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1977


NAS RUAS CONTRA A DITADURA

Nossa história: estudantes do Brasil decidiram em 1977 enfrentar repressão militar

Depois de confronto e violência, 1,2 mil foram presos

Jorge Macedo – especial para o EM 22/06/2013 00:12 – Atualizado em 22/06/2013 07:41

Sandra Kiefer

 Os líderes universitários se reuniram no câmpus da Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, de onde saíram para a cadeia, após enfrentar forte aparato da Polícia Militar, que cercou toda a área – Foto: Arquivo EMnull

Exatamente como hoje, as férias escolares ainda não haviam chegadoEra junhoNuma madrugada, começaram a aportar em Belo Horizonte ônibus de todas as partes do paísVinham lotados de jovens, inscritos no 3º Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), que deveria ocorrer no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)Naquele ano, 1977, os universitários tentariam reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE), dissolvida em 1968 pelo regime militar

Até o estouro de manifestações da juventude brasileira este mês, o dia 4 de junho de 1977 era o marco do último grande protesto de estudantes em Belo Horizonte a terminar em confronto com a políciaNa época, o saldo foi de cerca de 1,2 mil estudantes presos e quase uma centena indiciada com base na Lei de Segurança NacionalA movimentação deixou o Centro de Belo Horizonte sitiado, o comércio fechado e a população paralisada, assistindo à resistência pacífica dos universitários ao regime verde-oliva.

“Não estou dizendo que a nossa manifestação era melhor ou pior que a de hoje, mas era diferenteNaquele momento, éramos um movimento de estudantes com suas representações, que defendiam a melhoria do ensino dentro de um processo maior de redemocratização do paísPenso que os protestos atuais são mais de jovens do que de estudantesTanto é que a reivindicação sobre o transporte público atende todas as categorias e não só os estudantes”, compara Laís Abramo, de 59 anos, diretora para o Brasil da Organização Internacional do Trabalho (OIT)https://4c998e7c48c89754fbd2d94f59ebfe3e.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html?n=0

RENDIÇÃO Na década de 1970, aos 23 anos, a filha de Perseu Abramo, então jornalista da Folha de São Paulo perseguido pela ditadura, participava da corrente Refazendo, que recriou o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de São Paulo (USP)No dia seguinte, Laís embarcou mais cedo para o ENE, na capital mineiraEm vez de vir de ônibus, como a maioria dos estudantes, pegou carona em um FuscaCom isso, escapou das barreiras montadas pelos militares na estrada e, portanto, de ser presa.

 “Na manhã seguinte, eu e o Mercadante (Aloizio, atual ministro da Educação), colega do curso de economia, saímos andando pelas ruas, procurando outros estudantesAcabamos em uma igreja, que também foi cercada pela polícia, mas o padre negociou a rendição dos estudantes e ninguém foi preso”, relembra a então aluna de ciências sociais.

Prisões abarrotadas

Entre os universitários reunidos na Faculdade de Medicina da UFMG, na Avenida Alfredo Balena, no Bairro Santa Efigênia, a dispersão foi feita com violênciaOs estudantes buscaram abrigo nas igrejas Boa Viagem e São JoséOs párocos Bartolomeu Spinoli e Paulo Rigório tentaram negociar a saída dos estudantes da Igreja da Boa Viagem a polícia informou que não faria prisõesNa versão dos jornais da época, a promessa não foi cumpridaEntre os detidos estava Aloízio Mercadante.

– Foto: Arquivo EMDepois disso, a Faculdade de Medicina foi invadida e os estudantes começaram a deixar o local num corredor polonêsEm grupos de cinco, eles deixaram o prédio abraçados e cantando músicas dos compositores Geraldo Vandré e Chico Buarquehttps://4c998e7c48c89754fbd2d94f59ebfe3e.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html?n=0Colocados em ônibus de turismo (porque o reitor da UFMG, o médico Eduardo Osório Cisalpino, não concordou que fossem em camburões), foram conduzidos ao Parque da Gameleira

Cerca de 100 estudantes foram indiciados e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, entre eles Jânio Bragança, então presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG“ A polícia cercou a cidade inteira, parecia uma praça de guerraEncheram todas as cadeias de BH e, como não cabia mais, levaram a gente para o Parque da GameleiraPassei a noite sentado no chão”, explicou o então estudante de ciências sociais, que se tornou empresário em Itabira, na Região Central do Estado

LINHA DO TEMPO
– 1968: Em outubro, no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), UNE é dissolvida com a prisão de 700 estudantes
– 1977: No início do ano, universitários fazem tentativa de reorganizar a UNE no câmpus da USP, mas sofrem repressão
– 1977: Novamente em 4 de junho, o 3º Encontro Nacional de Estudantes na Faculdade de Medicina da UFMG, os líderes tentam reconstruir a entidade
– 1977: Em 22 de setembro, na surdina, estudantes da PUC-SP realizam o 3º ENE e aprovam uma Comissão Pró-UNE
– 1979: Finalmente, ocorre o Congresso de Reconstrução da UNE, em Salvador (BA)

Fonte: em.com.br

O GOLPE MILITAR NA ARGENTINA



Na Argentina, falar da ditadura e dos militares que a conduziram é motivo de desonra

País teve um dos regimes mais sanguinários do continente, com ao menos 30.000 mortos

Protesto em Buenos Aires reúne centenas de pessoas na Praça de Maio no aniversário do golpe militar na Argentina, dia 24 de março.
Protesto em Buenos Aires reúne centenas de pessoas na Praça de Maio no aniversário do golpe militar na Argentina, dia 24 de março.EMILIANO LASALVIA / AFP

FEDERICO RIVAS MOLINA

Em 18 de setembro de 1985, o procurador Julio César Strassera completou 52 anos. Uma coincidência o levou a ficar nesse dia diante dos militares que logo seriam sentenciados por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura. Strassera tinha trabalhado duro para conseguir a condenação de Jorge Rafael Videla, Emilio Massera, Leopoldo Galtieri, Armando Lambruschini e Orlando Agosti por criarem um plano repressivo que deixou 30.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos. O argumento do promotor colocou um ponto na história argentina. Strassera citou Dante Alighieri e chamou os responsáveis pelo terrorismo de Estado de “tiranos que viveram de sangue e rapinagem”. E concluiu sua leitura com uma frase que ainda produz calafrios nos argentinos: “Senhores juízes, nunca mais”. O tribunal teve que pedir à polícia que esvaziasse a sala, que irrompeu eufórica.

Passaram-se 34 anos desde o julgamento da junta militar promovido pelo Governo de Raúl Alfonsín (1983-1989). Strassera citou no encerramento de suas considerações finais o Nunca Mais que foi o título do relatório da Conadep, a comissão da verdade liderada pelo escritor Ernesto Sábato e que registrou quase 9.000 casos de assassinados e desaparecidos pela ditadura. A cifra era provisória, compilada meses após o término do Governo militar graças ao depoimento de sobreviventes e parentes das vítimas. O trabalho da Conadep e, meses depois, o julgamento da Junta Militar, colocou a Argentina na vanguarda da luta contra a impunidade na América Latina. Esse exercício de memória e justiça continua ativo no país sul-americano. O espírito do Nunca Mais sobreviveu à passagem dos anos.

A última marcha, há uma semana, para lembrar o aniversário do golpe de 24 de Março de 1976 – que pôs fim ao Governo constitucional de Isabel Perón — e as vítimas da ditadura reuniu dezenas de milhares de pessoas na Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada, em Buenos Aires. Como todos os anos, os atos de repúdio se repetiram nas escolas públicas, a imprensa dedicou espaços à memória daqueles anos e os editores aproveitaram a força do aniversário para publicar livros sobre o assunto.

Acontece que há pouco espaço para dúvidas na Argentina: a ditadura e os militares que a lideraram são uma palavra feia, ruim, neste país onde o terrorismo de Estado foi especialmente sanguinário. Seus líderes já morreram, todos no ostracismo, sem que sequer se saiba com exatidão onde estão seus túmulos. Não há monumentos ou ruas que lembrem aqueles que certa vez foram amos e senhores.

Na Argentina não existe o “videlismo”, o “masserismo” ou o “galtierismo”, muito menos um partido militarista que supere a insignificância ou um político que defenda esses anos em público. Quem tiver aspirações eleitorais, faz melhor se guardar suas opiniões.null

O caminho da memória, no entanto, teve altos e baixos. As ações judiciais contra as Juntas seguiram as leis de Obediência Devida e de Ponto Final, aprovadas entre 1986 e 1987, após uma série de revoltas militares nos quartéis. As duas leis puseram fim a novos julgamentos e deixaram sob proteção os comandos médios e baixos que, com a desculpa de terem cumprido ordens, haviam sequestrado, torturado e assassinado. O então presidente Carlos Menem deu um passo além nos anos 90 e assinou um indulto para os chefes, que voltaram para suas casas. Mas as organizações de Direitos Humanos logo encontraram uma brecha no decreto de Menem e ativaram dezenas de causas por roubo de bebês: a ditadura tinha idealizado um plano para entregar para adoção as crianças nascidas nos centros de tortura de mães assassinadas em seguida.

O roubo de bebês devolveu à prisão personagens como Videla, mas ainda restavam dezenas de investigações congeladas pelas chamadas “leis do perdão” promulgadas por Alfonsín. Durante o Governo de Néstor Kirchner (2003-2007) tudo mudou. Em junho de 2005, a Corte Suprema declarou a inconstitucionalidade de ambas as normas e reativou dezenas de ações judiciais. O último relatório da Promotoria de Crimes contra a Humanidade do Ministério Público registrou 575 ações contra repressores, com 3020 imputados. Desde 2006, quando os casos foram reabertos, até setembro de 2018, data da última estatística, os tribunais argentinos proferiram 209 condenações contra 862 indiciados. Outros 715 militares aguardam sentença. A história sombria da ditadura está viva na Argentina.

Fonte: El País

Revelações de militares perseguidos pela Ditadura no Brasil


55 anos do golpe militar: a história dos 6,5 mil militares perseguidos pela ditadura

Dezembro de 2018


O general Pery Constant Bevilacqua (à esq.). o brigadeiro Rui Moreira Lima e o brigadeiro Francisco Teixeira (à dir.)
Image captionForam mais de 6,5 mil oficiais e praças presos, perseguidos ou torturados. Na fota, da esquerda para a direita, o general Bevilacqua, o brigadeiro Moreira Lima e o brigadeiro Francisco Teixeira

Piloto de caça do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, o então tenente Rui Moreira Lima, do Rio, participou de 94 missões na Itália entre novembro de 1944 e maio de 1945, como membro da Força Expedicionária Brasileira.

Mas a artilharia dos aviões nazistas não foi o único ataque que precisou enfrentar em sua carreira a serviço da Aeronáutica brasileira.

Mesmo sendo um condecorado membro das Forças Armadas, tendo voltado ao Brasil como herói de guerra, escrito um livro sobre a atuação brasileira na Segunda Guerra e mais tarde tendo se tornado brigadeiro, Moreira Lima foi perseguido, preso e torturado pelo governo durante a Ditadura Militar.

Em 1964, o brigadeiro foi deposto do comando da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, por ser considerado um democrata e ter abertamente se oposto ao golpe militar – que, em 31 de março daquele ano depôs o presidente João Goulart e estabeleceu um regime autoritário que durou até 1985. Moreira Lima foi preso, aposentado compulsoriamente e teve a família perseguida.

Ele já trabalhava na iniciativa privada, nos anos 1970, quando seu filho, Pedro, foi sequestrado pelos agentes da repressão. “Meu filho ficou apavorado, tinha 20 anos”, contou Moreira Lima em um depoimento emocionado à Comissão da Verdade em 2012 , quando tinha 93 anos.

Logo em seguida o brigadeiro foi sequestrado por sargentos do Exército a mando do Doi-Codi. Ficou três dias preso e foi submetido à privação de sono. “Passei três dias nessa masmorra lá. Para ir fazer as necessidades os soldados ficavam me olhando, apontando a metralhadora”, contou.

Rui Moreira Lima no caça Thunderbolt P-47, que pilotou durante a guerra
Image captionRui Moreira Lima participou de 94 missões na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, pilotando um caça modelo P-47

O caso de Moreira Lima não foi o único: em mais de duas décadas de ditadura no Brasil, o regime perseguiu, prendeu ou torturou 6.591 militares. Os dados foram compilados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), instituída pelo governo brasileiro em 2011 para investigar violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988 por agentes públicos e outras pessoas a serviço do Estado.

A CNV foi feita no molde de comissões feitas no Chile e na Argentina, que fizeram as investigações muito antes do Brasil, logo após o fim de suas ditaduras – e usaram os relatórios para julgar centenas de pessoas e condenar mais de 700 por crimes cometidos durante os governos autoritários.

O relatório final da CNV foi publicado em dezembro de 2014, com um número oficial de 434 mortos e desaparecidos – e sem um número final de pessoas torturadas, cujos casos não foram investigados um a um.

Como era feita a repressão?

A repressão aos militares começou logo após o golpe, com a cassação, prisão e constrangimento de oficiais e militares que divergiam do grupo que tomou o poder.

“Os militares foram perseguidos de várias formas: mediante expulsão ou reforma, sendo seus integrantes instigados a solicitar passagem para a reserva ou aposentadoria; sendo processados, presos arbitrariamente e torturados; quando inocentados, não sendo reintegrados às suas corporações; se reintegrados, sofrendo discriminação no prosseguimento de suas carreiras. Por fim, alguns foram mortos”, descreve o relatório da CNV .

“De fato a grande ‘cirurgia’ foi realizada em 1964”, explica o cientista político Paulo Ribeiro da Cunha, professor da Unesp e membro da Comissão da Verdade, referindo-se à remoção dos militares que se opunham ao regime. “Mas foi uma perseguição continuada, que se manteve e se intensificou na fase posterior.”

E foi o Ato Institucional número 5 (AI-5), assinado pelo general Artur da Costa e Silva há exatamente 50 anos, que deu instrumentos para o regime intensificar ainda mais a repressão – inclusive aos militares.

O AI-5 autorizou uma série de medidas de exceção, permitindo o fechamento do Congresso, a cassação de mandatos parlamentares, intervenções federais, prisões até então consideradas ilegais, e suspensão dos direitos políticos dos cidadãos.

“A maior parte das prisões (de oficiais e praças) foi no pós-68 (após o AI-5), com muitos deles sendo presos até com os filhos”, conta Ribeiro da Cunha, que também é um dos organizadores do livroMilitares e Política no Brasil (Expressão Popular).

Segundo o cientista político, a ditadura usava as famílias para atingir os oficiais, com os filhos sendo obrigados a sair dos colégios e ataques (inclusive estupros) de mulheres dos militares.

Após o endurecimento do regime, houve perseguição inclusive de militares que haviam apoiado o golpe em 1964, mas que se opunham aos aspectos mais violentos e cujo objetivo era devolver o governo aos civis depois de um curto período.

Moreira Lima foi uma das vítimas do endurecimento ocorrido com o AI-5. Após o depoimento do brigadeiro, a Comissão da Verdade criou um grupo de trabalho especial para investigar as perseguições sofridas por militares durante a ditadura.

“Proporcionalmente, os militares foram o grupo social mais afetado pela repressão”, afirma Paulo Ribeiro da Cunha, que participou do grupo de trabalho.

O brigadeiro Moreira Lima morreu aos 94 anos, em 2013, menos de um ano após dar seu depoimento à CNV.

Moreira Lima volta ao caça que utilizava durante a Segunda Guerra
Image captionMoreira Lima denunciou as perseguições que ele e sua família sofreram durante o regime

Na reverencial homenagem feita pela FAB após seu falecimento, em que Moreira Lima é chamado de “herói”, de “lendário”, de um dos “guerreiros da Nação que serão lembrados indefinidamente”, não há menção às inúmeras violações de direitos a que foi submetido pela Ditadura Militar.

A BBC News Brasil reuniu histórias de alguns dos outros militares que, como o brigadeiro Moreira Lima, também foram perseguidos durante a Ditadura Militar.

O brigadeiro Teixeira, que teve a casa incendiada e os filhos presos

Assim como Moreira Lima, o brigadeiro Francisco Teixeira também havia servido durante a Segunda Guerra – ajudou a implantar o uso dos caças modelo P-40 e participou de patrulhas no litoral do nordeste e da cobertura de comboios marítimos que eram atacados por submarinos alemães e italianos.

Nacionalista, participou da campanha do “Petróleo é Nosso” e foi chefe de gabinete do ministro da Aeronáutica e subchefe do Estado Maior das Forças Armadas. Em, 1964 era comandante da 3ª Zona Aérea, no Rio de Janeiro e era considerado o líder da ala militar nacionalista na Aeronáutica.

“Meu marido sempre participou da legalidade, sempre foi a favor de que se cumprissem as leis do pais, a Constituição” afirmou a mulher do brigadeiro, Iracema Teixeira , em um depoimento à CNV em 2013. “E por isso era mau visto pelo grupos que queriam o poder de qualquer maneira.”

Foi preso em sua casa em Copacabana pouco depois da deposição de João Goulart e ficou incomunicável por 50 dias. Depois foi afastado da FAB e teve os direitos políticos cassados por dez anos. Teve também a cidadania suspensa e foi considerado oficialmente morto – sua mulher passou a receber pensão como viúva.

O brigadeiro Francisco Teixeira prestando depoimento em 1965
Image captionO brigadeiro Francisco Teixeira prestando depoimento em um inquérito policial militar em 1965

“Nos primeiros anos do regime essa era a principal forma de perseguição. Os oficiais eram expulsos, considerados mortos, não tinham direito nenhum. Tinham que trabalhar em mil coisas pra sobreviver”, afirma Paulo Ribeiro da Cunha.

Foi o caso do brigadeiro Teixeira, que teve a carteira de piloto também cassada e não podia exercer a profissão. Para se manter, criou um curso supletivo com a mulher. Em novembro de 1969 o brigadeiro teve sua casa incendiada – o episódio nunca foi esclarecido pela polícia.

Após a posse do general Emílio Garrastazu Médici em 1969, Teixeira foi preso e mantido incomunicável por 50 dias na Vila Militar.

“Toda vez que mudava o ‘presidente’ meu marido era preso, como se ele – já deposto, aposentado – fosse reagir sozinho”, contou Iracema Teixeira.

Seu filho Aloísio, que era estudante da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e foi acusado de ser comunista, também foi preso durante 6 meses e chegou a ser torturado na Ilha das Flores. Teixeira foi visitá-lo, e quando soube que o filho seria ouvido novamente, começou a ligar para todos os colegas militares em busca de ajuda.

“Eu falei com uns dois ou três que estavam na ativa, e um deles agiu muito, talvez tenha até ajudado o Aluísio, porque fez um escândalo na hora do almoço contra aquilo: ‘Como é que a Marinha faz uma coisa dessas, torturando o filho de um colega nosso!'”, contou o brigadeiro Teixeira, em depoimento ao CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

No início dos anos 1970, o brigadeiro foi preso novamente, desta vez com filha, Maria Lúcia Werneck Viana.

“Primeiro foram na casa dela, ela não estava, quebraram o telefone, fizeram uma violência qualquer. Depois, uma noite, foram lá em casa, mas não entraram, procuraram por ela na portaria. O fato é que, à noite, eu resolvi ir ao apartamento dela e estava lá quando eles chegaram”, contou ele no mesmo depoimento ao CPDOC.

Artigo publicado pelo jornal Correio da Manhã sobre o processo que Teixeira enfrentava em 1965
Image captionArtigo publicado pelo jornal Correio da Manhã sobre o processo que Teixeira enfrentava em 1965

Em julho 1983, poucos meses antes de morrer devido a um câncer, aos 74 anos, Teixeira fundou a Associação Democrática e Nacionalista de Militares, que reunia militares cassados e perseguidos pela ditadura.

“O brigadeiro Teixeira deixou para nós exemplos de firmeza de caráter e tolerância, atributos que tornaram possível a construção da sua sólida liderança militar e política”, afirmou o então ministro da Defesa Nelson Jobim em uma homenagem ao brigadeiro em 2011.

O tenente Wilson, que fugiu para o Uruguai

Boa parte dos militares cassados em 1964 já havia ficado marcada pelos setores golpistas quando o presidente Jânio Quadros renunciou em 1961 e os ministros militares assumiram a posição de tentar impedir a posse do vice-presidente.

A Campanha pela Legalidade, que defendeu a normalidade democrática e naquele ano saiu vitoriosa, teve adesão de unidades militares das três forças, com oficiais se mobilizando para garantir o cumprimento da Constituição.

“Todos quantos haviam tomado posição em 1961 ficaram marcados dentro e fora dos quartéis. Éramos olhados como malditos, perigosos. Mas não nós amedrontávamos, passamos a ter cada vez mais atitudes políticas”, escreveu mais tarde o tenente José Wilson da Silva, que na época primeiro sargento do Depósito de Material de Engenharia.

“Vários oficiais da Marinha, da Aeronáutica e do Exército que se mobilizaram em defesa da Constituição foram presos e depois liberados. Posteriormente, em 1964, foram cassados.”

Este documento do Ministério do Exército de 1970 lista cidadãos que foram banidos do Brasil
Image captionO AI-5 levou artistas, intelectuais, políticos e também militares a se exilarem do país

O tenente foi eleito vereador em Porto Alegre em 1964, mas como estava ameaçado de prisão, fugiu para o Uruguai. Foi cassado e só conseguiu a reintegração ao Exército em 1980 após a lei da Anistia – ele retornou com o posto de capitão da reserva.

O marechal Lott, enterrado sem honras militares

O marechal Henrique Teixeira Lott também estava entre os que sofreram por conta de seu posicionamento em defesa da democracia em 1961.

Lott já estava na reserva e havia inclusive concorrido à presidência pela coligação PTB/PSD em 1960, quando foi derrotado por Jânio Quadros. Anticomunista e nacionalista, tinha postura legalista abertamente conhecida.

Diante da renúncia do adversário, no ano seguinte, e do perigo de golpe, ele fez um pronunciamento às Forças Armadas , transmitido pelo rádio, que falava da intenção do ministro da Guerra de impedir que João Goulart entrasse no exercício de suas funções.

“Mediante ligação telefônica, tentei demover aquele eminente colega da prática de semelhante violência, sem obter resultado”, dizia o Marechal Lott. “Sinto-me no indeclinável dever de manifestar o meu repúdio à solução anormal e arbitrária que se pretende impor à Nação.”

O marechal Lott
Image captionQuando morreu, em 1984, o marechal Lott foi enterrado sem honras militares

“Dentro dessa orientação, conclamo todas as forças vivas do país, as forças da produção e do pensamento, dos estudantes e intelectuais, dos operários e o povo em geral, para tomar posição decisiva e enérgica no respeito à Constituição e preservação integral do regime democrático brasileiro, certo ainda de que os meus camaradas das Forças Armadas saberão portar-se à altura das tradições legalistas que marcam sua história no destino da Pátria.”

Esse pronunciamento o levou à prisão, onde ficou por 15 dias. Após o golpe de 1964, ele foi impedido de de lançar sua candidatura a governador do Rio de Janeiro e retirou-se da vida pública. Quando morreu, em 1984, foi enterrado sem honras militares.

O general Bevilacqua, que chamava o golpe de “revolução”

O general Pery Constant Bevilacqua ainda estava na ativa em 1968, quando o regime militar decretou o AI-5.

Embora tenha sido um dos generais contrários ao golpe de 1964, até o fim da vida chamava o episódio de “revolução”. Era do grupo que acreditava que os militares deveriam devolver o governo aos civis após livrar o país do que afirmava ser uma “ameaça comunista”.

Muito católico, ideologicamente de direita, anticomunista convicto, se opôs firmemente ao endurecimento do regime em 1968.

Queria evitar que o regime “se comprometesse irremediavelmente e se afogasse na ignomínia de um hediondo crime de sangue e destruição”, conforme declarou mais tarde em uma entrevista à escritora Maria Rita Kehl e ao jornalista Inimá Simões . Ele se referia aos ataques a bomba planejados por militares, que pretendiam culpar os comunistas e obter apoio para se manter no poder.

O general Pery Constant Bevilacqua
Image captionO general Bevilacqua foi cassado após se opor ao AI-5

Foi cassado logo depois do ato institucional, pouco tempo antes de se aposentar. Em 1977, se filiou ao MDB e passou a fazer campanha pela anistia.

“O AI-5 foi o maior erro jamais cometido em nosso país e comprometeu os ideais do movimento de 31 de março”, afirmou o general na mesma entrevista.

“Os fatos levam à conclusão de que será sempre preferível suportar um mau governo a fazer uma boa revolução. A terapêutica revolucionária agrava os males do doente -a democracia- quando não o mata. Mais de três quartos de século de vida me permitem essa conclusão definitiva.”

A BBC News Brasil procurou o Ministério da Defesa para falar sobre as medidas de reintegração tomadas após a redemocratização, mas a pasta não se pronunciou até a publicação desta reportagem.