CÍCERO DIAS EM ESCADA|PE


Cicero dos Santos Dias (Escada, Pernambuco, 1907 – Paris, França, 2003). Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor. Transita por diferentes vertentes da pintura ao longo de sua carreira e destaca-se por ser um artista em uma busca constante por diversas formas de se expressar. 

Inicia estudos de desenho ainda em sua terra natal. Em 1920, muda-se para o Rio de Janeiro, onde se matricula, em 1925, nos cursos de arquitetura e pintura da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), mas não os conclui. Inicia a carreira artística nessa época, quando são introduzidas as tendências de vanguarda no Brasil. Liga-se aos intelectuais do movimento regionalista de 1926, que ocorre no Recife, em resposta à Semana de Arte Moderna de 22

No começo, Cicero Dias produz principalmente aquarelas, nas quais representa um universo de sonhos, inquietante. Os personagens, em escala diferente das paisagens, e também os objetos, apresentam muita leveza, frequentemente flutuam, como se observa nas telas O Sono (1928), O Sonho da Prostituta e Mulher Nadando, (ambas de 1930). São imagens que evocam o mundo do inconsciente, nas quais o erotismo é frequente. Estas são representadas com grande delicadeza no desenho e em uma gama cromática muito rica. Na opinião do crítico Antonio Bento, sua obra relaciona-se ao surrealismo e também a um imaginário fantástico nordestino, em que mitos e fábulas estão presentes nas manifestações artísticas e na literatura de cordel.

Expõe o polêmico painel Eu Vi o Mundo… Ele Começava no Recife, no Salão Revolucionário, na Enba, em 1931, do qual participam artistas de vanguarda. Com cerca de 15 metros de comprimento e produzida em papel kraft, a obra apresenta uma série de pequenas cenas, românticas e eróticas, que retomam o universo presente nas aquarelas, numa espécie de devaneio onírico, impregnado de forças misteriosas do inconsciente. O painel causa tanto furor que é censurado e tem uma parte cortada (restaurada mais tarde em Paris). Esse painel é considerado a obra-prima de Cicero Dias.

Em 1933, ilustra o livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), de quem é amigo. Em 1937, é preso no Recife quando da decretação do Estado Novo, por sua simpatia pelo Partido Comunista. Perseguido pelo regime e incentivado pelo pintor Di Cavalcanti (1897-1976), Cicero Dias viaja para Paris, onde passa a ter contato com pintores franceses como Georges Braque (1882-1963), Fernand Léger (1881-1955) e Henri Matisse (1869-1954), e torna-se amigo do pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Apesar da mudança, o tema e a técnica de seus quadros continuam ligados a Pernambuco: o artista mantém a luz e a cor de suas paisagens, como em Mulher na Janela (1939).

Em Portugal, a partir de 1943, inicia uma pesquisa comparativa entre a cultura portuguesa e a brasileira, estuda arte popular, arquitetura, escultura e pintura. Nessa época, pinta quadros que têm por motivos elementos vegetais, como Galo ou Abacaxi Mamoeiro ou Dançarino (ambos de 1940), em que tem como ponto de partida o gênero da natureza-morta, trabalhando com o ilusionismo de forma irônica. Outras de suas obras revelam o impacto causado pelo quadro Guernica (1937), de Picasso: Mulher Sentada com Espelho (1940) e Duas Figuras (1944). Também produz obras que apresentam um diálogo entre o figurativo e a abstração. Apesar do geometrismo, aparecem a vegetação, o canavial e o mar, como em Mormaço (1941) e Praia (1944). 

Retorna à França em 1945 e integra o grupo abstrato Espace, da Escola de Paris, até 1950. Pinta, em 1948, os primeiros murais abstratos da América Latina, para o então  Conselho Econômico do Estado de Pernambuco (depois chamado de Secretaria da Fazenda), no Recife. Neles, aproveita, como sempre, elementos da paisagem do Nordeste: canavial, jangadas, o vermelho dos telhados, mas submetendo-os a um processo do qual resultam formas simples e ricas de sugestões poéticas.

Após 1950, predominam os quadros abstratos, em que se destacam as formas fechadas, retangulares ou tendendo à circularidade, e a preocupação com a luz e as cores claras, em uma gama cromática evocativa da natureza nordestina, como em Composição II (1951). Para o crítico Mário Carelli (1951-1994), na abstração, o artista baseia-se em estruturas vegetais, em que as formas geométricas refletem uma cristalização perfeita, como em Meridianos ou Relações Incertas (ambos de 1953). Paralelamente aos quadros abstratos, realiza outros, de caráter lírico. Estes apresentam, em sua maioria, figuras na paisagem, com rostos sutilmente iluminados, com cores suaves e uso especial do branco, como em Casal Cena de Olinda (ambos de 1950).

Volta com maior intensidade à pintura figurativa na década de 1960. Permanecem em seus quadros o clima de sonho e os elementos recorrentes: mulheres, casarios, folhagens, e é constante a presença do mar. Usa frequentemente tons de rosa e azul. Em relação à fase figurativa do início da carreira, observa-se que a gestualidade dos personagens é contida e há mais sensualidade do que erotismo, como em Barqueiro e Moça no Barco (ambos de 1980). Recebe do governo francês a Ordem Nacional do Mérito da França, em 1998, aos 91 anos.

Cícero Dias explora diferentes vertentes em sua produção, influenciando e se deixando influenciar pelas vivências que tem ao longo de sua carreira. Nesse caminho, o artista corre o mundo sem deixar para trás suas origens, construindo uma obra diversificada e autoral.

Fonte: Itaú Cultural

JOSÉ INOCÊNCIO BARRETO | RETRATO DA REPRESSÃO NO CAMPO EM ESCADA | PE


ESCADA-PE | PATRIMÔNIO HISTÓRICO


Escada, na Mata Sul de Pernambuco, revela relíquias de engenhos de açúcar; veja

O projeto Turismo Rural em Escada promoveu visita a cinco engenhos e prevê novos passeios na cidade da Zona da Mata Sul de PernambucoCleide Alves

Cleide Alves

Publicado em 29/12/2019

Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Leitura: 9min

Houve um tempo em que o município de Escada, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, tinha mais de 150 engenhos de cana-de-açúcar funcionando. Com o declínio da tradicional atividade agroindustrial, muitos desapareceram. Restam na cidade uns 70, alguns preservados e vários em ruínas. Cinco deles foram escolhidos para inaugurar, domingo passado (22), o projeto Turismo Rural de Escada, que prevê visitas a casarões de antigos engenhos, passeios por cachoeiras e caminhadas nas estradas com fama de mal-assombradas, em cinco rotas distintas.

A Rota dos Barões, a primeira a ser explorada, levou 50 pessoas aos Engenhos Sapucaji, Barra, Limoeiro Velho, Jundiá Grande e Preferência (localizado em Primavera após mudanças nos limites municipais). “Essa é uma forma de estimular as pessoas a conhecerem a sua história”, afirma o arqueólogo Álex Anthony, coordenador do projeto. O próximo passeio é o Caminho das Águas, em 12 de janeiro de 2020, numa trilha para percorrer as cachoeiras Pé de Serra, Rasga Sunga e Pedra Americana.

Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Com 12 janelas na fachada principal e 15 quartos, o Engenho Sapucaji fica no município de Escada – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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A casa-grande do Engenho Sapucaji foi construída na segunda metade do século 19 em Pernambuco – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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O casarão pertence à família Dias Lins e conserva mobiliário antigo nas salas e nos quartos – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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O casarão pertence à família Dias Lins e conserva mobiliário antigo nas salas e nos quartos – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Em 1887, no século 19, o Engenho Sapucaji recebeu a visita do príncipe Adalberto da Prússia – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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A casa-grande do Engenho Preferência é de 1917 e foi construída sobre a moradia antiga, de 1875 – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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O casarão do Engenho Preferência mantém o piso de mosaico inglês na sala e no terraço – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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O casarão do Engenho Preferência mantém o piso de mosaico inglês na sala e no terraço – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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De propriedade da família Pontual, o Engenho Preferência nasceu em Escada e hoje fica em Primavera – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Preferência não moía cana, o engenho mantinha o cultivo da cana e a criação de gado e cavalo – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Casarão de estilo neogótico do Engenho Limoeiro Velho, construído em meados do século 19 em Escada – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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A casa-grande de Limoeiro Velho foi restaurada em 2017, vendida em 2019 e passa por reforma interna – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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O Engenho Limoeiro Velho foi residência do Barão de São Braz e do segundo Barão de Suassuna – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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O pintor Cícero Dias nasceu no casarão do Engenho Jundiá Grande em 1907 e faleceu em 2003 na França – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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A casa-grande de Jundiá é uma construção neoclássica do século 19. O engenho remonta ao século 18 – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Sem uso há anos, o casarão do Engenho Jundiá Grande está destelhado, sem portas e janelas – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Apenas quatro casarões de engenho tinham pátio interno em Pernambuco. Jundiá Grande era um deles – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Antônio Silvino matou uma menina em Jundiá em 1899. É o único crime do qual se arrependeu na vida – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Construída em 1880, a casa-grande do Engenho Barra continua habitada pela família proprietária – Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

No Engenho Sapucaji, um do poucos com móveis do passado, o visitante foi apresentado ao modo de vida da época na sala decorada com espelho majestoso, mesa para dez lugares, piano e gramofone. O casarão de 12 janelas na fachada principal é uma construção da segunda metade do século 19, com porão alto e escadaria em pedra lioz, um calcário português. “Em 1887, o príncipe Adalberto da Prússia, filho do último kaiser da Alemanha, Guilherme 2º, passou um dia lá”, recorda Reinaldo Carneiro Leão, 1º secretário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.

O casarão do Engenho Barra, também da segunda metade do século 19, pertencia ao Barão de Pirangi e encontra-se nas proximidades de um riacho afluente do Rio Ipojuca. “Antigamente, a casa era distante dos limites da cidade, mas foi substituída e a nova construção ficou quase na cidade, isso permitia que os moradores pudessem ver a rua”, comenta Reinaldo Carneiro Leão.

Antiga propriedade do Barão de São Braz, a casa-grande do Engenho Limoeiro Velho tem estilo arquitetônico neogótico. “É típico da segunda metade do século 19 em Pernambuco”, informa Reinaldo. O casarão, restaurado em 2017, foi vendido há três meses e o novo proprietário ainda está concluindo reformas internas. “Ela é bem moderna por dentro e mantém os traços antigos nas fachadas”, diz Álex Anthony.

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Jundiá Grande, onde nasceu o pintor Cícero Dias (1907-2003), é um dos exemplos de engenho em ruínas de Escada. Destelhada, sem portas, piso e janelas, a casa é uma construção neoclássica do século 19, mas o engenho remonta à segunda metade do século 18. Antes de ser parcialmente demolida, tinha 26 quartos, observa Álex Anthony. “Era o casarão com o maior pátio interno de Pernambuco”, acrescenta Reinaldo. Tudo está sendo tragado pelo mato.

Chalé com sótão de propriedade da família Pontual, a casa-grande do Engenho Preferência foi construída em 1917 sobre a moradia mais antiga, de 1875, no alto de uma colina. “Meu avó tinha serralharia e aqui mesmo ele confeccionou madeiras do forro, tacos do piso e gradis para a casa”, afirma Fausto Falcão Pontual, o atual proprietário. O engenho, diz ele, aliava o cultivo de cana com criação de gado e cavalo.

Rotas

As outras rotas do projeto são: Passos da Escravidão, com visita a engenhos que usavam mão de obra escrava representativa (Escada era a segunda vila com maior número de escravos em Pernambuco, em 1872) segundo Álex Anthony; Circuito das Capelas (remanescentes de oratórios e capelas que as famílias construíam em casa para mostrar que eram católicas); e Estradas mal-assombradas, para rememorar as lendas mantidas por moradores da zona rural, como a conhecida comadre florzinha, que fazia pessoas se perderem na mata.

O projeto Turismo Rural tem apoio do Instituto Histórico de Escada, da Secretaria de Cultura da cidade e do proprietário de um posto de combustíveis.

Serviço

Valor do passeio: R$ 40 por pessoa, incluindo translado, água mineral e frutas
Reserva: (81) 99115-6667 (WhatsApp)
Informações: @turismoescada

O CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO


Semira Adler VainsencherPesquisadora da Fundação Joaquim Nabucopesquisaescolar@fundaj.gov.br   Manoel Batista de Morais nasceu no dia 2 de novembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, uma pequena cidade situada às margens do rio Pajeú das Flores, sertão do Estado de Pernambuco. Era filho de Francisco Batista de Morais e de Balbina Pereira de Morais. Na juventude, ficou conhecido como Batistinha (ou Nezinho). Seus dois irmãos eram Zeferino e Francisco.

Batistinha possuía um tio chamado Silvino Aires Cavalcanti de Albuquerque que, após ter brigado com os partidários do General Dantas Barreto (governador de Pernambuco), decidira organizar um bando e, desde então, vivia espalhando o terror pelos sertões adentro.

Desse grupo, faziam parte: Luís Mansidão e o seu irmão, Isidoro, Chico Lima, João Duda, Antônio Piúta e, posteriormente, os seus sobrinhos Zeferino e Manoel Batista de Morais (Batistinha).

Silvino Aires vivia fugindo do cerco da polícia, mas foi preso enquanto dormia, pelo Capitão Abílio Novais, perto de Samambaia, distrito de Custódia, em Pernambuco. Com a prisão do tio e bandoleiro, Batistinha assumiu o comando do cangaço, mudou o seu primeiro nome para Antônio (não se sabe, até hoje, o motivo) e, o segundo, para Silvino, em homenagem ao familiar e ex-chefe que tanto admirava.

A partir daí, passou a ser conhecido com o nome de guerra de Antônio Silvino e apelido de “Rifle de Ouro”. Um pouco antes de Lampião, ele representou o mais famoso chefe de cangaço, substituindo cangaceiros célebres tais como Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia-Noite, Preto, Moita Brava, o tio – Silvino Aires – e o próprio pai – Francisco Batista de Morais (conhecido como Batistão).

Batistinha havia entrado no cangaço com o seu irmão, Zeferino, para vingar a morte do pai, Batistão do Pajeú, que havia tombado morto em um dos combates com a polícia. Batistão era um homem provocador, um bandoleiro, bastante marcado pela polícia e autor de vários homicídios. Certa vez, ousou entrar em Afogados da Ingazeira, em um dia movimentado de feira. Daí, o chefe político local, coronel Luís Antônio Chaves Campos, contratou um matador profissional (Desidério Ramos, que, como o coronel, também era desafeto de Batistão), e este liquida o cangaceiro com um tiro de bacamarte. O corpo de Batistão permaneceu inerte, em uma rua próxima à feira. Era o ano de 1896.

Desidério, gozando da cobertura do coronel e chefe político da região, permaneceu impune e bem protegido no sertão. Jamais demonstrou possuir o menor temor de Antônio Silvino, a despeito de o cangaceiro amedrontar a todos. Sendo assim, depois de muito chorar a perda do genitor, os filhos de Batistão juraram vingar a sua morte, roubando, assaltando e matando todos aqueles que colaboraram para tal.

Algumas pessoas acreditavam, inclusive, que Antônio Silvino não possuía “maus instintos”, que não cometia violências à toa, do tipo assaltar pessoas, estabelecimentos, povoados e cidades sem haver um motivo justo. Os integrantes do seu bando só se vingavam daqueles que lhes armavam emboscadas, dos que os denunciavam à polícia, das volantes que os perseguiam. Quando muito, se não agiam exatamente dentro da lei, isto era justificado, segundo eles, pela necessidade de angariar elementos básicos para a sobrevivência do bando: comida, dinheiro, roupa, armamentos.

Outras pessoas afirmavam, contudo, que Antônio Silvino vivia espalhando o terror nos municípios das Zonas da Mata e Agreste de Pernambuco, e nos sertões deste Estado e da Paraíba. Sobre os feitos e a valentia daquele cangaceiro, o cantador popular Leandro Gomes de Barros escreveu: Onde eu estou não se roubaNem se fala em vida alheia,Porque na minha justiçaNão vai ninguém pra cadeia:Paga logo o que tem feitoCom o sangue da própria veia.


Quando Silvino Aires morreu, vários indivíduos perigosos entraram em seu bando e começaram a espalhar o terror por toda a parte. Foram eles: Cavalo do Cão, Relâmpago, Nevoeiro, Bacurau, Cobra Verde, Azulão, Cocada, Gato Brabo, Rio Preto, Pilão Deitado, Barra Nova, Cossaco, entre outros. Antônio Silvino, como chefe, passou a usar a farda de coronel, apresentando-se com cartucheiras, punhal na cintura, bornais e um rifle na mão e, por questão de poder e vaidade, exigia que todos o chamassem de “capitão”.

A esse respeito, Mauro Mota registrou um episódio vivenciado por Antônio Silvino. Ao invadir uma cidade na Paraíba, o famoso cangaceiro se dirigiu à casa de um delator e disse, em público, que ia matá-lo. A esposa da vítima, desesperada, pediu-lhe, então: “Capitão, não mate o meu marido. Tenha pena de uma pobre mulher e de crianças que vão ficar órfãs.”
Ao que o cangaceiro lhe respondeu: “[…] Antônio Silvino não sabe negar nada a uma mulher aflita.” […] “Perdôo-lhe a vida, mas, para não ficar sem castigo, vou mandar dar-lhe uma pisa.”

Ao que a mulher voltou a lhe solicitar: “Capitão, se é para humilhar meu marido, o senhor me desculpe: em um homem não se dá! Mande logo matá-lo, que é melhor!

Naquele momento, vendo esvair-se a oportunidade de escapar da morte, o marido delator interrompeu o diálogo dos dois e exclamou: “Não se meta, mulher, que o capitão sabe o que faz!”

Um outro episódio ocorrido foi narrado pelo escritor e sertanejo Ulisses Lins. Certa vez, Antônio Silvino passou pela Fazenda Pantaleão, uma propriedade de Albuquerque Né, o avô de Etelvino Lins. Como o cangaceiro não o conhecia, apenas cumprimentou-lhe à distância, tirando o seu chapéu.

Quando foi informado de quem se tratava, no entanto, Antônio Silvino voltou para pedir-lhe desculpas, humildemente, por ter passado em suas terras armado, justificando isto pela vida de riscos que levava, fugindo sempre dos inimigos e da polícia. Dessa forma, mesmo considerando o crime como uma banalidade, o cangaceiro sabia respeitar a autoridade e a lei dos coronéis-fazendeiros, em verdade, os mais poderosos de todos.

Ele chegou a ser chamado de “bandido cavalheiro”. Mesmo não perdoando aos inimigos, ele adquiriu fama por proteger as pessoas simples e humildes: as mulheres, as crianças, os doentes e os idosos. Um poeta popular sertanejo, na época, sobre ele escreveu: Antônio Silvino éCangaceiro do sertão,Mas não ataca a pobreza,Antes lhe dá proteção;Mas tem orgulho em matarOficial de galão.


Um outro poeta popular deixou o seguinte cordel, como se fosse o próprio Antônio Silvino falando: Já ensinei aos meus cabrasA comer de mês em mês,Beber água por semestre,Dormir no ano uma vez,Atirar em um soldadoE derrubar dezesseis.


O governador de Pernambuco, general Dantas Barreto, frente aos imensos prejuízos causados pelos cangaceiros no interior do Estado, decidiu decretar a mobilização da polícia. Foram despachadas para o sertão, então, inúmeras forças volantes, com o intuito de combater o bando de Antônio Silvino.
O delegado do município de Taquaritinga, alferes Teófanes Torres, comandante de uma das forças volantes, desconfiou que o famoso cangaceiro estivesse escondido na fazenda de Joaquim Pedro. E quando empreendeu uma busca dentro da casa, percebeu que um grande carneiro tinha sido abatido e estava sendo preparado na cozinha do fazendeiro.
A partir daí, o alferes ameaçou fuzilar o dono da propriedade, caso ele não revelasse, de imediato, onde se encontrava Antônio Silvino. Uma das filhas de Joaquim Pedro, apavorada com a situação, implorou: “diga a verdade, papai!” O fazendeiro terminou falando, então, que o bando se encontrava bem perto dali, à beira de um riacho; e o delegado ordenou que a tropa seguisse até o local e pegasse o cangaceiro vivo ou morto.

O caminho indicado, no meio da caatinga, em Lagoa da Lage, Santa Maria, Pernambuco, era um entranhado de espinhos, mororós, xique-xiques, facheiros e galhos secos de jurema, ferindo todos os que tentavam abrir a picada. Mas, a despeito das dificuldades, no dia 28 de novembro de 1914 ocorreu o último encontro de Antônio Silvino com a polícia. No tiroteio, muitos morreram e poucos conseguiram fugir. Já baleado e para não ir preso, Joaquim Moura, o lugar-tenente do cangaceiro, se suicidou com um tiro de rifle. O confronto durou cerca de um hora, o tempo que o bando esgotou a munição das cartucheiras.

Percebeu-se, de repente, que Antônio Silvino estava correndo cambaleante, como se estivesse ferido. Em verdade, uma bala de fuzil havia atravessado o seu pulmão direito, indo sair na região sub-axilar. Sangrando, ele conseguiu chegar à residência de um amigo, pediu que chamassem a polícia e, na presença desta assim falou: estou entregue! Tinha 39 anos de idade.

Ele foi preso na mesma hora e levado para a Cadeia de Taquaritinga. Porém, como estava muito ferido, teve de viajar a cavalo, dentro de uma rede, por cerca de 40 quilômetros, até a estação ferroviária de Caruaru. O destino final era a capital do Estado.

Como recompensa ao heroísmo pela captura do “Mussolini sertanejo”, o general Dantas Barreto promoveu o alferes Teófanes a tenente; a alferes, o segundo-sargento José Alvim; e, a cabo, todos os demais praças que participaram do confronto com o bando.

Do município de Caruaru, Antônio Silvino foi transferido para a Casa de Detenção do Recife. Veio em um trem especial da Great Western, onde uma multidão o aguardava: todos queriam ver, de perto, o tão falado cangaceiro.

No entanto, Antônio Silvino se encontrava abatido, em decorrência da hemorragia que tivera, estava inquieto, com dificuldade respiratória, e ardia em febre. Os médicos diagnosticaram pneumonia traumática e aplicaram seis ventosas secas sobre o seu hemitorax direito. Posteriormente, deram-lhe injeções de óleo canforado e estriquinina. O doente ficou mais calmo, respirando melhor.

Antônio Silvino se tornou o prisioneiro número 1122, da cela 35, do Raio Leste. Por vários processos, pelos vinte anos de opção pela vida no cangaço, foi condenado a 239 anos e 8 meses de prisão.

Na cadeia, teve um comportamento exemplar e decidiu aprender a ler e escrever, aproveitando as horas do dia para fazer algo útil. Nos intervalos das aulas, fabricava abotoaduras, brincos e pequenos artefatos de crina de cavalo, ganhando algum dinheiro com a venda desses produtos.

Passou a ser objeto de estudos e pesquisas, principalmente de alunos da Faculdade de Direito do Recife. Entretanto, não gostava de recordar o seu passado.

Em certa ocasião, recebeu a visita de José Lins do Rego, um jovem advogado cujo desejo era o de se tornar um romancista. Outras vezes, foi procurado por Luís da Câmara CascudoNilo PereiraJosé Américo de Almeida, entre várias personalidades importantes. Quanto aos jornalistas, o ex-cangaceiro se recusou, sistematicamente, a recebê-los.

Antônio Silvino passou vinte e três anos, 2 meses e 18 dias recluso. Mas, após esse período, recebeu um indulto do Presidente Getúlio Vargas. Na época, ele declarou:

          “Minha vida todo mundo conhece. Vinte e três anos de reclusão alteraram o meu destino. Mas, diga lá fora, que eu nunca roubei, nem desonrei ninguém, e, se matei alguma pessoa, foi em defesa própria, evitando cair nas mãos de inimigos”.

Saiu feliz da vida da prisão, como um passarinho que escapou da gaiola. Tinha 62 anos de idade.

Liberto, ele decidiu andar pela rua Nova, olhar as vitrines, ir até à Sorveteria Pilar, conhecer a praia de Boa Viagem, admirar Recife e Olinda. Chegou, inclusive, a conhecer o Rio de Janeiro e o Presidente Vargas.

Desejando se estabelecer no interior do Estado, Antônio Silvino resolveu mandar uma carta para José Américo de Almeida, um político de renome na Paraíba, solicitando-lhe um emprego, por conta dos “seus serviços prestados ao Nordeste“. Mas, o escritor e político jamais lhe respondeu a carta.

O ex-detento viaja para o sertão da Paraíba. Ficou vagando de cidade em cidade, se hospedando nas casas de alguns amigos antigos, porém jamais obteve recursos financeiros para comprar a tão sonhada pequena propriedade e dedicar-se de corpo e alma à agricultura.

Terminou indo viver com uma prima, Teodulina Alves Cavalcanti, que morava com o seu esposo em uma casa modesta na rua Arrojado Lisboa, em Campina Grande, na Paraíba.

Considerando-se que Antônio Silvino permaneceu vinte anos arriscando a vida e enfrentando o perigo no cotidiano, é possível afirmar que o ex-cangaceiro teve uma vida longa. Lampião, por exemplo, foi morto em Sergipe no ano de 1938, aos 41 anos de idade. Na ocasião de sua morte, Antônio Silvino estava cumprindo a sua pena e, quando indagado acerca do ocorrido, ele declarou:

          “Não me causou admiração porque a vida é incerta, mas a morte é certa. Não me interessam mais esses assuntos de cangaço, pois sou um homem regenerado. Só quero, agora, descanso na minha velhice”.


Do perigoso cangaceiro que fora no passado, ele era hoje um homem idoso, mas que possuía uma mente esclarecida e respondia bem à todas as perguntas que lhe faziam. Dele, foi esse depoimento:

          “Nunca tive medo de morrer em pé, quando campeava pelo Nordeste, mas, agora, deitado, não quero morrer, se bem que não tenha medo do inferno, pois se para lá for, disputarei um lugar de chefe, um posto de comando qualquer. Pro céu é que eu não quero ir, pois, ao que me consta, lá não há campo pra luta, nem lugar para Capitão de mato como sempre fui. Quero viver mais um pouco, mesmo com esta agonia que estou sentindo, com esta falta de ar, com esta falta de conforto”.

E acrescentou:

          “A justiça dos homens me condenou. A justiça da Revolução de 30 me absolveu, dando-me liberdade. A doença agora me prende e eu tenho que aguardar o pronunciamento da justiça de Deus. É ela maior de que todas as justiças da terra”.

Antônio Silvino teve oito filhos: José, Manoel, José Batista, José Morais, Severino, Severina, Isaura e Damiana. Ele morreu na casa de sua prima Teodulina, no dia 30 de julho de 1944. Ao lado de uma multidão de curiosos, procurando vê-lo pela última vez, o ex-cangaceiro foi enterrado no Cemitério de Campina Grande. Uma senhora idosa depositou uma coroa de flores sobre a sua sepultura e, uma jovem, um cacho de angélicas e cravos

Passados dois anos e meio do seu falecimento, nenhum familiar apareceu para a retirada dos ossos de Antônio Silvino. Sem alternativa, os coveiros enterram os restos mortais em um outro lugar do cemitério. Hoje, não se sabe mais aonde.

O que sobrou do Capitão Antônio Silvino, do célebre Rifle de Ouro, se perdeu, em meio a tantas outras ossadas que nunca foram reclamadas. A sua fama, no entanto, registrada pelos poetas populares em literatura de cordel e, por muitos intelectuais, em vários livros e periódicos, permanece viva e intacta em todo o Brasil.

 Recife, 14 de novembro de 2003.(Texto atualizado em 14 de setembro de 2007).(Atualizado em 02 de dezembro de 2016).   FONTES CONSULTADAS: Antônio Silvino [Foto neste texto]. Disponível em:<http://tokdehistoria.com.br/2011/12/04/a-saga-do-cangaceiro-rio-preto/>. Acesso em: 02 dez. 2016. BARBOSA, Severino. Antônio Silvino o rifle de ouro: vida, combates, prisão e morte do mais famoso cangaceiro do sertão. Recife: CEPE, 1997. FERNANDES, Raul. Antônio Silvino no RN. Natal: CLIMA, 1990. MELO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurich: Stahli, 1993. MOURA, Severino Rodrigues de. Antônio Silvino. Revista de História Municipal, Recife, n. 7, p.139-142, ago. 1997. PORTO, Costa. Os tempos da República Velha. Recife: Fundarpe, 1986. (Coleção pernambucana 2ª fase, v. 26). Edição conjunta de Os tempos de Barbosa Lima, Os tempos de Rosa e Silva, Os tempos de Dantas Barreto  e Os tempos de Estácio Coimbra.  COMO CITAR ESTE TEXTO: Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Antônio Silvino. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

DOM PEDRO II EM ESCADA|PE


Escada completa 160 anos da visita de Dom Pedro II

No próximo dia 21 de dezembro(em 2019) serão completados 160 anos da visita do Imperador Dom Pedro II ano município de Escada. Documentos indicam que Dom Pedro e comitiva hospedaram-se na casa grande do Engenho Matapiruma.

Escada ainda se encontrava na condição de Vila. No entanto, segundo Samuel Campelo, era considerado naquela época o município do interior com maior saliência e importância econômica.

De acordo com Minduca (2008), Matapiruma era uma das residências do Barão de Suassuna. Ainda de acordo com Campelo (1919), a vinda do Imperador Dom Pedro II para Escada se deu em razão da 2ª Conferência do Centro Republicano de Pernambuco, que aconteceu no Sítio da Pompéia, no bairro do Atalaia. Escritos afirmam que o encontro tratou da Proclamação da República, que aconteceria somente trinta anos depois, em 1889.

As informações estão publicadas no artigo do professor de música, Dimison Cesar, na VI Antologia da Academia Escadense de Letras-AELE, lançada em dezembro de 2018.

FONTE: Prefeitura da Escada