TRAUMAS DA II GUERRA MUNDIAL


TRAUMA E SAUDADES: AS CARTAS DE SOLDADOS DA SEGUNDA GUERRA ENCONTRADAS EM UM HOTEL

“Você está sempre em meus pensamentos, noite e dia”, dizia uma carta escrita há 80 anos e encontrada no mês de fevereiro

GIOVANNA GOMES, SOB SUPERVISÃO DE THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 20/05/2021, ÀS 12H39

Segunda Guerra Mundial foi o conflito bélico de maior escala em toda história da humanidade. Durante o período, milhões de pessoas morreram, parte delas em combate, outras em suas próprias casas atingidas por bombas atômicas, além de uma multidão que, cruelmente, acabou sendo enviada para campos de extermínio.

Não há dúvidas, tanto entre os historiadores quanto entre os leigos, de que, nesse cenário de horror e atrocidades, o sofrimento foi companheiro inseparável daqueles que viveram a época. Esse sentimento foi expresso em uma serie de documentos, possibilitando que, mais tarde, fosse revelado a outras pessoas.

Cartas encontradas neste ano, por exemplo, nos mostram o sofrimento de alguns sodados em razão de estarem distantes de suas amadas e pela incerteza de se um dia poderiam encontrá-las novamente.Carta de amor encontrada este ano / Crédito: Divulgação/Scarborough Archaeological and Historical Society (SAHS)

Em uma delas, um combatente se queixa de uma infecção na gengiva e, mais para frente, declara seu amor pela namorada: “Você está sempre em meus pensamentos, noite e dia”. O documento manuscrito de oito décadas atrás foi encontrado sob o assoalho de um hotel localizado à beira de Scarborough, na Inglaterra, conforme informou a revista Galileu.

Sob o assoalho, registros de saudade e solidão

Esta e outras cartas foram encontradas por uma equipe de trabalhadores que reformavam o Hotel Esplanade, no mês de fevereiro deste ano. Também outros objetos como maços de cigarro e embalagens de chocolate da época da Segunda Guerra Mundial foram deixados pelos combatentes que por lá se instalaram.

Segundo a Scarborough Archaeological and Historical Society (SAHS), instituição que analisou os itens históricos, os objetos datam do período entre 1941 e 1944.

Em uma das correspondências um soldado relata seu anseio pela volta para casa: “O tempo não parece passar tão rápido aqui, os dias se arrastam e suponho que voarão quando eu voltar para casa”.Embalagens de chocolate e maços de cigarro também foram encontrados no local / Crédito: Divulgação/Scarborough Archaeological and Historical Society (SAHS)

Solitário e tomado pela saudade ele prossegue: “Oh, querida, estou tão sozinho sem você. […] Onde quer que você vá, minha querida, nunca se esqueça de que eu te amo mais do que qualquer outra coisa na Terra”.

O horror da guerra sob olhar do soldado

Mas as correspondências mais do que revelarem sentimentos de amor e saudade também contém relatos de medo e traumas, a exemplo de um soldado que preferia lançar “bombas vazias” a “tentar enfiar uma baioneta em alguém”.

A historiadora responsável pelo SAHS, Marie Woods, declarou ao Yorkshire Post,  que essa foi, de longe, “a coisa mais dolorosa” que ela leu entre todos os escritos encontrados no Esplanade e ressaltou que esses registros “ajudam a nos colocarmos no lugar desses combatentes”.

Por mais que a teoria ainda não tenha sido confirmada, existe uma grande possibilidade de que um dos autores desses antigos escritos tenha sido identificado.Carta de um combatente / Crédito: Divulgação/Scarborough Archaeological and Historical Society (SAHS)

Segundo a SAHS, a suspeita é que o britânico John McConell tenha sido um desses soldados. Este forte candidato foi descoberto após os pesquisadores terem compartilhado cópias dos documentos em sua página no Facebook. Um conhecido da família do possível remetente viu a publicação e entrou em contato com a instituição por e-mail.

James e Jessie McConell tinham um filho chamado John, que estava na RAF e que infelizmente morreu em um acidente de avião em 1943, aos 19 anos”, disse Woods ao jornal. “Achamos que as cartas podem ter vindo dele e foram escritas para uma namorada enquanto ele estava no hotel”. 

Em publicação no Facebook, a historiadora declarou estar interessada em descobrir um pouco mais sobre a vida daquelas pessoas. “Seria realmente maravilhoso se, por algum milagre, pudéssemos descobrir mais sobre esses namorados do tempo de guerra e suas vidas após a guerra”, escreveu a profissional

Fonte: Aventuras na História

CHINA NA AMÉRICA ANTES DE COLOMBO


Descoberta das Américas: como a China poderia chegado ao continente sete décadas antes de Colombo

  • Vinícius Mendes
  • De São Paulo para a BBC News Brasil
Navio chinês no mar, com serra atrás
Legenda da foto,A possibilidade de que os chineses tenham chegado à America sempre ficou às margens nos livros de história

“Quando Cristóvão Colombo se lançou à travessia dos grandes espaços vazios a oeste da Ecúmena (área habitável da Terra), havia aceitado o desafio das lendas. (….) O mundo era o Mar Mediterrâneo com suas costas ambíguas: Europa, África, Ásia. Os navegantes portugueses asseguravam que os ventos do oeste traziam cadáveres estranhos e às vezes arrastavam troncos curiosamente talhados, mas ninguém suspeitava que o mundo seria, logo, assombrosamente acrescido por uma vasta terra nova”. É assim que o uruguaio Eduardo Galeano começa seu clássico As Veias Abertas da América Latina, livro publicado em 1971 que narra a história da região e seu lugar no mundo.

O escritor, assim como toda a historiografia ocidental, parte da primeira viagem do navegador genovês — entre o porto de Palos, na região da Andaluzia, na Espanha, e a ‘Isla de Guanahaní’ (atual Bahamas), onde sua frota desembarcou na manhã do dia 12 de outubro de 1492 — para contar sobre o primeiro encontro entre aqueles que já habitavam as ilhas do Caribe e exploradores vindos de outras partes do planeta.

O encontro é narrado a partir de Colombo em coletâneas respeitadas, como na História da América Latina organizada pelo historiador britânico Leslie Bethell ou nos volumes de Historia de la Conquista, escritos pelo americano William Prescott na primeira metade do século 18. Com isso, possibilidades alternativas — como a de que os vikings da Groelândia teriam assentado colônias no litoral do Canadá ou de que a “grande terra, fértil e de clima delicioso” supostamente encontrada (e descrita) por um capitão fenício do outro lado do oceano por volta de 500 a. C. era a América — ficaram sempre às margens.

Aquele contato inédito marcaria o início de toda a história da invasão europeia e da posterior colonização dos territórios e povos existentes deste lado do globo e seria também o marco inaugural de uma narrativa hegemônica até hoje em torno de uma “descoberta da América” pela Europa.PUBLICIDADEhttps://d5b7226280d4287e41acb71b50e027bc.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

ilustração de navio chines
Legenda da foto,China foi tecnologicamente mais avançada que a Europa durante séculos

A ‘descoberta’ chinesa

Há quase duas décadas, no entanto, uma história alternativa da “descoberta” das Américas se espalhou: a de que, ao contrário do consenso historiográfico, frotas encabeçadas por dois almirantes chineses, Zhou Man e Hong Bao, haviam navegado da África até a foz do Rio Orenoco, na atual Venezuela, descendo depois por toda a costa do continente até o do Estreito de Magalhães, ao sul da América do Sul, ainda no ano de 1421 — portanto, 71 anos antes da viagem de Cristóvão Colombo. Eles tinham sido treinados e eram liderados pelo grande navegador chinês daquela época: o eunuco muçulmano Zheng He.

Agora, essas figuras históricas estão sendo evocadas pela alta cúpula do governo chinês, para reafirmar as pretensões globais da potência asiática.

A tese da “descoberta” chinesa, cujas versões já existiam antes, ficou famosa por meio de dois best-sellers escritos pelo ex-comandante da Marinha britânica Gavin Menzies no começo dos anos 2000: 1421: o ano em que a China descobriu o mundo (Bertrand, 2006) e Who Discovered America? The Untold History of the Peopling of the Americas (“Quem descobriu a América? A história oculta da ocupação das Américas”, sem tradução).

Apesar da tese ser fortemente criticada por alguns historiadores pelo trato pouco ortodoxo com as provas históricas, a discussão permanece em aberto entre especialistas do mundo todo. Alguns deles afirmam hoje que, ainda que os chineses não tenham, de fato, navegado pela costa americana antes de Colombo, é possível dizer que eles reuniam meios para fazê-lo.

“Tecnologicamente falando, a China tinha condições de chegar às Américas ou outras terras, e até não podemos descartar que isso tenha acontecido. Muitos navegadores podem ter chegado nelas e morrido no regresso ou sequer ter feito registros das descobertas. No entanto, a questão é que a tecnologia sozinha não responde essa pergunta”, explica Rita Feodrippe, pesquisadora da Escola Naval de Guerra e estudiosa da marinha chinesa.

“Os europeus saíram para explorar o Atlântico porque o Mediterrâneo estava fechado e eles precisavam encontrar novos mercados. A China, ao contrário, tinha um comércio terrestre muito bem estabelecido com a África, com o que hoje chamamos o Oriente Médio e mesmo com a Europa. Como já havia um relativo sucesso comercial, econômico, cultural e migratório, não haveria necessidade de buscar novas terras — mesmo com a tecnologia disponível”, completa.

Marinheiros chineses a bordo de navio
Legenda da foto,Hoje a China tenta ampliar sua influência no mundo através de investimentos em infraestrutura

Para Vitor Ido, pesquisador do South Centre, em Genebra, na Suíça, a reação à possibilidade de Colombo não ter sido o primeiro a navegar pelo continente americano também diz muito sobre a hegemonia da narrativa europeia. “Quais são as razões que parecem tornar até inconcebível para a maioria de nós o reconhecimento de que a China poderia ter uma superioridade tecnológica em relação aos europeus naquele período? Essa pergunta mostra nossa maneira de pensar a história”, questiona ele.

O livro polêmico de Gavin Menzies

Menzies, que morreu há cinco meses ainda em meio às críticas dos historiadores, sustentava que, no começo do século 15, por volta de 1403, o imperador chinês Yongle (terceiro da Dinastia Ming) deu a Zheng He a missão de executar a maior volta ao redor do globo que já fora feita até então. O objetivo era ir “até o fim do mundo coletar tributos dos bárbaros espalhados pelo mar”.

Ele deveria treinar navegadores para saírem pelos oceanos enquanto, em paralelo, centenas de ba chuan, navios de dimensões nunca vistas, eram construídos pelo império. Foram eles que, nos anos seguintes, empreenderam seis viagens pelo planeta travando contatos com povos distintos e alcançando terras cujas existências eram desconhecidas. O único lugar ausente do trajeto foi a Europa. As navegações teriam continuado se, em 1424, Zhu Di não tivesse morrido, interrompendo o projeto de expansão e o contato com outras civilizações — uma sétima viagem aconteceria em 1433, depois da sua morte, e uma oitava frota chegou a partir depois, mas sem alcançar mar aberto.

Menzies diz no livro que, ao longo das outras viagens daquele mesmo período, almirantes liderados por Zheng He também pisaram no que hoje é a Austrália — 350 anos antes da expedição britânica liderada pelo capitão James Cook, que chegou à praia de Kamay Botany Bay (hoje um parque nacional em Sydney) em abril de 1770.

Como a maioria dos mapas originais chineses foram destruídos por oficiais do império anos após a morte de Zhu Di, os que restaram apresentam apenas viagens menores feitas à Índia e às outras ilhas do Sudeste Asiático, por exemplo. Os desenhos referentes aos anos de 1421 e 1423 — quando os barcos de Zheng He teriam ido mais longe — podem ser acessados agora, de acordo com Menzies, apenas por meio de reproduções, como uma encontrada por ele. Feita pelo cartógrafo veneziano Zuane Pizzigano, a reprodução mostra as ilhas de Guadalupe e de Cuba, as costas americanas, a Austrália e até a Antártica — e que provavelmente foi usada pelo próprio Colombo para chegar às Antilhas, diz Menzies.

Décadas depois, em 1512, o cartógrafo turco Piri Reis projetou o mapa-mundi incluindo não apenas as Américas, mas detalhando o terreno da Patagônia, ao sul do continente. Ele só foi possível, segundo Menzies, pelas informações obtidas décadas antes pelos chineses e já espalhadas pelos territórios da Ásia.

Nessas viagens ausentes dos registros originais, os navios liderados por Zheng He teriam cruzado o Cabo da Boa Esperança antes de Bartolomeu Dias, passado por Cabo Verde, na África, pelas ilhas dos Açores, hoje território português, pelas Bahamas (Caribe) e pelas Malvinas. Ele teria inclusive estabelecido algumas colônias onde hoje são a Austrália, a Nova Zelândia, a Califórnia, a ilha de Porto Rico (EUA) e o México — para onde teria levado os primeiros cavalos. Além disso, supostamente essas colônias foram pioneiras no cultivo de galinhas na América do Sul e na criação de um comércio de diamantes encontrados na Amazônia com o restante do mundo.

Os livros do ex-comandante naval são questionados principalmente pela fragilidade metodológica. “As conclusões extraordinárias do autor são validadas apenas por suas experiências pessoais e pelo relato que ele traz de sua luta para chegar a elas. Esse método é o que torna possível atrair tantos leitores que, de outra maneira, jamais abririam um livro de 500 páginas cujo assunto são os empreendimentos marítimos chineses e a exploração europeia”, diz Robert Finlay, professor emérito de História Mundial da Universidade de Arkansas, nos EUA.

Há ainda críticas às provas utilizadas por ele: em uma extensa análise da obra de Gavin Menzies, o historiador e oficial da Marinha portuguesa, José Manuel Malhão Pereira, e o professor Jin Guoping, especialista em relações lusitanas na China, apontam incoerências que vão das correntes de ventos às coordenadas astronômicas usadas pelos almirantes chineses, passando por erros graves de análise cartográfica — o mapa de Piri Reis, por exemplo, descreve ilhas da África, não do Caribe. Segundo eles, o autor dos best-sellers não apenas tentou “enganar os leitores” como deturpou diversas provas históricas para construir sua argumentação.

Mas há reações ainda menos amistosas, como a de um professor de Cingapura que, na ocasião da “Exibição 1421”, organizada na marina da cidade-Estado em 2005 pelo próprio Menzies a convite do governo local, chamou o livro de “lixo”.

Um mapa antigo

A tese de que os chineses chegaram às Américas antes de Colombo, no entanto, nunca morreu: em 2006, um advogado chinês chamado Liu Gang afirmou à imprensa internacional que tinha encontrado um objeto que a comprovava: um mapa com os cinco continentes do planeta feito em 1763, mas com uma anotação no verso dizendo ser uma reprodução de outro mapa de 1418. O mapa foi comprado por um valor irrisório em uma livraria de Xangai anos antes e Gang dizia que passara aquele tempo estudando a cartografia com outros especialistas. Ele chegou a uma conclusão parecida como a de Menzies: “A informação contida no mapa pode mudar a história”, disse Gang.

Em 2014, outra evidência das descobertas marítimas chinesas surgiu: durante uma expedição à remota ilha de Elcho, na Austrália, uma equipe de arqueólogos do país encontrou uma moeda da Dinastia Qing prensada entre os anos 1735 e 1795. À época, Mike Owen, chefe do trabalho de escavação, chegou a dizer que o objeto aumentava os já fortes indícios de que chineses haviam feito contato com aborígenes da região antes de Cook.

Para Júlia Rosa, que fez mestrado em Estudos Chineses Contemporâneos na Universidade de Renmin, em Pequim, e é cofundadora da plataforma Shūmiàn, a grande questão desse debate também gira em torno das possibilidades chinesas no período.

“Por um lado, a dinastia estava envolvida em projetos de expansão e de exploração de novos mercados para comércio e, por outro, tinha tecnologia para isso, já que a literatura afirma que os navios chineses daquela época eram melhores que os italianos. Assim, se eles soubessem que poderia haver uma terra desconhecida do outro lado do mundo, é possível que teriam tentado alcançá-la”, explica.

“Além disso, há certo consenso de que a China era mais avançada do que a Europa tecnologicamente até o século 14 aproximadamente”, completa.

Rita Feodrippe argumenta que, de fato, a indústria naval da China era uma das mais avançadas do mundo até antes do século 15. “Há muitas fontes históricas que mostram que a China chegou ao século 15 com programas e políticas específicas para seu desenvolvimento naval a nível local, isto é, queria navegar pelo oceano Pacífico e fazer trocas comerciais com os povos do Sudeste Asiático”, explica ela.

Marinheiro chinês
Legenda da foto,Nome de Zheng He foi resgato no momento em que a China busca criar a maior Armada do mundo

O ‘retorno’ de Zheng He

Há três anos, o nome de Zheng He voltou a sair da boca de um governante chinês: foi durante o discurso de abertura do atual presidente, Xi Jinping, no primeiro Belt and Road Forum (BRF) — evento em que delegados de mais de uma centena de países se reuniram em Pequim em 2017 para discutir projetos de infraestrutura financiados pela China pelo mundo.

Na ocasião, Xi Jinping afirmou que Zheng He foi um dos “pioneiros chineses que entraram para a história não como conquistadores, com navios de guerra, armas ou espadas. Ao contrário, eles são lembrados como emissários amigáveis em caravanas de camelos e navegando em navios repletos de tesouros. De geração a geração, esses viajantes das rotas da seda construíram uma ponte para a paz e cooperação entre o Ocidente e o Oriente”.

Segundo Júlia Rosa, a menção do presidente chinês não foi trivial: em um contexto de disputa geopolítica e de reafirmação no cenário global, com a construção de portos e estradas em países da África, da Ásia e da América Latina, o navegador do século 15 coloca uma das dinastias mais gloriosas da história da China em diálogo com as pretensões atuais do Partido Comunista — que governa o país desde a metade do século 20.

“Como na dinastia Ming havia uma participação intensa da China para além do seu território, não necessariamente em conflitos bélicos, mas em trocas comerciais com seus vizinhos. Zheng He é alçado como a figura que ilustra as pretensões da China de hoje: se engajar com outras populações por meio de trocas positivas, de ganhos mútuos, de comércio pacífico”, explica.

“Assim, Zheng He é um exemplo usado para dizer que a China já realiza esse tipo de contato com outros povos há muito tempo”, completa Rosa.

Vitor Ido, do South Centre, conta que a retomada de símbolos nacionais, como Zheng He, também faz parte de outra ambição chinesa. “O país tem feito isso também com Confúcio, por meio do Instituto Confúcio, para expandir o chamamos de soft power, mesmo que o governo tenha uma interpretação muito específica do confucionismo, assim como da história do Zheng He. Esse processo todo, de qualquer forma, me parece muito importante na China contemporânea”.

Para Rita Feodrippe, o navegador chinês é o símbolo perfeito de um país que, nas geopolítica atual, enxerga no mar o principal caminho para seu desenvolvimento econômico.

“Desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, houve uma ressignificação do mar. Eles não queriam depender de empresas de navegação ou usar rotas marítimas que são controladas financeiramente por potências ocidentais e, para isso, desenvolvem toda uma indústria naval e seu entorno para garantir o principal: importar e exportar muito e da forma mais barata possível. A associação com Zheng He está aí: era um chefe naval que liderava embarcações com capacidade para levar grandes mercadorias, mas não exércitos, para outros lugares do mundo”, analisa.

1968: UMA MAIO QUE VALEU POR TODA UMA HISTÓRIA


Em Maio de 1968, eu era exilado político em França e tive oportunidade, como milhares e milhares de outros jovens estudantes e trabalhadores, de participar no movimento parisiense como “militante de base”», sem partido. Assim acontecia com a esmagadora maioria dos que se juntaram ao movimento. Essas semanas de Maio representam muito mais do que uma memória: são como um sentimento vital. Como uma grande revolução cultural que foi, o Maio de 1968 foi também político, mas só no sentido em que, para os participantes, a política não era algo de separado do quotidiano de cada um. Fazia parte da vida de todos.

Essa massa de participantes não visava, porém, o poder. É impossível saber se conseguiriam conquistá-lo; provavelmente não; mas não só nunca fizeram menção disso como, quando lhes foi acenada uma alternativa partidária, no comício de 27 de Maio no Estádio da Cidade Universitária, com a presença de políticos profissionais como Pierre Mendès-France e François Mitterrand, recusaram-na taxativamente pela voz de Daniel Cohn-Bendit, iniciando o processo de refluxo ao mesmo tempo que deixava, até hoje, o seu testemunho e o seu rasto.

Foi essa a radical inocência de Maio de 1968 como acontecimento irrepetível. Foram esses o seu êxito e o seu limite simultâneos, como o momento mais alto de uma vaga de assalto internacional anti-autoritária começada nos campos universitários norte-americanos em protesto contra a guerra do Viet-Nam e que deu a volta ao mundo até ao Japão, passando pela tentativa frustrada da Checoslováquia para se libertar do jugo soviético no fim do Verão de ’68, e que se prolongou, como vagas de um oceano intranquilo, em Itália a partir de ’69 com uma configuração pós-marxista que ainda hoje se manifesta, e chegou até ao Portugal salazarista e colonialista nas paredes da Escola de Belas Artes de Lisboa cobertas de cartazes inéditos no Outono de ’69…

Os participantes do movimento não queriam o poder político mas nem por isso – ou talvez por isso – deixaram de mudar a sociedade. E não o queriam porque a natureza do movimento era, antes de mais, anti-autoritária. Essa vaga teve por suporte o prolongado crescimento econômico do pós-guerra articulado com as guerras de libertação colonial, iniciando-se, como disse, nos Estados Unidos, o país mais avançado do mundo, mas cujas estruturas culturais tinham ficado aquém da evolução social, do mesmo modo que as da França do General De Gaulle. Neste sentido, o movimento foi e permanece “absolutamente moderno”, para usar a frase de Rimbaud, representando uma atualização dos quadros mentais das sociedades mais desenvolvidas de então. Aquilo a que se pode chamar uma auto-presentificação da sociedade.

É a contestação de todos poderes autoritários, desde a família e a escola à política e à guerra, que une estudantes e jovens trabalhadores que, ao começarem a ocupar espontaneamente as fábricas depois dos acontecimentos de Nanterre e de Paris (Sorbonne), forçaram o Partido Comunista e a sua central sindical a paralisar a França durante três semanas, criando assim uma “estrutura de oportunidade” para o alastramento da vaga anti-autoritária ao resto da Europa e ao Oriente, acabando por abalar de forma ainda maior os regimes ditatoriais, como a Checoslováquia e a Polónia, do que os liberais. Embora nos antípodas da modernidade de Maio, até a chamada “revolução cultural chinesa” e os “movimentos de libertação” do Terceiro-Mundo convergiram para aprofundar as fissuras entre as elites mundiais dominantes.

Os pensadores desta vaga de contestação encontravam-se na margem da filosofia e das ciências sociais da época: Herbert Marcuse e Jean Baudrillard, com as suas denúncias da «sociedade de consumo»; o antigo grupo de “Socialisme ou Barbarie” (Castoriadis, Lefort, Lyotard), com a sua crítica às burocracias e ao “socialismo real”; o subverviso Guy Debord, com o seu desvendamento da “sociedade do espetáculo”; sem esquecer os filmes premonitórios de Jean-Luc Godard: Weekend e La chinoise, ambos realizados em 1967, fazendo da arte política sem ideologia. Cinquenta anos depois, tanto o consumo como os “media” e as tecnologias se sofisticaram ao infinito, alimentando agora o arco imenso das indústrias criativas, mas os dispositivos autoritários cederam o lugar ao pluralismo cultural e à tolerância de costumes. O chamado “politicamente correto” que hoje nos constrange mais não é do que uma tardia manifestação do desejo de libertação expresso então pelo movimento.

Com todos os outros temas do movimento sucedeu o mesmo. A retórica espontaneísta do «contra» deixou marcas profundas e a paisagem humana e social de hoje seria bem diferente e bem mais baça sem ela: contra o Estado e os seus mecanismos de enquadramento; contra a família convencional e o recalcamento sexual; contra o racismo e a subordinação das mulheres e crianças; contra a escola disciplinadora e reprodutora de desigualdades; contra o trabalho penoso e o consumo alienante, etc. Tudo isto é culturalmente irreversível, tendo sido absorvido e massificado até ao limite do actual relativismo ante a falência das crenças autoritárias. É este o legado de Maio de ’68 mesmo para quem não o saiba!


Artigo publicado originalmente no periódico português Observador, em 2/5/2018.

Autor(a)

  • Manuel Villaverde CabralCientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.

LIVRO DOS HUMANOS


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Descrição

Este manuscrito anônimo pode ser datado entre a segunda metade do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, graças a uma marca d’água impressa sobre o papel, de origem inglesa ou holandesa. O manuscrito provavelmente é uma cópia de uma obra anterior. O texto é, em parte, um tratado sobre o corpo humano e sobre como manter uma boa saúde. Ele explica que o corpo é composto de elementos químicos e lida com medicações, nutrição e doenças de várias partes do corpo. Além de tais considerações práticas, o trabalho discute questões de física e fisiologia geral. A estrutura teórica é típica da fisiologia islâmica medieval, na qual o ser humano é visto como um composto de jasad jismānī (o corpo material) e de nafs ruḥānī (a alma espiritual). A teoria aristotélica dos quatro elementos, constituintes básicos do mundo sublunar, é explicada em grandes detalhes e é ligada a ideias tradicionais a respeito dos quatro humores (bílis negra, bílis amarela, fleuma e sangue) no corpo humano. Esta obra também lida com outras questões filosóficas relativas aos traços característicos dos seres humanos. Ele inclui uma discussão sobre as três faculdades — animal, vegetal e mineral — encarnadas nos seres humanos. O autor cita Al-qanūn fī al-ṭibb (O cânone da medicina), de Abū ‘Alī al-Ḥusayn ibn ‘Abd Allāh ibn Sīnā (980 a 1037), comumente chamado de Avicena, um dos textos médicos mais amplamente lidos na Idade Média. De uma forma surpreendente, ele também se refere a Balīnas, o nome árabe sob o qual as obras originais e pseudo-epigráficas de Apolônio de Tiana circulavam. A obra fornece um resumo vivaz e uma boa visão geral sobre os conceitos fisiológicos e físicos que deram forma à teoria e à prática médica árabe na Idade Média.

FONTE: BIBLIOTECA DIGITAL MUNDIAL

FASCISMO NA FRANÇA | PROF. DR. YVES TOURNEUR