FOME CRESCE NO BRASIL


Enviamos esta mensagem para informar que a Rede PenSSAN acaba de lançar os resultados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar em contexto do COVID-19 no Brasil. Este foi realizado por nós com o apoio dos parceiros do Instituto Ibirapitanga, ActionAid Brasil, Oxfam Brasil e Fundação Friedrich Ebert Brasil, e execução do trabalho de campo e coleta de dados pelo Instituto Vox Populi em dezembro de 2020. O relatório está disponível em: http://olheparaafome.com.br/
Contamos com o engajamento de todes para a divulgação em suas respectivas redes.
Abraços,
Rede PENSSAN

O GRANDE GEÓGRAFO MILTON SANTOS


GLOBALIZAÇÃO

O legado de Milton Santos: um novo mundo possível surgirá das periferias

Mayara Paixão

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 03 de Maio de 2019 às 05:35

Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977
Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977 – Foto: Reprodução/Site Milton Santos

Milton Santos (1926 – 2001) é reconhecido mundialmente como um dos maiores geógrafos brasileiros. Dedicou a vida a analisar sua época. Crítico feroz do modelo de relações internacionais que se fortalecia nas décadas de 1980 e 1990, acreditava ser possível e necessário pensar em outra forma de globalização.

O professor, de origem baiana, é responsável por desenvolver novas compreensões de conceitos como espaço geográfico, lugar, paisagem e região. Defendeu que o uso de um território é político e deve ser estudado para entender as sociedades. Deu atenção especial para a economia urbana dos países tidos como “subdesenvolvidos” e acredita que, uma vez unidos, os povos darão novo sentido à humanidade.

Para Milton, era preciso questionar os consensos já estabelecidos. Questionar, aliás, era a sua principal característica segundo conta Nina Santos, sua neta.

“Seu legado não é restrito a um conceito ou a uma questão social, ele é extremamente amplo. Acho que a principal herança de Milton Santos é justamente ressaltar a importância do questionar, do pensar diferente, de defender o seu ponto de vista mesmo que contra uma maioria que questiona a sua posição.”

Neste 3 de maio de 2019, ele completaria 93 anos. Milton Santos possui uma obra com mais de 40 livros publicados e, ao longo de sua carreira, recebeu o título de Doutor Honoris Causa em 20 universidades nacionais e internacionais.

Milton Santos recebendo o título Honoris Causa na Universidad de Barcelona, em 1996 (Foto: Reprodução/Site Milton Santos)

Da Chapada Diamantina para o mundo

Milton Santos nasceu em Brotas do Macaúbas (BA), na Chapada Diamantina, filho de uma família de professores primários. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e fez doutorado em geografia na universidade francesa de Strasbourg.

Além de professor universitário, o geógrafo também trabalhou como jornalista em periódicos como o diário “A Tarde”, o mais antigo da Bahia e um dos mais antigos do país. Milton teve dois filhos e quatro netos, tendo conhecido apenas dois em vida.

O geógrafo rompeu barreiras não apenas pelos pensamentos fora da curva, mas por ser um homem negro inserido em uma intelectualidade predominantemente branca. “Lembro de um episódio que contava em que foi barrado na portaria da USP, em um final de semana, e impedido de entrar porque o porteiro, também negro, duvidava que ele fosse efetivamente professor daquela instituição”, recorda-se a neta, Nina Santos.

O preconceito racial presente em seu cotidiano foi um tema que, apesar de não ter sido central, também permeou a obra de Milton Santos. Em uma de suas poucas palestras disponíveis em vídeo, ele afirmou que “a luta dos negros só pode ter eficácia se forem envolvidos todos os brasileiros: Não cabe só aos negros fazer essa luta. Ela tem que ser feita sobretudo por todos.”

O exílio na França

A partir do golpe de 1964, o contexto da ditadura civil-militar forçou ao exílio muitos dos intelectuais brasileiros. Milton Santos chegou a ser preso por sua atuação política e militância. Logo depois, partiu para o exílio na França. O baiano trabalhou como professor convidado em importantes universidades francesas, como as de Toulouse, Bordeaux e Sorbonne.

É neste cenário que a então jovem estudante de geografia Maria Adélia Souza conhece o professor em 1965. Na época, ela cursava o mestrado em Paris com o também renomado intelectual brasileiro Celso Furtado, amigo de Milton Santos. Em uma das reuniões de sua orientação acadêmica, conheceu o geógrafo.

“Foram duas horas da maior aula de economia e geografia que tive em minha vida, e já estou com 80 anos. Foi assim que eu conheci Milton”, conta.

O que Maria Adélia não imaginava era que naquele encontro começaria uma amizade e parceria acadêmica que durariam até os últimos dias da vida de Milton Santos. A geógrafa, hoje professora titular de Geografia Humana da USP, assistiu de perto a mudança que o baiano proporcionou nos estudos da geografia.

“Milton, sem dúvida, foi o refundador da geografia contemporânea”, defende a amiga e professora Maria Adélia Souza (Foto: Arquivo Pessoal)

Milton Santos também fez um grande esforço para romper a bolha da academia e levar suas ideias até quem ele tentava retratar: o povo brasileiro.

Por uma outra globalização (2000) é o primeiro livro que ele fala ‘Adélia, eu vou escrever um livro fácil para quem não for geógrafo entender, qualquer cara do povo entender’. Eu disse ‘Milton, você acha que alguém vai entender a mais-valia mundial, a convergência dos momentos, a unicidade técnica do planeta?’ Eu disse ‘ninguém entende isso, Milton’.”

Ao que parece, as pessoas entenderam. Sua obra e seu legado se tornam conhecidos em todo o mundo. Em 1994, Milton ganhou o maior prêmio da geografia mundial, o prêmio Vautrin Lud, consagrando-se como o único geógrafo brasileiro e latino-americano a consegui-lo até hoje.

Para Maria Adélia, o amigo foi mais do que um grande geógrafo: “Milton se tornou mais do que um geógrafo, ele se tornou um pensador do Brasil. A obra dele fundamenta uma perspectiva libertária para a humanidade. Por isso que Milton Santos foi genial.”

Um novo mundo possível

Em 1977, Milton Santos retorna do exílio e se torna reconhecido como um pesquisador engajado, enquanto leciona na Universidade de São Paulo (USP).

Quase duas décadas passadas da sua volta ao Brasil, no ano de 1995, o país assiste à posse do governo de Fernando Henrique Cardoso. Tem início a implementação de um pacote de medidas neoliberais. Empresas estatais foram privatizadas e o capital estrangeiro entrava com liberdade no país.

Foi nesse período que o cineasta Silvio Tendler, atualmente com 69 anos, conheceu o professor Milton Santos. “A minha surpresa foi conhecer um dos homens mais brilhantes da minha vida. Tudo o que ele fazia era com um sorriso muito irônico, sarcástico. Era uma pessoa ao mesmo tempo muito dura e muito doce, capaz de falar as coisas mais duras do mundo com um sorriso nos lábios”, recorda-se.

Talvez a análise mais crítica e reconhecida mundialmente feita pelo geógrafo tenha sido sobre a globalização. Aquela era também a época em que o conceito passou a aparecer com maior frequência no debate público e entre os movimentos populares.

Silvio Tendler, por exemplo, ficou encantado com a possibilidade das barreiras da distância supostamente rompidas: a possibilidade de viajar, a baixa no preço dos produtos vindos de fora. Uma breve conversa com Milton Santos mudou a visão do jovem cineasta:

“Eu estava um pouco seduzido por esses processos. Conversei sobre isso com Milton Santos e ele era extremamente crítico. Eu falei ‘mas professor, por que o senhor está fazendo essa crítica se as pessoas estão extremamente seduzidas por essa possibilidade?’, aí ele falou: ‘É muito simples. Porque não vai ter para todo mundo.’”

As palavras marcaram a memória de Tendler. No ano 2000, ele voltou a procurar o amigo Milton Santos. Uma pequena entrevista que deveria durar dez minutos rendeu um material de duas horas, que daria origem ao documentário Encontro com Milton Santos: O Mundo Global Visto do Lado de Cá, lançado no ano de 2006 e premiado em diversos festivais de cinema.  

O filme retrata a análise de Milton Santos sobre o processo de globalização. Para o geógrafo, das periferias globais sairia a possibilidade de uma nova relação entre os países do globo, com mais igualdade e menos injustiça entre os povos. A cultura popular e a crescente capacidade de se comunicar impulsionada pelas novas tecnologias da informação dariam resultados.

Segundo Tendler, o documentário, mesmo mais de uma década depois de lançado, permanece atual. “É um filme que não envelhece pela atualidade das coisas que Milton Santos fala e pelas bobagens que se fazem no mundo”, opina.

Assista a “Mania de History – INSCREVA-SE!” no YouTube


Assista a “Povos Indígenas e História da Zona da Mata de Pernambuco” no YouTube


A FOME E SEU PROCESSO HISTÓRICO NO BRASIL


A fome é resultado da falta de alimentos e atinge um número muito alto de pessoas, tanto no Brasil, quanto no mundo. Embora o país avance em termos econômicos, sociais e tecnológicos, a alta concentração de renda na mão de poucos gera uma má distribuição de comida que afeta toda a população.

A situação de fome e pobreza no Brasil não é algo recente. Esse problema tem suas raízes no processo histórico e político da formação do país. A partir do momento em que os europeus colonizaram o Brasil, a concentração da riqueza das colônias nas mãos de poucos proprietários se mostrou visível junto com o trabalho escravo. Diante deste quadro, os nativos perderam suas terras e foram obrigados a trabalhar muito para ganhar pouco, ou muitas vezes nada para sua subsistência. Nesse sentido, as pessoas se viram em uma situação em que não tinham terra para plantar alimento nem meios financeiros para obtê-lo.

“Tivemos aqui uma ocupação européia que se deparou com um povo que tinha uma forma de vida própria. Esses povos até hoje vivem dizendo que não entendem a forma como os colonizadores invadiram o país e modificaram tudo que se construiu aqui a partir da colonização”, afirma Ivo Poletto, assessor externo da Cáritas Brasileira. Do ponto de vista desses povos, tudo o que os europeus fizeram foi uma agressão à natureza, feita em benefício dos próprios. “Nós temos como consequência disso um mundo que passa por revoluções constantes na capacidade de produzir, mas ao mesmo tempo concentra cada vez mais aquilo que é produzido. E essa concentração tem como resultado a existência de pobreza e miséria e, inclusive, de morte por fome”, enfatiza Poletto.

A concentração de renda na mão de poucos faz com que os proprietários já não saibam mais o que fazer gerando crises na humanidade inteira devido à especulação de negócios. Tudo isso resulta no aumento do preço dos alimentos e em mais pessoas que não tem condições de acessar os bens necessários para sobreviver. É importante, diante deste quadro, que haja um avanço no reconhecimento dos direitos humanos, definindo e colocando em prática o direito à alimentação, bem como os direitos à moradia e ao trabalho de modo que sejam criadas condições para que as pessoas possam cultivar seu próprio alimento ou ter meios para garanti-lo.

A fome e a pobreza foram produzidas e estão sendo alimentadas pelo próprio sistema. Entretanto, temos em nosso país, condições de mudanças e transformações que sejam estruturais, de modo que abra oportunidades para todas as pessoas, seja no acesso a terra, a um trabalho digno e remunerado, ou na diminuição do custo de vida para os mais pobres. “Desta forma, o Estado se tornaria indutor, de fato, da distribuição da produção geral de comida, e não um aliado à concentração da riqueza na mão de poucos”, finaliza.

por Tanara Adriano, da assessoria de Comunicação da Cáritas Brasileira | Secretariado Nacional