1968: UMA MAIO QUE VALEU POR TODA UMA HISTÓRIA


Em Maio de 1968, eu era exilado político em França e tive oportunidade, como milhares e milhares de outros jovens estudantes e trabalhadores, de participar no movimento parisiense como “militante de base”», sem partido. Assim acontecia com a esmagadora maioria dos que se juntaram ao movimento. Essas semanas de Maio representam muito mais do que uma memória: são como um sentimento vital. Como uma grande revolução cultural que foi, o Maio de 1968 foi também político, mas só no sentido em que, para os participantes, a política não era algo de separado do quotidiano de cada um. Fazia parte da vida de todos.

Essa massa de participantes não visava, porém, o poder. É impossível saber se conseguiriam conquistá-lo; provavelmente não; mas não só nunca fizeram menção disso como, quando lhes foi acenada uma alternativa partidária, no comício de 27 de Maio no Estádio da Cidade Universitária, com a presença de políticos profissionais como Pierre Mendès-France e François Mitterrand, recusaram-na taxativamente pela voz de Daniel Cohn-Bendit, iniciando o processo de refluxo ao mesmo tempo que deixava, até hoje, o seu testemunho e o seu rasto.

Foi essa a radical inocência de Maio de 1968 como acontecimento irrepetível. Foram esses o seu êxito e o seu limite simultâneos, como o momento mais alto de uma vaga de assalto internacional anti-autoritária começada nos campos universitários norte-americanos em protesto contra a guerra do Viet-Nam e que deu a volta ao mundo até ao Japão, passando pela tentativa frustrada da Checoslováquia para se libertar do jugo soviético no fim do Verão de ’68, e que se prolongou, como vagas de um oceano intranquilo, em Itália a partir de ’69 com uma configuração pós-marxista que ainda hoje se manifesta, e chegou até ao Portugal salazarista e colonialista nas paredes da Escola de Belas Artes de Lisboa cobertas de cartazes inéditos no Outono de ’69…

Os participantes do movimento não queriam o poder político mas nem por isso – ou talvez por isso – deixaram de mudar a sociedade. E não o queriam porque a natureza do movimento era, antes de mais, anti-autoritária. Essa vaga teve por suporte o prolongado crescimento econômico do pós-guerra articulado com as guerras de libertação colonial, iniciando-se, como disse, nos Estados Unidos, o país mais avançado do mundo, mas cujas estruturas culturais tinham ficado aquém da evolução social, do mesmo modo que as da França do General De Gaulle. Neste sentido, o movimento foi e permanece “absolutamente moderno”, para usar a frase de Rimbaud, representando uma atualização dos quadros mentais das sociedades mais desenvolvidas de então. Aquilo a que se pode chamar uma auto-presentificação da sociedade.

É a contestação de todos poderes autoritários, desde a família e a escola à política e à guerra, que une estudantes e jovens trabalhadores que, ao começarem a ocupar espontaneamente as fábricas depois dos acontecimentos de Nanterre e de Paris (Sorbonne), forçaram o Partido Comunista e a sua central sindical a paralisar a França durante três semanas, criando assim uma “estrutura de oportunidade” para o alastramento da vaga anti-autoritária ao resto da Europa e ao Oriente, acabando por abalar de forma ainda maior os regimes ditatoriais, como a Checoslováquia e a Polónia, do que os liberais. Embora nos antípodas da modernidade de Maio, até a chamada “revolução cultural chinesa” e os “movimentos de libertação” do Terceiro-Mundo convergiram para aprofundar as fissuras entre as elites mundiais dominantes.

Os pensadores desta vaga de contestação encontravam-se na margem da filosofia e das ciências sociais da época: Herbert Marcuse e Jean Baudrillard, com as suas denúncias da «sociedade de consumo»; o antigo grupo de “Socialisme ou Barbarie” (Castoriadis, Lefort, Lyotard), com a sua crítica às burocracias e ao “socialismo real”; o subverviso Guy Debord, com o seu desvendamento da “sociedade do espetáculo”; sem esquecer os filmes premonitórios de Jean-Luc Godard: Weekend e La chinoise, ambos realizados em 1967, fazendo da arte política sem ideologia. Cinquenta anos depois, tanto o consumo como os “media” e as tecnologias se sofisticaram ao infinito, alimentando agora o arco imenso das indústrias criativas, mas os dispositivos autoritários cederam o lugar ao pluralismo cultural e à tolerância de costumes. O chamado “politicamente correto” que hoje nos constrange mais não é do que uma tardia manifestação do desejo de libertação expresso então pelo movimento.

Com todos os outros temas do movimento sucedeu o mesmo. A retórica espontaneísta do «contra» deixou marcas profundas e a paisagem humana e social de hoje seria bem diferente e bem mais baça sem ela: contra o Estado e os seus mecanismos de enquadramento; contra a família convencional e o recalcamento sexual; contra o racismo e a subordinação das mulheres e crianças; contra a escola disciplinadora e reprodutora de desigualdades; contra o trabalho penoso e o consumo alienante, etc. Tudo isto é culturalmente irreversível, tendo sido absorvido e massificado até ao limite do actual relativismo ante a falência das crenças autoritárias. É este o legado de Maio de ’68 mesmo para quem não o saiba!


Artigo publicado originalmente no periódico português Observador, em 2/5/2018.

Autor(a)

  • Manuel Villaverde CabralCientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.

OPINIÃO / Ciências Humanas, quem precisa delas? Imaginar que a formação das Humanas atrapalhe o país, gastando recursos escassos sem retorno garantido, é como achar que de nada adianta investir em saúde, já que todos vamos mesmo morrer


Excelente artigo de opinião que merece ser replicado num momento tão obscuro da nossa história. Fica aqui toda a solidariedade aos professores e profissionais de pesquisa que nos ajudam a entender melhor a sociedade para que todos possamos viver melhor, sermos mais humanos.

Segue aqui a matéria completa.

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