NOEL ROSA, O POETA DA VILA


Noel Rosa – A saúde frágil e a morte prematura

FILME: “Noel, o poeta da Vila” (de Ricardo van Steen)
“Noel: (Tosse) Eu estou mal doutor. É uma ressaca muito forte.
Médico: Calma, Noel. Você precisa descansar bastante. Tome esse remédio aqui. Você vai ver: não há de ser nada”.
Essa interpretação de diálogo entre Noel Rosa e seu médico Edgar Mello está no filme “Noel, o poeta da Vila”, de Ricardo van Steen. É o momento em que o compositor começa a se dar conta de que está com a saúde muita abalada para a sua pouca idade.
As travessuras da infância evoluíram para uma intensa boemia no fim da adolescência: o álcool, o cigarro e as noites insones já deixavam marcas profundas em seu organismo aos 20 anos de idade.
Com o sucesso de suas músicas, Noel tornou-se ainda mais requisitado. O “poeta da Vila” tinha, então, que dividir o tempo dedicado às amantes, aos cabarés, aos botequins e aos amigos do morro com uma série de outros compromissos nem sempre interessantes, como shows, entrevistas e o casamento forçado com Lindaura.
MÚSICO: “Filosofia” (Noel Rosa, com Chico Buarque)
“O mundo me condena e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim…”
A tosse já acompanhava Noel há algum tempo. Em seguida, veio a febre e ele começou a perder peso de forma mais acentuada. Mesmo assim, não se cuidava nem abandonava as noitadas pela madrugada afora.
O primeiro grande alerta veio em 1934, durante um show que ele fazia no Cine Grajaú, bem perto de Vila Isabel. Noel, com apenas 23 anos de idade, desmaiou em pleno palco. Sob pressão da mãe, ele concordou em fazer alguns exames. E o diagnóstico não foi nada animador.
FILME: “Noel, o poeta da Vila” (de Ricardo van Steen)
“Médico: Infelizmente, as notícias não são muito boas. Eu constatei uma lesão grave no pulmão esquerdo e há qualquer coisa no direito também.
Mãe: Grave?
Médico: Tuberculose! Mas é possível administrar essa doença, Noel. O tratamento da turberculose evoluiu muito nos últimos anos. Dá até para levar uma vida normal.
Mãe: Tem cura, doutor?
Médico: Ele vai ter que tomar muito cuidado, se quiser continuar vivo”.
A atenção e os esforços da mãe Martha e da mulher Lindaura foram fundamentais para ajudar Noel Rosa a recuperar as forças.
Ele passou uma temporada em Belo Horizonte, em busca dos efeitos curativos do clima de montanha da capital mineira. Mas assim que se viu um pouco recuperado, voltou a cair na boemia e até escreveu uma carta bem-humorada ao seu médico Edgar, que, anos mais tarde, foi musicada pelo sambista João Nogueira.
MÚSICA: “Ao meu amigo Edgar” (Noel Rosa e João Nogueira)
“Deu resultado comum o meu exame de urina
Meu sangue 91 por cento de hemoglobina
Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro
Pois não há material pro meu exame de escarro…”
Mas a tuberculose era impiedosa, na época. Após outra crise de saúde, Noel foi levado para Nova Friburgo, na região serrana do Rio. Na verdade, ele pressentia que não duraria muito tempo e algumas de suas músicas refletiam bem esse sentimento. Uma delas é “Último desejo”, que tem força de testamento e de despedida de seu grande amor, Ceci.
MÚSICA: “Último desejo” (de Noel Rosa, com Aracy de Almeida)
“Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão.
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar.
Nunca mais quero o seu beijo,
Mas meu último desejo você não pode negar…”
O jornalista João Máximo, biógrafo de Noel, diz que esse samba-canção para Ceci “fala não só de um amor que se extingue, mas também de uma vida que perde o seu sopro”.
“É uma curta vida. Ele morreu muito jovem, e mal pôde ter o direito de dizer assim: ´eu sou um cara experiente´. Ele era experiente porque era inteligente e sensível, mas a sua vivência, no campo do amor, foi limitada a esses 26 anos, dos quais três, ele passa muito doente, tentando sobreviver”.
A última tentativa de se recuperar foi em Piraí, no sul do estado do Rio. Lá, ele e a mulher Lindaura ficaram hospedados em uma pensão durante pouco mais de uma semana, mas seu estado de saúde voltou a piorar.
FILME: “Noel, o poeta da Vila” (de Ricardo van Steen)
“Vozes em bar: …
Áudio de rádio: “E as notícias do interior não são boas. Consta que o ´filósofo do samba´, Noel Rosa, está em estado crítico devido a uma forte hemoptise sofrida essa noite. Mais informações no próximo noticiário. Voltamos a nossa programação musical depois dos comerciais”.
A hemoptise, que significa expelir sangue ao tossir, mostrava que a turberculose já havia tomado posse dos pulmões de Noel de maneira irreversível.
Ele voltou para casa, em Vila Isabel, mas não resistiria muito. Noel Rosa morreu no fim da noite do dia 4 de maio de 1937, aos 26 anos de idade.
MÚSICA: “Silêncio de um minuto” (de Noel Rosa, com Maria Bethania)
“Não te vejo e não te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem à história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória…”
O escritor e jornalista Jorge Caldeira, autor do livro “A construção do samba”, lembra que, apesar da comoção geral, a família e os amigos de Noel cumpriram o seu desejo de um enterro “sem choro nem vela”.
“A casa onde ele foi velado, em Vila Isabel, na rua Teodoro da Silva, foi invadida por uma multidão, que cantou, bebeu e levou o morto ao cemitério com uma festa de música, como, aliás, estava na letra de ´Fita amarela´: “Quando eu morrer / não quero choro nem vela / quero uma fita amarela / gravada com o nome dela / … / com uma mulata sambando no meu caixão´. Então, foi uma grande cerimônia pagã, popular de entronização do Noel no além. Noel, de fato, conseguiu ali reunir toda a cidade, simbolicamente, em torno da figura dele, que era o projeto da música que ele tinha na cabeça”.
MÚSICA: “Fita amarela” (Noel Rosa, com MPB 4)
“Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Não quero flores nem coroa de espinhos
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho, ô…”


De Brasília, José Carlos Oliveira

Fonte: Câmara Legis