. Ficou bom e expressivo”, comenta.

“Ele me mandou a história do santo e eu fiz minha criação em óleo sobre tela”, conta à reportagem Galindo. Muricy adquiriu a tela original. Mott encomendou também uma reprodução. “Trata-se da primeira tela devocional de São Tibira do Maranhão”, define Muricy.

Canonização

O arcebispo da Igreja Celta acredita que solicitar ao Vaticano que analise a canonização de Tibira é “uma positiva provocação para ajudar na sensibilização de acolhimento” da comunidade LGBT. Para ele, a Igreja Católica “precisa evoluir no processo de respeito a todos os seres humanos, independentemente da orientação sexual”.

Procurado pela BBC News Brasil, o arcebispo de Natal, dom Jaime Vieira Rocha, presidente da Comissão Especial para a Causa dos Santos da CNBB, afirma que não há “nenhum conhecimento oficial sobre processos” referentes a Tibira do Maranhão.

Ele explica que a Igreja costuma ouvir “o pedido de fiéis leigos” em relação à canonização de santos. Um exemplo recente é o caso do papa João Paulo 2º (1920-2005), canonizado em 2014. “Logo após sua morte o povo aclamava: ‘santo subito'”, recorda.

Rocha explica que costumam ser várias as etapas para que alguém seja reconhecido como santo. “O caminho para a canonização passa por etapas. Normalmente, se torna um ‘servo de Deus’ com a abertura do procedimento. Se ele apresentar as virtudes heroicas necessárias, é proclamado ‘venerável’, sem dias festivos ou igrejas em sua homenagem, mas pode ter rezas e materiais impressos em seu nome. Caso se prove um milagre por sua graça, pode ser beatificado, então ser venerado pela diocese local. A canonização acontece com a comprovação de um segundo milagre”, explica.

“Ao se tornar santo, é inserido no calendário universal da Igreja e pode ser venerado em todo o mundo”, ressalta o religioso. Atualmente existem em andamento 52 processos de beatificação de figuras brasileiras — que já tramitam no Vaticano. Em âmbito local, há ainda 16 veneráveis e 68 servos de Deus.

O arcebispo de Natal lembra ainda que há uma possibilidade de alguém ser declarado santo sem precisar passar por todo esse processo de comprovação de milagres. É a chamada canonização equipolente.

“O papa pode elevar um candidato à dignidade de santo sem a necessidade de comprovação de milagres, desde que três requisitos sejam cumpridos: a prova da antiguidade e constrância do culto ou devoção popular ao candidato a santo, o fato histórico de sua fé católica e de suas virtudes, e a fama de milagres por ele intermediados”, frisa.

O PERIGO DO NEGACIONISMO


Negacionismo: o perigo do pensamento negacionista

Por Psicóloga Sonia Pittigliani – CRP 06/14188010673

Atualmente, vivemos uma crise da verdade. O negacionismo ganha novamente espaço dentro da sociedade e coloca em xeque preceitos básicos e já sedimentados pela ciência no mundo. Esse movimento se apresenta travestido de “polêmicas”, por isso, é importante tomar cuidado com ele.

A problemática da veracidade é irrigada por ingredientes presentes nas estratégias dos “mercadores da dúvida”. Dessa forma, tais agentes procuram uma falsa simetria na argumentação científica e criam teorias conspiratórias para explicar o inexplicável.

Um bom exemplo da atuação do negacionismo é em relação ao aquecimento global. De fato, existe uma desestruturação do conhecimento por parte da população, gerando um descrédito em relação ao tema, entretanto, também vemos empresas de petróleos e indústrias ajudando a disseminar contestações à ciência do clima.

A movimentação dessas particularidades é perigosa. O campo do debate vira uma discussão ideológica capaz de influenciar a opinião pública e legitimar governantes com posições anticientíficas.

Entretanto, infelizmente, o aquecimento global não é o único consenso científico questionado pelos negacionistas. Temos o movimento antivacinas, a crença de que a terra é plana, o dito de que o Holocausto não existiu, entre outros. Portanto, é necessário compreender melhor o negacionismo a as suas consequências.

O que é negacionismo?

Negacionismo é a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável. Na ciência, o negacionismo é definido como a rejeição dos conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico a favor de ideias, tanto radicais quanto controversas.

Dessa forma, o negacionismo costuma se fortalecer quando a sociedade se depara com situações de instabilidade, como uma crise ou algo nunca antes presenciado. Quando em oposição a evidências científicas, o movimento encontra sustentação em teorias e discursos conspiratórios, sem aprofundamento e isolados, que acabam favorecendo disputas ideológicas, interesses políticos e religiosos.

Nesse sentido, alguns autores colocam o negacionismo como uma “pseudociência que contradiz um mundo imenso de teorias, verdades comprovadas e pesquisas sérias”. Sendo assim, o objetivo final dele – além de criar polêmicas retóricas e desnecessárias – é rejeitar alguma afirmação que encontra consenso no meio científico e em teorias solidamente comprovadas.

Além disso, as pessoas que seguem essa ideologia tentam propor experimentos para comprovar seus ideais na prática. Entretanto, encontram limitação teórica e de equipamentos, o que os leva a criar falácias com uma conclusão inválida.

Origem da teoria negacionista

A teoria negacionista é uma estratégia antiga e bem sucedida de “minar” conceitos científicos. A ideia foi aplicada pela primeira vez nos EUA, em 1950, quando a indústria de tabaco desenvolveu um manual de relações públicas para reagir às evidências científicas das pesquisas clínicas, que ligavam o fumo ao câncer. O objetivo, ao constatar essas evidências e contrapô-las ao consenso científico, era o de criar a “dúvida”.

Essa mesma “dúvida” do negacionismo foi utilizada para negar o buraco da camada de ozônio em 1980. Na mesma época, evangélicos americanos também usaram a mesma estratégia para forçar o ensino do “criacionismo” nas escolas, equiparando a inspiração bíblica da criação e derrotando a teoria da evolução.

Ainda, as indústrias de carvão mineral e petróleo, em 1990, fizeram de tudo para desacreditar a ciência climática e barrar a ação contra o aquecimento global. Por isso, vemos hoje, em pleno século XXI, o desmatamento da Amazônia e a “permissão” para as queimadas e exploração dos garimpos e minério, que tanto causa debates e discussões políticas, inclusive em âmbito internacional.

O fenômeno da pós-verdade

Era comum a geração mais velha dizer “é comprovado cientificamente” quando queria sustentar uma argumentação. Hoje, essa tática já não tem a mesma eficácia, pois a confiança na ciência está diminuindo.

Dessa forma, os que apoiam a teoria negacionista generalizam dúvidas e argumentos superficiais não comprovados, o que provoca uma descrença nas instituições científicas. Tal movimento favorece a disseminação de fatos escancaradamente anticientíficos, contando inclusive, com o apoio de governos e setores políticos.

O fenômeno da pós-verdade (fatos objetivos que passam a ter menos influência do que crenças pessoais na opinião pública) é um sintoma extremo dessa crise. Muitas pessoas não enxergam que a ciência existe para beneficiar a sociedade e seus indivíduos. A pós-verdade não designa só o uso oportunista da mentira: sinaliza um ceticismo quanto ao benefício das verdades e suas evidências factuais, comprovadas pela ciência.

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A educação e os meios de comunicação sérios são determinantes para gerar confiança nos conhecimentos científicos. No entanto, não podemos deixar de apontar que a distribuição de renda e as sociedades desiguais economicamente tendem a desconfiar da ciência, pois acabam não tendo acesso, principalmente, à educação de qualidade.

A maior riqueza da ciência não são as certezas produzidas ao fim de um processo de investigação, mas sim o modo qualificado de tratar as dúvidas durante este processo. Ser “cético” é o que se exige de todo cientista. Incertezas, perguntas, problemas e questões são matéria-prima da ciência. Dessas dúvidas é que se extraem as certezas.

Psicologia do negacionismo

A ideia de negação foi definida por Freud como um mecanismo psicológico, que tem a finalidade de reduzir qualquer manifestação capaz de colocar em perigo a integridade do ego dos sujeitos. Então, essas pessoas não conseguem enfrentar os fatos que julguem ameaçadores.

Dessa forma, trata-se de um mecanismo de defesa, que leva as pessoas, inconscientemente, a evitar a realidade em que vivem. Em termos psicanalíticos, a negação é um fenômeno típico de indivíduos que não querem lidar com as situações que geram incertezas.

A origem da negação é a angústia, que se recusa em reconhecer o problema que está acontecendo. Os indivíduos afetados agem como se nada tivesse acontecido, se comportando de maneira confusa e visto pelos outros como um comportamento insensato.

Nesse sentido, essa negação resulta num alto custo socioemocional a si mesmas e aos outros. Então, esse custo se traduz na prepotência e na intolerância, que, muitas vezes, leva ao obscurantismo das crenças e superstições.

Os negacionistas se consideram os “buscadores da verdade” e todos eles rejeitam/negam o conhecimento, porque isso é inconveniente para suas crenças e fantasias. No fundo, esse movimento revela posições autoritárias e preconceituosas. O mecanismo de negação, enquanto defesa inconsciente do indivíduo, é passível de tratamento terapêutico.

Enquanto psicólogos(as), estudamos durante anos a ciência do comportamento humano. Nos vemos, em pleno século XXI, enquanto profissionais que se defrontam com esses processos de desinformação, com a confusão entre o fato e a ficção, e as mentiras que se tornam verdades.

3 ANOS SEM MARIELLE FRANCO. QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?


CASO MARIELLE


CASO MARIELLE

Marielle Franco recebe homenagens na Itália e Suíça três anos após assassinato

Divulgação/Globo
Imagem: Divulgação/Globo

Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça

14/03/2021 05h50

Com o passar do tempo, o nome de Marielle Franco ganha cada vez mais força fora do Brasil. Exatos três anos após o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018, Marielle é lembrada na Itália, onde dará nome ao terraço de uma biblioteca, e na Suíça, que terá mais um ato em sua memória. Três anos já se passaram, mas os mandantes do crime ainda não foram identificados.null

A RFI conversou com a professora Ana Luiza Oliveira de Souza, fundadora da Casa do Brasil em Florença, instituição que promove a língua portuguesa e a cultura brasileira na região da Toscana. Foi a Casa do Brasil que pediu à prefeitura local que o nome de Marielle Franco fosse dado a algum lugar da cidade.

“Nós mandamos uma carta para a Prefeitura de Florença junto com o sindicato aqui da cidade, o CGIL de Florença. Entramos em contato com esse sindicato porque sabíamos da ligação que eles tinham com o Brasil. Era março de 2019. Naquela ocasião, a prefeitura buscava nomes de mulheres para poder nomear praças, ruas e outros lugares da cidade”, diz Ana Luiza, explicando como tudo começou.

Dois anos depois daquele pedido, um espaço dedicado a Marielle, que já é homenageada com um jardim em Paris, na França, será inaugurado em Florença, na Itália.null

“É um espaço maravilhoso. O terraço que terá o nome da Marielle Franco é o da biblioteca delle Oblate, uma biblioteca municipal. Florença tem várias bibliotecas e as mais importantes são a Nacional e a Municipal. E essa tem seu terraço com uma vista magnífica para a cúpula da Catedral de Florença, Santa Maria del Fiore, a cúpula de Brunelleschi. É um símbolo mesmo ter o nome de uma brasileira que lutava pelos direitos humanos, ter o nome de Marielle Franco no terraço da Biblioteca delle Oblate, que é um símbolo da cidade”.

A professora conta que há sempre pelo terraço muitos jovens lendo, tomando café. “É muito, muito bonito e muito simbólico como espaço para ser doado ao nome de Marielle Franco”.

A inauguração do espaço, com direito a placa com o nome da vereadora, seguido pelas datas de nascimento e morte e a inscrição “ativista pelos direitos humanos”, em italiano, irá ocorrer nesta segunda-feira (15), às 11h pelo horário local. Representantes da cidade de Florença, da Casa do Brasil e do sindicato, assim como a cônsul honorária do Brasil em Florença, devem estar presentes.null

Quem mandou matar Marielle?

Já na Suíça, é um ato em frente à ONU que vai marcar os três anos do assassinato da vereadora. A ativista pelos direitos humanos Angela Wiebusch de Faria, que representa o comitê Internacional Lula Livre de Genebra.

“O comitê vai realizar um ato simbólico em memória de Marielle Franco, que foi assassinada brutalmente três anos atrás na cidade do Rio de Janeiro. Esse ato tem um significado muito grande para manter viva a memória e o legado dela”, explicou Angela Wiebusch de Faria à RFI.

“Nós estaremos hoje [domingo], às 15h, em frente à ONU, na Praça das Nações Unidas, nosso tradicional ponto de manifestações e de encontros. Seguimos na denúncia e pedindo justiça por Marielle, porque até o momento esse crime não foi elucidado. Quem mandou matar Marielle? Seguimos com Marielle Presente”, diz.

Por já ser a quarta manifestação realizada em Genebra desde 2018, quando Marielle foi morta no Brasil, a RFI perguntou à ativista por que ela considera importante esse tipo de mobilização.null

“Foi um crime político que chocou o mundo. Então, enquanto não houver justiça por Marielle, nós não vamos parar de nos manifestar. Essa é a nossa mensagem. Essse crime também está sendo, em nível internacional, acompanhado por uma relatora especial da ONU. Ainda está impune, mas deve ser esclarecido o mais rápido possível para se fazer justiça para a família e pela memória em si de Marielle”, afirma.

Fonte: UOL

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