3 ANOS SEM MARIELLE FRANCO. QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?


CASO MARIELLE


CASO MARIELLE

Marielle Franco recebe homenagens na Itália e Suíça três anos após assassinato

Divulgação/Globo
Imagem: Divulgação/Globo

Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça

14/03/2021 05h50

Com o passar do tempo, o nome de Marielle Franco ganha cada vez mais força fora do Brasil. Exatos três anos após o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018, Marielle é lembrada na Itália, onde dará nome ao terraço de uma biblioteca, e na Suíça, que terá mais um ato em sua memória. Três anos já se passaram, mas os mandantes do crime ainda não foram identificados.null

A RFI conversou com a professora Ana Luiza Oliveira de Souza, fundadora da Casa do Brasil em Florença, instituição que promove a língua portuguesa e a cultura brasileira na região da Toscana. Foi a Casa do Brasil que pediu à prefeitura local que o nome de Marielle Franco fosse dado a algum lugar da cidade.

“Nós mandamos uma carta para a Prefeitura de Florença junto com o sindicato aqui da cidade, o CGIL de Florença. Entramos em contato com esse sindicato porque sabíamos da ligação que eles tinham com o Brasil. Era março de 2019. Naquela ocasião, a prefeitura buscava nomes de mulheres para poder nomear praças, ruas e outros lugares da cidade”, diz Ana Luiza, explicando como tudo começou.

Dois anos depois daquele pedido, um espaço dedicado a Marielle, que já é homenageada com um jardim em Paris, na França, será inaugurado em Florença, na Itália.null

“É um espaço maravilhoso. O terraço que terá o nome da Marielle Franco é o da biblioteca delle Oblate, uma biblioteca municipal. Florença tem várias bibliotecas e as mais importantes são a Nacional e a Municipal. E essa tem seu terraço com uma vista magnífica para a cúpula da Catedral de Florença, Santa Maria del Fiore, a cúpula de Brunelleschi. É um símbolo mesmo ter o nome de uma brasileira que lutava pelos direitos humanos, ter o nome de Marielle Franco no terraço da Biblioteca delle Oblate, que é um símbolo da cidade”.

A professora conta que há sempre pelo terraço muitos jovens lendo, tomando café. “É muito, muito bonito e muito simbólico como espaço para ser doado ao nome de Marielle Franco”.

A inauguração do espaço, com direito a placa com o nome da vereadora, seguido pelas datas de nascimento e morte e a inscrição “ativista pelos direitos humanos”, em italiano, irá ocorrer nesta segunda-feira (15), às 11h pelo horário local. Representantes da cidade de Florença, da Casa do Brasil e do sindicato, assim como a cônsul honorária do Brasil em Florença, devem estar presentes.null

Quem mandou matar Marielle?

Já na Suíça, é um ato em frente à ONU que vai marcar os três anos do assassinato da vereadora. A ativista pelos direitos humanos Angela Wiebusch de Faria, que representa o comitê Internacional Lula Livre de Genebra.

“O comitê vai realizar um ato simbólico em memória de Marielle Franco, que foi assassinada brutalmente três anos atrás na cidade do Rio de Janeiro. Esse ato tem um significado muito grande para manter viva a memória e o legado dela”, explicou Angela Wiebusch de Faria à RFI.

“Nós estaremos hoje [domingo], às 15h, em frente à ONU, na Praça das Nações Unidas, nosso tradicional ponto de manifestações e de encontros. Seguimos na denúncia e pedindo justiça por Marielle, porque até o momento esse crime não foi elucidado. Quem mandou matar Marielle? Seguimos com Marielle Presente”, diz.

Por já ser a quarta manifestação realizada em Genebra desde 2018, quando Marielle foi morta no Brasil, a RFI perguntou à ativista por que ela considera importante esse tipo de mobilização.null

“Foi um crime político que chocou o mundo. Então, enquanto não houver justiça por Marielle, nós não vamos parar de nos manifestar. Essa é a nossa mensagem. Essse crime também está sendo, em nível internacional, acompanhado por uma relatora especial da ONU. Ainda está impune, mas deve ser esclarecido o mais rápido possível para se fazer justiça para a família e pela memória em si de Marielle”, afirma.

Fonte: UOL

Extermínio de Índios no Brasil


Ditadura militar e populações Indígenas

Por Heloisa Starling

Ainda hoje sabemos muito pouco sobre os crimes cometidos pela ditadura contra as populações indígenas. O mais importante documento de denúncia sobre esses crimes – o “Relatório Figueiredo” – foi produzido pelo próprio Estado brasileiro e ficou desaparecido durante 44 anos – durante todo esse período a informação oficial era a de que o Relatório havia sido destruído em um incêndio. A alegação não procede. O Relatório foi encontrado quase intacto, por pesquisadores independentes, em 2013, com 5 mil páginas e 29 tomos – das 7 mil páginas e 30 tomos que constavam da versão original. Para escrever seu relatório, encomendado pelo general Albuquerque Lima, ministro do Interior, com o objetivo de apurar práticas de corrupção no Serviço Nacional do Índio – o órgão indigenista oficial brasileiro que antecedeu à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) –, o procurador geral Jader de Figueiredo Correia percorreu com sua equipe mais de 16 mil quilômetros, visitando 130 postos indígenas em todo o país.  

O resultado apresentado pelo procurador em seu Relatório é estarrecedor: matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades foram cometidas contra indígenas no país, principalmente pelos grandes proprietários de terras e por agentes do Estado. Figueiredo fez um trabalho de apuração impressionante: incluiu relatos de dezenas de testemunhas, apresentou documentos e identificou cada uma das violações que encontrou – assassinatos de índios, prostituição de índias, sevícias, trabalho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena. Ele também apurou as denúncias sobre a existência de caçadas humanas de indígenas feitas com metralhadoras e dinamite atiradas de aviões, as inoculações propositais de varíola em populações indígenas isoladas e as doações de açúcar misturado a estricnina.

Os militares tinham um projeto de desenvolvimento em grande escala que articulava o programa econômico concebido no IPES e as diretrizes de segurança interna desenvolvida pela ESG e que pretendia realizar a integração completa do território nacional. Isso incluía um ambicioso programa de colonização que implicava no deslocamento de quase um milhão de pessoas com o objetivo de ocupar estrategicamente a região amazônica, não deixar despovoado nenhum espaço do território nacional e tamponar a área de fronteiras. Para seu azar, as populações indígenas estavam posicionadas entre os militares e a realização do maior projeto estratégico de ocupação do território brasileiro. Pagaram um preço altíssimo em dor e quase foram exterminados por isso.

Os documentos disponíveis são: Relatório Figueiredo; vídeos.

Para saber mais

DAVIS, Shelton H. Vítimas do Milagre; o desenvolvimento e os índios do Brasil. São Paulo: Zahar, 1978;

MARTINS, Edilson. Nossos índios, nossos mortos. Rio de Janeiro: CODECRI, 1978;

HEMMING, John. Die If You Must: Brazilian Indians in the Twentieth Century. Londres: Macmillan, 2003. 03 volumes.