O MILHO É MAIS BRASILEIRO DO QUE SE IMAGINAVA


Originário do México, o milho é mais brasileiro do que se imaginava

Pesquisa genética descobre que o milho só foi completamente domesticado para uso humano quando chegou aos índios da Amazônia, 6 mil anos atrás

por  FELIPE FLORESTIGlobo+

A história do milho acaba de ser reescrita. Com origem no México, a crença era que, por volta de 9 mil anos atrás, as populações locais começaram a selecionar entre as melhores plantas da versão selvagem do milho e, completado o processo de domesticação, o milho como conhecemos se espalhou por outras regiões da América do Sul.

Embora mais lógica, a versão está errada. Um grupo internacional de pesquisadores, que conta com o brasileiro Fábio Freitas, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, acaba de descobrir que a jornada do milho é muito mais complexa, e interessante, do que se imaginava.

A descoberta, porém, não foi atingida de forma fácil, e muito menos rápida. Começou ainda em meados da década de 90, quando Freitas ainda estava cursando a graduação em engenharia agronômica pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq.

“A gente foi contactado com um grupo de arqueólogos da Universidade Federal de Minas Gerais que estavam achando no norte de minas, nas Cavernas do Peruaçu, uma série de vestígios arqueológicos de plantas cultivadas, como milho, feijão e mandioca, e queriam alguém que analisasse esse material”, conta Freitas.

Com vestígios de ocupação que remetem há 10 mil anos atrás e vai até o período que coincide com a chegada dos portugueses há 500 anos, a caverna abrigava diversos vestígios de cerâmica, ferramentas de pedra, esqueletos, sepultamentos, além de grandes cestas feitas com folhas trançadas que serviam para abrigar material cultivado.

Mais abundante das espécies encontradas, o milho da caverna tinha entre 1000 e 1.500 anos. “Queríamos saber qual a relação com o México ou qual relação que tinha com outras populações. Qual o caminho que esse milho pegou para chegar ali”, conta.

Mas foi só durante seu doutorado, parcialmente realizado na Universidade de Manchester, na Inglaterra, que as primeiras respostas foram encontradas. Trabalhando com o pesquisador Robin Allaby, começaram a analisar os fragmentos do DNA encontrados nas amostras arqueológicas e comparar com amostras atuais, principalmente cultivadas em comunidades tradicionais. 

Descobriram que o milho migrou para a América do Sul durante duas levas migratórias ao longo do tempo, mas não conseguiram ir muito além nas descobertas. “Era o ano de 1999, e as ferramentas da época eram mais restritas”, revela Freitas. “Só de extrair o DNA das amostras arqueológicas já era um feito, mas você só conseguia estudar pequenas porções dele. Estudamos uma parte de um gene.”

O trabalho ficou parado durante anos, até que em 2015 a tecnologia já havia evoluído, e as análises genomas ficaram mais precisas, amplas e fáceis. “A gente viu que seria interessante resgatar esse estudo com base nas ferramentas novas”, disse. “Hoje a gente consegue estudar o genoma todo.”

Voltou a se reunir com Robin Allaby, que hoje é professor da Escola de Ciências da Vida na Universidade de Warwick, também no Reino Unido, e outros pesquisadores, que ajudaram com mais amostras. Estudos anteriores já haviam seguido caminho semelhante, mas nunca com amostras de espécies encontradas no Brasil e na Amazônia. Quando tinha algum material da América do Sul, vinham de regiões mais altas, como os Andes. “Faltava parte da história.”

Com muito mais poder tecnológico e um número muito maior de amostras de diversas partes do mundo do que na década de 1990, retomaram o trabalho para reconstruir a trajetória do milho.

A conclusão surpreendeu a todos. Afinal, a pesquisa encontrou amostras de milho de 6 mil anos atrás na região oeste da Amazônia, entre o Acre, Peru e Bolívia. Ao mesmo tempo que outras amostras arqueológicas, no México, mostram que há 5 mil anos o milho ainda não estava totalmente domesticado por lá.https://7e7e28bafead638602449350c74843fc.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html?n=0

“Se não as características de domesticação ainda não estavam fixadas por lá, então provavelmente amostras que saiam do México, começaram a ser difundidas e chegaram aqui na América do Sul, saíram de uma maneira mais crua”, revela Freitas. “Ainda estava semi-domesticado.”

Foi somente quando chegaram às mãos dos índios da Amazônia que o processo de domesticação do minho foi finalmente concluído. “É uma região onde as populações humanas já tinham a parte agrícola muito forte e outras espécies estavam passando pelo processo de domesticação, como a mandioca.”

Freitas continua: “As populações ali já estavam de olho em características interessantes das espécies. Já tinham mais de uma variedade de mandioca, umas tinham mais raiz, outra com gosto melhor, por exemplo”. “As populações humanas já estava ali com um olhar diferenciado para a seleção, e, ao terem contato com o milho, facilitou que a domesticação na região.”

O pesquisador, no entanto, fala que saber como esse milho chegou por aqui é mais difícil. Os cenários mais aceitos envolvem migrações das populações do norte para o sul, motivados por fatores como guerras, ou por meio da troca entre as diversas comunidades tradicionais que ocupavam a América do Sul antes do domínio europeu.

Mas independente do trajeto, o fato só traz mais argumentos que demonstram quão complexas eram os povos da floresta naquele tempo, com estudos que dizem que milhões de pessoas habitavam a floresta.

“Hoje em dia tem tanta diversidade, tipos diferentes de milho, porque cada cultura humana tem suas preferências. Um gosta de milho mais redondo, outro mais comprido, outros com sementes vermelhas, outro rajada, outro amarela”, afirma. “Esse olhar diferente da diversidade cultural também se reflete na variedade dos cultivos.”

Com o passar do tempo, porém, a seleção por preferência deu lugar à vantagem comercial, o milho amarelo se tornou padrão, e muitas das diferentes variedades de milho passaram a correr risco de desaparecer. A Embrapa tenta fazer sua parte, já que preserva as popularmente chamadas de sementes crioulas, de diversas espécies. São cinco mil variedade só de milho.

Freitas, no entanto, acredita que a estratégia é insuficiente. Se guardar a semente preserva a variabilidade genética, com ela parada, a evolução deixa de acontecer.
“Preservar as culturas locais ajuda a manter o material e, uma vez que estão plantando, as espécies estão sujeitas ao ambiente”, afirma. “Apoiar a agricultura tradicional, mantendo as técnicas deles, os cultivos tradicionais, está permitindo que o processo evolutivo continue localmente, se adequando a qualquer mudança que ocorra ambientalmente.”

“É muito rico isso”, finaliza Fábio Freitas. “Quanto mais a gente puder estimular essa preservação cultural e  material, e puder apoiar as populações localmente, a humanidade acaba sendo beneficiada como um todo.”

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HISTÓRIA DO MILHO


No mundo

Há pelo menos 7.300 anos o milho participa da história alimentar mundial. Os primeiros registros de seu cultivo foram feitos em ilhas próximas ao litoral mexicano, mas rapidamente a cultura se espalhou por todo o país.

Uma vez difundido no México, o grão se firmou como produto em países da América Central com clima propício para seu cultivo, como o Panamá, e também pela América do Sul, segundo as informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Na América do Sul, mais precisamente no sul Peru, grânulos de milho foram encontrados há 4 mil anos, revelando que há cerca de 40 séculos, pelo menos, já se cultivava o alimento por essa região do continente.

No entanto, com o período de colonização do continente americano e as chamadas grandes navegações que ocorreram durante o século XVI, o milho se expandiu para outras partes do mundo, se tornando um dos primeiros itens na cultural mundial.

Com a chegada de Colombo ao continente americano, o milho embarcou em direção a Europa e se consolidou como fonte alimentar das populações mais humildes. Por esse motivo e também por ser utilizado como ração animal, o cereal, no entanto, era discriminado pela elite europeia.

No Brasil

No país o milho já era cultivado pelos índios antes mesmo da chegada dos portugueses, já que eles utilizavam o grão como um dos principais itens de sua dieta.

Mas foi com a chegada dos colonizadores, cerca de 500 anos atrás, que o consumo do cereal no país aumentou consideravelmente e passou a integrar o hábito alimentar da população.

De acordo com a Fundação Joaquim Nabuco, no período Brasil-Colônia, os escravos africanos tinham no milho, além da mandioca, como um de seus principais alimentos.

Fonte: PROSOJA