PAULO FREIRE EM ANGICOS | RN


Quem passar pelo quilômetro 180 da BR 304, no lado esquerdo da rodovia no sentido Natal-Angicos, próximo ao pico do Cabugi, na região Central do RN, vai se deparar com um monumento inaugurado pelo governo do Rio Grande do Norte em homenagem ao centenário de Paulo Freire e ao episódio conhecido como “As 40 horas de Angicos”.

A obra do escultor Guaraci

Essa homenagem do governo do estado, feito pela professora governadora Fátima Bezerra, é justa e merece aplausos!

O nordestino, educador e filósofo Paulo Freire é considerado o terceiro pensador mais citado do planeta em universidades da área de Ciências Humanas e o brasileiro com mais títulos de Doutor Honoris Causa do mundo, recebendo cerca de 35 honrarias universitárias brasileiras e estrangeiras

Não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.”

Paulo Freire

POR QUE PAULO FREIRE?



POR QUE PAULO FREIRE FOI PRESO DURANTE A DITADURA MILITAR?

O Patrono da Educação Brasileira teve que prestar depoimento à polícia inúmeras vezes, passou mais de 70 dias preso e ainda foi forçado ao exílio

ISABELA BARREIROS, SOB SUPERVISÃO DE PAMELA MALVA PUBLICADO EM 09/03/2021, ÀS 17H30

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O educador Paulo Freire – Divulgação/Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire

Paulo Freire é considerado um dos pensadores mais importantes de todos os tempos, inclusive internacionalmente. O método pedagógico desenvolvido pelo brasileiro durante sua vida é reproduzido e estudado até os dias de hoje, fazendo parte dos debates educacionais ao redor do mundo.

O educador transformou a maneira como o ensino pode ser visto por meio de seus métodos revolucionários, que têm como objetivo a libertação e a autonomia popular. Misturando o marxismo com o cristianismo, seu pensamento dava importância aos mais pobres por meio da alfabetização de todos.

A ideia é que o ensino deve estar relacionado ao repertório social e cultural de cada aluno, não apenas uma educação “bancária”, em que o estudante recebe informações de forma passiva. Freire, então, enxerga a educação como uma maneira de transformar as pessoas em indivíduos conscientes das suas posições no mundo.

Com toda essa bagagem, o projeto do educador chegou inclusive ao Governo Federal, quando o presidente João Goulart o chamou para organizar um Plano Nacional de Alfabetização. Freire também foi secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina, durante os anos de 1989 e 1992. 

Os pensamentos críticos e revolucionários de Freire, portanto, estavam expostos e ganhavam cada vez mais repercussão. O problema foi que, junto da divulgação do pensamento do educador, também veio a ditadura militar brasileira e sua censura.Luiza Erundina e Paulo Freire, seu secretário da Educação / Crédito: Centro de Referência Paulo Freire

Entre censura e repressão

Durante a ditadura militar, inúmeras pessoas foram presas por seus ideais, que incomodavam o status quo que se estabeleceu desde 1964. A partir do golpe, Freire passou a ser pressionado e interrogado inúmeras vezes, mas ainda não acreditava que poderia ser preso pelo regime.

No livro O educador: um perfil de Paulo Freire (2019), Sérgio Haddad explica que, no dia 27 de abril, João Alfredo, o reitor da Universidade de Recife, onde Freire trabalhava, organizou uma reunião que tinha como objetivo investigar a responsabilidade dos docentes na “prática de crime contra o Estado e seu patrimônio, a ordem política e social, ou atos de guerra revolucionária”.

Freire escreveu um documento respondendo às inúmeras perguntas que revelariam seu envolvimento “revolucionário” na universidade. “Nego, pois, a veracidade das acusações assacadas contra o SEC, anteontem, ontem e hoje. Nego que o SEC […] exerça atividades subversivas ou contrárias ao regime democrático. Horroriza-me o assanhamento destas acusações”, escreveu.

Ele foi considerado um doutrinador, embora seus métodos fossem, em essência, anti doutrinários. Mas isso não interessava aos militares, que o coagiram novamente no dia 1º de julho, quando um inquérito chefiado por Hélio Ibiapina Lima fez com que ele fosse à uma delegacia. 

Ele teria que prestar depoimento sobre “atividades subversivas antes e durante o movimento de 1º de abril, assim como suas ligações com pessoas e grupos de agitadores nacionais e internacionais”.Paulo Freire em depoimento / Crédito: Domínio Público

Depois do depoimento, Freire foi encaminhado a um interrogatório, onde foi questionado sobre sua área e sobre os autores com os quais sustentava suas teses, métodos e resultados no campo da pedagogia. Os temas das perguntas foram diversos, mas o objetivo principal era o mesmo: mapear a ideologia e as posições do professor e entender seu nível de periculosidade.

Ele ficou três dias preso na delegacia e foi solto apenas no dia 3. No entanto, não ficou muito tempo fora das grades e logo foi encarcerado novamente. Sem mandato ou explicações, foi encaminhado ao Quartel de Obuses, em Olinda. Primeiramente, o educador ficou em uma cela solitária no piso inferior, em condições insalubres, mas logo foi transferido para a enfermaria, pois possuía curso superior.

No total, Freire passou mais de 70 dias em cárcere, somando a passagem na cadeia em Olinda e Recife, enquanto lia, discutia e jogava xadrez e palavras cruzadas. No entanto, mesmo depois de solto, não tinha liberdade: ele era obrigado a comparecer regularmente às instalações do Exército para registrar suas últimas atividades. 

Foi, inclusive, durante um desses inquéritos que ele teve de ir ao Rio de Janeiro, onde, contra a própria vontade, aceitou a recomendação de amigos e buscou exílio na embaixada da Bolívia.

Ibiapina Lima, responsável pelo relatório final do inquérito sobre o pensador, considerou-o um fugitivo. Poucos dias depois da ida para o exílio, acusou Freire de ser “um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos. Sua atuação no campo da alfabetização de adultos nada mais é que uma extraordinária tarefa marxista de politização dos mesmos”.

Fonte: Aventuras na História

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