CÍCERO DIAS EM ESCADA|PE


Cicero dos Santos Dias (Escada, Pernambuco, 1907 – Paris, França, 2003). Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor. Transita por diferentes vertentes da pintura ao longo de sua carreira e destaca-se por ser um artista em uma busca constante por diversas formas de se expressar. 

Inicia estudos de desenho ainda em sua terra natal. Em 1920, muda-se para o Rio de Janeiro, onde se matricula, em 1925, nos cursos de arquitetura e pintura da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), mas não os conclui. Inicia a carreira artística nessa época, quando são introduzidas as tendências de vanguarda no Brasil. Liga-se aos intelectuais do movimento regionalista de 1926, que ocorre no Recife, em resposta à Semana de Arte Moderna de 22

No começo, Cicero Dias produz principalmente aquarelas, nas quais representa um universo de sonhos, inquietante. Os personagens, em escala diferente das paisagens, e também os objetos, apresentam muita leveza, frequentemente flutuam, como se observa nas telas O Sono (1928), O Sonho da Prostituta e Mulher Nadando, (ambas de 1930). São imagens que evocam o mundo do inconsciente, nas quais o erotismo é frequente. Estas são representadas com grande delicadeza no desenho e em uma gama cromática muito rica. Na opinião do crítico Antonio Bento, sua obra relaciona-se ao surrealismo e também a um imaginário fantástico nordestino, em que mitos e fábulas estão presentes nas manifestações artísticas e na literatura de cordel.

Expõe o polêmico painel Eu Vi o Mundo… Ele Começava no Recife, no Salão Revolucionário, na Enba, em 1931, do qual participam artistas de vanguarda. Com cerca de 15 metros de comprimento e produzida em papel kraft, a obra apresenta uma série de pequenas cenas, românticas e eróticas, que retomam o universo presente nas aquarelas, numa espécie de devaneio onírico, impregnado de forças misteriosas do inconsciente. O painel causa tanto furor que é censurado e tem uma parte cortada (restaurada mais tarde em Paris). Esse painel é considerado a obra-prima de Cicero Dias.

Em 1933, ilustra o livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), de quem é amigo. Em 1937, é preso no Recife quando da decretação do Estado Novo, por sua simpatia pelo Partido Comunista. Perseguido pelo regime e incentivado pelo pintor Di Cavalcanti (1897-1976), Cicero Dias viaja para Paris, onde passa a ter contato com pintores franceses como Georges Braque (1882-1963), Fernand Léger (1881-1955) e Henri Matisse (1869-1954), e torna-se amigo do pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Apesar da mudança, o tema e a técnica de seus quadros continuam ligados a Pernambuco: o artista mantém a luz e a cor de suas paisagens, como em Mulher na Janela (1939).

Em Portugal, a partir de 1943, inicia uma pesquisa comparativa entre a cultura portuguesa e a brasileira, estuda arte popular, arquitetura, escultura e pintura. Nessa época, pinta quadros que têm por motivos elementos vegetais, como Galo ou Abacaxi Mamoeiro ou Dançarino (ambos de 1940), em que tem como ponto de partida o gênero da natureza-morta, trabalhando com o ilusionismo de forma irônica. Outras de suas obras revelam o impacto causado pelo quadro Guernica (1937), de Picasso: Mulher Sentada com Espelho (1940) e Duas Figuras (1944). Também produz obras que apresentam um diálogo entre o figurativo e a abstração. Apesar do geometrismo, aparecem a vegetação, o canavial e o mar, como em Mormaço (1941) e Praia (1944). 

Retorna à França em 1945 e integra o grupo abstrato Espace, da Escola de Paris, até 1950. Pinta, em 1948, os primeiros murais abstratos da América Latina, para o então  Conselho Econômico do Estado de Pernambuco (depois chamado de Secretaria da Fazenda), no Recife. Neles, aproveita, como sempre, elementos da paisagem do Nordeste: canavial, jangadas, o vermelho dos telhados, mas submetendo-os a um processo do qual resultam formas simples e ricas de sugestões poéticas.

Após 1950, predominam os quadros abstratos, em que se destacam as formas fechadas, retangulares ou tendendo à circularidade, e a preocupação com a luz e as cores claras, em uma gama cromática evocativa da natureza nordestina, como em Composição II (1951). Para o crítico Mário Carelli (1951-1994), na abstração, o artista baseia-se em estruturas vegetais, em que as formas geométricas refletem uma cristalização perfeita, como em Meridianos ou Relações Incertas (ambos de 1953). Paralelamente aos quadros abstratos, realiza outros, de caráter lírico. Estes apresentam, em sua maioria, figuras na paisagem, com rostos sutilmente iluminados, com cores suaves e uso especial do branco, como em Casal Cena de Olinda (ambos de 1950).

Volta com maior intensidade à pintura figurativa na década de 1960. Permanecem em seus quadros o clima de sonho e os elementos recorrentes: mulheres, casarios, folhagens, e é constante a presença do mar. Usa frequentemente tons de rosa e azul. Em relação à fase figurativa do início da carreira, observa-se que a gestualidade dos personagens é contida e há mais sensualidade do que erotismo, como em Barqueiro e Moça no Barco (ambos de 1980). Recebe do governo francês a Ordem Nacional do Mérito da França, em 1998, aos 91 anos.

Cícero Dias explora diferentes vertentes em sua produção, influenciando e se deixando influenciar pelas vivências que tem ao longo de sua carreira. Nesse caminho, o artista corre o mundo sem deixar para trás suas origens, construindo uma obra diversificada e autoral.

Fonte: Itaú Cultural

1968: UMA MAIO QUE VALEU POR TODA UMA HISTÓRIA


Em Maio de 1968, eu era exilado político em França e tive oportunidade, como milhares e milhares de outros jovens estudantes e trabalhadores, de participar no movimento parisiense como “militante de base”», sem partido. Assim acontecia com a esmagadora maioria dos que se juntaram ao movimento. Essas semanas de Maio representam muito mais do que uma memória: são como um sentimento vital. Como uma grande revolução cultural que foi, o Maio de 1968 foi também político, mas só no sentido em que, para os participantes, a política não era algo de separado do quotidiano de cada um. Fazia parte da vida de todos.

Essa massa de participantes não visava, porém, o poder. É impossível saber se conseguiriam conquistá-lo; provavelmente não; mas não só nunca fizeram menção disso como, quando lhes foi acenada uma alternativa partidária, no comício de 27 de Maio no Estádio da Cidade Universitária, com a presença de políticos profissionais como Pierre Mendès-France e François Mitterrand, recusaram-na taxativamente pela voz de Daniel Cohn-Bendit, iniciando o processo de refluxo ao mesmo tempo que deixava, até hoje, o seu testemunho e o seu rasto.

Foi essa a radical inocência de Maio de 1968 como acontecimento irrepetível. Foram esses o seu êxito e o seu limite simultâneos, como o momento mais alto de uma vaga de assalto internacional anti-autoritária começada nos campos universitários norte-americanos em protesto contra a guerra do Viet-Nam e que deu a volta ao mundo até ao Japão, passando pela tentativa frustrada da Checoslováquia para se libertar do jugo soviético no fim do Verão de ’68, e que se prolongou, como vagas de um oceano intranquilo, em Itália a partir de ’69 com uma configuração pós-marxista que ainda hoje se manifesta, e chegou até ao Portugal salazarista e colonialista nas paredes da Escola de Belas Artes de Lisboa cobertas de cartazes inéditos no Outono de ’69…

Os participantes do movimento não queriam o poder político mas nem por isso – ou talvez por isso – deixaram de mudar a sociedade. E não o queriam porque a natureza do movimento era, antes de mais, anti-autoritária. Essa vaga teve por suporte o prolongado crescimento econômico do pós-guerra articulado com as guerras de libertação colonial, iniciando-se, como disse, nos Estados Unidos, o país mais avançado do mundo, mas cujas estruturas culturais tinham ficado aquém da evolução social, do mesmo modo que as da França do General De Gaulle. Neste sentido, o movimento foi e permanece “absolutamente moderno”, para usar a frase de Rimbaud, representando uma atualização dos quadros mentais das sociedades mais desenvolvidas de então. Aquilo a que se pode chamar uma auto-presentificação da sociedade.

É a contestação de todos poderes autoritários, desde a família e a escola à política e à guerra, que une estudantes e jovens trabalhadores que, ao começarem a ocupar espontaneamente as fábricas depois dos acontecimentos de Nanterre e de Paris (Sorbonne), forçaram o Partido Comunista e a sua central sindical a paralisar a França durante três semanas, criando assim uma “estrutura de oportunidade” para o alastramento da vaga anti-autoritária ao resto da Europa e ao Oriente, acabando por abalar de forma ainda maior os regimes ditatoriais, como a Checoslováquia e a Polónia, do que os liberais. Embora nos antípodas da modernidade de Maio, até a chamada “revolução cultural chinesa” e os “movimentos de libertação” do Terceiro-Mundo convergiram para aprofundar as fissuras entre as elites mundiais dominantes.

Os pensadores desta vaga de contestação encontravam-se na margem da filosofia e das ciências sociais da época: Herbert Marcuse e Jean Baudrillard, com as suas denúncias da «sociedade de consumo»; o antigo grupo de “Socialisme ou Barbarie” (Castoriadis, Lefort, Lyotard), com a sua crítica às burocracias e ao “socialismo real”; o subverviso Guy Debord, com o seu desvendamento da “sociedade do espetáculo”; sem esquecer os filmes premonitórios de Jean-Luc Godard: Weekend e La chinoise, ambos realizados em 1967, fazendo da arte política sem ideologia. Cinquenta anos depois, tanto o consumo como os “media” e as tecnologias se sofisticaram ao infinito, alimentando agora o arco imenso das indústrias criativas, mas os dispositivos autoritários cederam o lugar ao pluralismo cultural e à tolerância de costumes. O chamado “politicamente correto” que hoje nos constrange mais não é do que uma tardia manifestação do desejo de libertação expresso então pelo movimento.

Com todos os outros temas do movimento sucedeu o mesmo. A retórica espontaneísta do «contra» deixou marcas profundas e a paisagem humana e social de hoje seria bem diferente e bem mais baça sem ela: contra o Estado e os seus mecanismos de enquadramento; contra a família convencional e o recalcamento sexual; contra o racismo e a subordinação das mulheres e crianças; contra a escola disciplinadora e reprodutora de desigualdades; contra o trabalho penoso e o consumo alienante, etc. Tudo isto é culturalmente irreversível, tendo sido absorvido e massificado até ao limite do actual relativismo ante a falência das crenças autoritárias. É este o legado de Maio de ’68 mesmo para quem não o saiba!


Artigo publicado originalmente no periódico português Observador, em 2/5/2018.

Autor(a)

  • Manuel Villaverde CabralCientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.

05 de MAIO | MORTE DE NAPOLEÃO


Pintura de Napoleão Bonaparte sobre um cavalo

ARTIGO: DE QUE, AFINAL, MORREU NAPOLEÃO BONAPARTE?

Surgiram controvérsias sobre a causa da morte do famoso imperador francês, em 1821: teria sido câncer de estômago ou envenenamento?

Napoleão Bonaparte é um dos personagens mais estudados da História. Entre os mistérios que ainda cercam sua pessoa está a causa de sua morte, particularmente a suspeita de que ele foi envenenado.

Após a derrota na Batalha de Waterloo, em 1815, Napoleão foi exilado na pequena Ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreu seis anos depois. Embora seu médico pessoal, François Antommarchi, tenha declarado em seu relatório de autópsia que o câncer de estômago foi a causa de sua morte, esse diagnóstico foi contestado em 1961, porque foi achado arsênico em uma das amostras de cabelo de Napoleão, sugerindo que ele tivesse sido envenenado.

Vamos rever essa história.

Nos seus dois primeiros anos de exílio, não há relato de queixas clínicas do famoso prisioneiro, mas, nos anos seguintes, sua saúde foi piorando gradativamente. O imperador, em julho de 1820, queixou-se de desconforto abdominal, causando perda de apetite, náuseas e vômitos. Houve períodos de calmaria, mas a dor e o vômito se tornaram cada vez mais frequentes. Ele perdeu pelo menos 10 kg nos últimos seis meses de vida. No final de janeiro de 1821, ele só conseguia se alimentar de líquidos. No final de abril, vomitou sangue, e sua condição piorou com mais sangramento. Ele morreu em 5 de maio, aos 51 anos de idade.

A necropsia foi acompanhada por diversos observadores, incluindo sete médicos britânicos, dos quais cinco assinaram o relatório oficial. A superfície interna do seu estômago continha sangue e uma tumoração endurecida com mais de 10 centímetros de extensão. O estômago estava perfurado, mas havia sido selado pelo fígado. A doença havia se espalhado para os nódulos linfáticos. Os achados da necropsia demonstraram que o tumor estava em estado avançado, doença incurável naquela época.

Mas, em 1982, um exame no papel de parede da casa onde Napoleão estava exilado mostrou que ele continha arsênico e, novamente, a suspeita de sua morte por envenenamento foi especulada. No entanto, a excelente revisão liderada pelo patologista forense Alessandro Lugli, publicada em 2011, corrobora que a quantidade de arsênico detectada em seu cabelo e no papel de parede de sua última moradia não seria suficiente para causar sua morte.

O Imperador iria sucumbir por um inimigo que começou a ser vencido somente com o surgimento da patologia moderna, cujo “pai”, Rudolf Virchow, nasceu em outubro de 1821; com a primeira ressecção de estômago realizada com sucesso, em 1881; com os primeiros trabalhos científicos sobre o uso experimental da mostarda nitrogenada, usado como gás letal na Segunda Guerra Mundial, como quimioterapia no tratamento do linfoma em 1946. Até então, o arsênico e o mercúrio, numa época de uma medicina empírica, eram usados como medicamentos e tônicos.

O imperador percebeu que estava morrendo da mesma doença que seu pai e seu avô, comentando: “Eu sei a verdade e estou resignado”.

O resto é fábula.

TCBC Alfredo Guarischi.

Artigo publicado na edição online do jornal Globo – Saúde em 4/12/18.

FONTE: CBC

FASCISMO NA FRANÇA | PROF. DR. YVES TOURNEUR


INTERPRETAÇÃO MAGISTRAL SOBRE O FILME “OS MISERÁVEIS”.


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