A CIRURGIA ENTRE OS POVOS AMERÍNDIOS


É pratica comum na América a escarificação no tórax e locais inflamados com bico, dentes de animais ou fragmentos de cristais equivalentes às antigas técnicas de sangria. Houve época que essa última técnica associou-se à medicina dos cirurgiões barbeiros e aplicadores da sanguessugas (Hirudus medicinalis ou bicha como era conhecida no Brasil antigo) e as terapias por aplicação de ventosas que atualmente são práticas em extinção. Quanto a prática da flebotomia ter origem na medicina indígena ou dos colonizadores, Santos Filho e Sá Menezes descrevem o registro dessa prática por diversas fontes, assinalando ainda este último de sua utilização como técnica abortiva e de tratamento odontológico.

Uma variante da escarificação é a aplicação pelo pajé (Bisamus entre os Cariris) de irritantes químicos como a Urtiga e o Cansanção em locais específicos do corpo pelos índios Kiriris (Siqueira, 1978), o leite de cansanção é também aplicado sobre a cárie (buraco do dente) (Bandeira, 1972). Ainda hoje, na medicina popular a urtiga é utilizada em aplicação local e chá para dores reumáticas. Há referências a utilização de pimenta cumim externamente sobre o corpo de gestantes para aliviar a dor do parto (Bandeira, o.c.) o que hoje se explica pela presença do elemento ativo Capsaicina com propriedades analgésicas.

Face anterior de crânio Inca, mostrando trepanação

Alguns antropólogos chamam atenção para especificidade das medicinas das antigas civilizações Inca na América do Sul, Asteca e Maia na Mesoamérica especialmente a primeira, relativamente mais conhecida, e importante para a região amazônica. A medicina inca, famosa por apresentar medicamentos com o a quina (Cinchona) que contém quinina poderoso agente contra a malária, incluía práticas cirúrgicas como trepanações do crânio com finalidade neurocirúrgica não completamente esclarecida (descompressão de tumores, tratamento de concusão ou hemorragias – remoção de coágulos,?),

Segundo Jürgen Thorwald, (1990) [40] o surpreendente nos achados do Peru é a alta percentagem dos sobreviventes da trepanação, refere-se que entre quatrocentos crânios examinados por Tello havia duzentos e cinqüenta casos de cura, e entre os setenta e um casos examinados por MacCurdy foram encontrados apenas doze sem sinais de regeneração ou sobrevivência.

Arte Médica dos índios brasileiros

No livro de 1844, de von Martius, Karl Fridrich Philipp: Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros [9] esse autor, com toda a carga de preconceitos do século XIX, observa que o médico, chamado pajé na língua tupi, apesar de não ser doutor, nem mesmo um mestre ou seja possuir os títulos de um professor ou médico europeu, apesar de não fazer parte de grêmio ou corporação que lhes dê direito de curar, possui mais poder e influência na tribo que os seus congêneres europeus, segundo ele, graças à ignorância desta.

No seu entender, a medicina indígena é comparável à magia e feitiçaria e ao xamanismo dos nômades asiáticos. Compara ainda, o pajé, ao sacerdote, profeta e adivinho, o zelador das cousas sagradas, conselheiro e legislador, sempre um indivíduo de ascendência e influência na tribo, que se distinguem pelo espírito de observação, astúcia e laboriosidade, observando que esse mister, às vezes, também está nas mãos de mulheres velhas.

Em vários momentos de sua obra, faz referência a um culto ou saber desaparecido de modo semelhante aos xamãs siberianos. Declara-se pessimista quanto a possibilidade destes (a raça ameríndia) encontrarem uma resolução de suas demandas de saúde por recursos próprios, ou face a sua condição social, pelo alcance da ciência médica europeia. Reconhecendo, porém, seu vigor, constituição robusta e longevidade, sobretudo antes de seu contato com a civilização.

Não reconhece nenhuma doença da época como exclusiva dos indígenas e atribui origem nas Índias Ocidentais à cholera morbo, febre amarela e na Costa Oriental Africana à vena medinensis (dracontíase). Na Europa atribui a origem da varíola e sífilis, doenças por serem exógenas não possuíam tratamentos específicos na medicina indígena.

Em sua “História geral da medicina brasileira” Santos Filho relata que no Brasil do século XVI os indígenas acreditavam que as doenças eram causadas por vontade de algum ser sobrenatural, ação dos astros, agentes climáticos, força de uma praga ou castigo. Elas eram denominadas de acordo com o órgão ou a parte do corpo afetada. O tratamento era baseado nas propriedades medicinais da imensa flora local. Para ulcerações, a bouba, ferimentos e dermatoses as plantas indicadas eram a copaíba (Copaifera officinalis), a capeba ou pariparoba (Piper rohrii), a maçaranduba (Mimusops elata, Lucuma procera), a cabreúva (Myrocarpus fastigiatus) e a caroba (Jacaranda caroba, Jacaranda brasiliana); contra febres a jurubeba (Solanum panicyulatum, Solanum fastigiatum), quineiras brasileiras (Strychnos pseudo-quina, Cantarea speciosa), o maracujá (Passiflora de várias espécies); como diuréticos e sialagogos o cajú (Anacardium occidentale), o ananás (Ananas sativus), o jaborandi (Pilocarpus pinnatus); como purgativo e para disenterias o andá-açu (Johannesia princeps) a ipecacuanha ou poaia (Psychotica emetica, Cephaelis ipecacuanha), a batata-de-purga (Ipomoea altissima), a umbaúba (Ceropia peltata) e o guaraná (Paullinia cupana); para mordeduras de cobras e outros animais venenosos a caapiá ou contra-erva (Dorstenia multiformis), o pau-cobra (Potalia amara) e a erva-de-cobra (Mikania opifera); para afecções respiratórias e outras doenças o jataí (Hymenaea courbaril) e o petume ou tabaco (Nicotiana tabacum). O conhecimento dos indígenas sobre as propriedades medicinais da flora foi mantido graças aos registros de missionários, barbeiros-cirurgiões e barbeiros e a tradição oral.Os indígenas também lançavam mão de outros recursos como medicamentos: sangue humano ou de animais (reconstituinte), saliva (cicatrizante), urina (excitante e vomitiva), cabeça ou cauda de ofídios e gordura de onça e outros animais. Bicos, garras, chifres, ossos e cabelos eram calcinados e pulverizados, assim como sapos. Os remédios eram geralmente reduzidos a pó entre duas pedras e depois dissolvidos em água ou sucos. Emplastros feitos com o mesmo vegetal utilizado para uso interno eram aplicadas sobre a parte afetada. 

Fonte: Wikipédia

O DESENVOLVIMENTO DA NEUROCIRURGIA MODERNA NO BRASIL


As conquistas essenciais para o desenvolvimento da neurocirurgia moderna foram o avanço da cirurgia geral, especialmente a anestesia (Morton, 1846) e a antissepsia (Lister, 1867) e a teoria das localizações cerebrais (Broca, 1861)1,2. Ela foi estabelecida nas duas últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX graças, principalmente, aos pioneiros Victor Horsley (1857-1916) e Harvey Cushing (1864-1939)1-3.

No Brasil, o nascimento da neurocirurgia dependeu também do desenvolvimento prévio da cirurgia e da anestesia. O ensino oficial da neurologia foi inaugurado no Brasil em 1912, quando da criação da Disciplina de Neurologia, distinta da Psiquiatria, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, sendo designado para regê-la Antônio Austregésilo Rodrigues Lima (1876 – 1961), que chefiava o Serviço de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro4. A cirurgia moderna no Brasil teve início no final do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, com as obras de Cândido Borges Monteiro, Chapot-Prévost, Andrade Pertence, Domingos de Góes e Vasconcelos, Paes Leme e Augusto Brandão Filho5. Este último era denominado o Príncipe da Cirurgia Brasileira e pode ser considerado o precursor da neurocirurgia brasileira, pois foi o primeiro cirurgião geral a ir além da cirurgia craniana do trauma, tentando a cirurgia dos tumores cerebrais e da neuralgia do trigêmeo e iniciando, em nosso meio, os exames neurorradiológicos (ventriculografia e angiografia cerebral).

No final da terceira década do século XX, a moderna cirurgia e a neurologia estavam bem assentadas em nosso meio, especialmente no Rio de Janeiro, propiciando as condições para o nascimento da neurocirurgia brasileira. O ano de 1928 pode ser considerado como a data crucial da neurocirurgia brasileira. Neste ano, Brandão Filho encontrava-se no auge de sua tentativa de tratamento cirúrgico dos tumores cerebrais e, enquanto realizava, sob a orientação de Egas Moniz (1874 – 1955), a primeira angiografia cerebral no país, Antônio Austregésilo encontrava-se visitando os serviços de neurocirurgia dos Estados Unidos. De regresso, convoca Alfredo Monteiro e José Ribe Portugal para o início da neurocirurgia brasileira como especialidade6.

AUGUSTO BRANDÃO FILHO

Augusto Brandão Filho (1881 – 1957) (Fig 1) foi professor de Clínica Cirúrgica da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Exerceu sua atividade cirúrgica no Hospital da Misericórdia, no Rio de Janeiro. Foi um dos mais hábeis cirurgiões de seu tempo e tinha também fino espírito científico. Foi o primeiro brasileiro a ir além da cirurgia do trauma e tentar o tratamento cirúrgico dos tumores cerebrais. Foi também o pioneiro dos exames neuroradiológicos em nosso país. Foi o primeiro a realizar no Brasil a ventriculografia e a angiografia cerebral. Na realização destes exames contou com a colaboração de dois grandes vultos da medicina. Na ventriculografia foi ajudado por Manoel de Abreu (1894 – 1962), futuro inventor, em 1936, da fotografia da imagem fluoroscópica, conhecida como abreugrafia7. Na angiografia cerebral foi auxiliado pelo próprio inventor do método, Egas Moniz8,9, que em 1928, encontrava-se em visita ao Brasil (Figs 2,3).Thumbnaila

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